HORAS DE CLARICE
"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)


Quarta-feira, Julho 15, 2009  


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PONTUAÇÃO

Há os que forçam as distribuições de seus segredos, quase que empacotados e etiquetados. Os que cravam assuntos para dar suporte aos desabafos decorados pela repetição, esvaziados pela ausência do outro que permita a criação de um diálogo. Ainda os que escondem debaixo de colchões suas verdades, por medo de perdê-las. Ou que lá escondem a si próprios. Os que não saem de dentro di si, enclausurados. Perdidos na ilusão do que lhes parece mais seguro – mesmo já tão velho o dito sobre o perigo de viver. São miragens as plataformas que se cristalizam pela crença inquestionável.
Não se pontua uma escolha. Talvez a escolha de um livro, de uma cor pela outra, do instante pro cigarro. Mas não uma escolha que se estenda, de uma escolha que rume as próximas escolhas. Não se pontua o momento em que se deixa alguém entrar. Pontua-se o sim para eventuais passeios, brindes de cerveja e sexo. Mas jamais o movimento de concordância que envolve dedos emaranhados, domingos preguiçosos no sofá e troca de olhares que segredem compreensões. Não se pontua a entrega. É possível controlar impulsos, equilibrar ansiedades, dividir angústias. Mas a entrega – traiçoeira que é – faz-se às escondidas, na mordida do doce alheio e nas mãos que passeiam pela perna por baixo da mesa. E só é possível, em sua verdadeira concepção, se recíproca.
E cria raízes que se agarram pelos desenrolares do tempo e das disposições. A entrega é mais do que uma somatória de miúdas escolhas, a entrega é uma fé. Ser tão o que se é para que seja possível doar-se sem poréns. Quem estará disposto aos percalços do desconhecimento territorial alheio? São corajosos e vivos que lançam a alma no redemoinho, sem cordas ou capacete. Abrindo mão de corrimões.
Há ainda, ironias da existência, as entregas descompassadas. A intenção mútua dos amantes, vontades recíprocas de pertencimento, mas: o desencontro. Movimentações delicadas e inflamadas de atenção, como que se mirando em espelhos, se olhando e se pretendendo reflexos perfeitos da ação do outro. Ou frustram-se pela assimetria dos gestos, ou congelam-se para facilitar a simulação de uma igualdade: o encontro. E se de cá chora um, o do outro lado escorre também suas lágrimas. Já sem controle se o faz por cumprir a tentativa de gestos harmoniosos, ou se por choro seu, de tristeza também real. Fato é que, por fim, a entrega se dá até mesmo na negação. E, por isso também, a incapacidade de pregar alfinetes coloridos nos nós dos acontecimentos que signifiquem a decisão de entregar-se. Quando dá-se conta: deu-se.
A entrega é mesmo livre, assim. Feito estalo em folha seca. Feito um sussurro se alongando pelos tímpanos. Uma vez em terras férteis, ainda que chova ou vente em demasia, ou que por acontecer o contrário, seque o chão até as funduras, uma vez caído o grão, ela nasce. Em silêncio e tortuosa, desenhando seus mistérios. Indo embora sem avisos. Abandonando o ventre remexido e vulnerável. Instaurando nova espera.
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posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

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