HORAS DE CLARICE
"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)


Quarta-feira, Outubro 22, 2008  


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NEGACEAR

[Não faz a mínima idéia de quando o conceito de Morte entrou em sua vida como uma idéia inteira, possível de ser pensada.]

Na latência de um otimismo bem construído liam-lhe nos gestos uma disposição indiscutível para os acontecimentos. Daquelas gentes da gente manter perto, pra clarear as anuviações que de vez em quando nos tomam. Era bem-vinda, sempre. A primeira a ser escolhida no time de queimada, a receber cartões de admiradores secretos e a ser pedida em casamento. Mas e não é que existe sempre alguma morte na decisão já tomada? – Esquivava-se, indo em frente sem as camisas que lhe ofereciam e chutando as bandeiras que lhe esticavam.

Ia além de brigar pela vida, de acreditar no fio em que se suspende toda a permanência nascida. Era a negação. Negava, entortando o rosto, a testa suada e tensa. Negava qualquer faísca de morte, qualquer trâmite que ameaçasse sua plenitude bem formada.

Triste era saber que a tal boa formação não lhe convencia por inteira. Tinha medo, ela. Um medo danado de morrer sem se dar conta. De ver os dedos dos pés necrosarem, subindo pelas canelas, tomando a vagina, o umbigo, murchando os seios. E quando chegasse aos olhos? Negava qualquer tipo de morte, por medo de ser surpreendida – vai saber que tantos tipos tais existem.

Nunca admitiu a morte. Nem em suas menores demonstrações – a semente de pêssego ressequida na pia. Tinha aversão a qualquer possibilidade de definhamento. Escolhia amigos não por gosto, mas por peles coradas e brilho nos olhos. Não se curvava a reclames, não respondia pedintes, não encarava capas de jornais. O apartamento era colorido. O plástico dava conta da vida que ela não plantava. Não fazia yoga, não acreditava em incensos e nunca rezou.

Tratava-se, pura e simplesmente, de negar a morte.

Que espécie de exigência fazia ao mundo? De que forma esperava não ser contrariada? Que só não perde nada aquele que nunca comprou fichas. Ela comprava em compulsão, para não se lembrar das que perdia, nos bolsos furados. Nunca admitiu a morte aos seus redores. Não se permitia passageira da vida. Queria as mãos dadas aos que mantêm o salto em suspensão, segundos que antecedem o gozo, arrepios que emocionam o por dentro, se exteriorizando.

Uma vez, com tanto medo de enxergar sua morte na fraqueza de não dar conta, aceitou a travessia um rio de correnteza previamente avisada. De águas nos ouvidos, canal do nariz e boca se entupindo, as pernas tremendo em força que se esticava ao que podia, coração em bomba a explodir. Ela soltou os braços do nado, deitou as costas na nata da água, abriu os olhos pro céu: banhou o rio de lágrimas duras e negras. Pegaram-na puxando pelos braços – sem que ela nunca soubesse que a profundidade de toda a extensão não era maior que sua altura.
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posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

Quarta-feira, Outubro 15, 2008  


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CALOR

Calor dos infernos. Forno. Quente pra porra. Uma estufa.

As meninas que se assanham de pernas e peitos à mostra. Os cabelos em rabos de cavalo ou coques presos com grampos. Dedinhos dos pés respirando em sandálias: rasteiras, de tirinhas, plataformas, coloridas, com detalhes, sem fecho, amarradas.
As bermudas neles. Pelos suando pelas canelas que terminam em havaianas. O peito, sem camisa, reflete a claridade toda de dias assim. Amarram o pano na beirada, pela cintura, ou jogam pelos ombros, como que esquecidos do tal.
Uns de óculos escuros, outros de olhos apertados. Gotas espalhadas pelo rosto: envolta da boca, no queixo, na beiradinha do nariz, na testa próximo de onde nascem os cabelos. E nas moças, o meio dos seios. Já nos homens, escorrendo pelas costas. Todo mundo com a nuca molhada.
Tome água, picolé e papel firme a balançar um vai-e-vem que sopre fresco na cara.

E dizem que de lá nunca se viu calor igual, os olindenses. Subindo e descendo as ondas de pedra com o a pino lhe estapeando as cacundas. E de Resende o carioca arreganha os vidros do carro, pretexto pro som alto e batido – potentes caixas de som. Setelagoanas insistem em cobrir as coxas, as moças. Nas mesas da calçada, sem vagas, tomemos mais uma e mais outra. E dizem de longe que se abafa em suores, aqueles de Taubaté – um tanto de tostões em gasolina no vai e volta da serra. Grita uma claridade nos olhos aquela Taquaritinga entre repiques. A noite continuando o que foi do dia, chamando pro que ainda se oferece de festa. E parece que até lá fora, nos pertos de Nova York, calor escorrido assim nem nunca se soube. Dá-lhe ar condicionado, praias pagas e cerveja mexicana. Paulistanos mantêm seus guarda-chuvas ao alcance: a moça do tempo avisou no jornal que lá vem frente fria.

Combinações simultâneas de gorós depois do expediente. Universitários durante as aulas. Ousados abrem suas garrafas já na hora do almoço. Mais ousados ainda, há os que abrem a primeira e não voltam pro período vespertino. Espertos confirmam viagens para o litoral. Idosos aproveitam a sombra das árvores. Marombeiros fazem aula na piscina. Chefes não aparecem no serviço. Preguiçosos se sentam em frente ao ventilador. Crianças tomam banho de mangueira.

Um bafo. De rachar mamona. Derretendo o asfalto. Calor dos infernos.
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posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

Sexta-feira, Outubro 10, 2008  


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SOBRE CHAVES E SELOS

Térreo. Beatriz ouviu a porta de vidro bater, os passos de alguém no hall do prédio. Ela entrou no elevador e segurou a porta com a mão. Os olhares se encostaram um pouco incomodados, desconfortáveis. Ela apertou o oitavo, ele agradeceu por ela ter esperado, num breve obrigado quase sem a sonoridade final, e manteve-se quieto durante a subida dos primeiros andares. Como que num susto, apertou o décimo segundo.

- Quase esqueci! – num sorriso macio, e olhou a menina sem encará-la muito, mais concentrado em qualquer coisa entre seus papéis. Não parecia sério e preocupado, mas antes concentrado em suas idéias.

Deve ser professor, foi o que Beatriz pensou quando olhou a pasta de couro surrada e o moletom esgarçado, lã azul escura desbotada e cheia de bolinhas. Usava óculos. Ele e também Beatriz.

Oitavo. Ela ajeitou a bolsa e se posicionou em frente à porta. Antes de sair virou-se dando tchau e boa noite. Mauro parecia, mais uma vez, respondê-la quase num susto. Tinha os gestos risivelmente atrapalhados, mas ainda assim, sem estabanar-se.

Na manhã seguinte, por volta das 7h, mexia nas correspondências quando o elevador chegou.

- Beatriz Fonseca, sim. Ana Carolina, não. Ana Carolina, não. Não. Não. Beatriz, sim. Sim. Pronto. – deixou as cartas de “não” sobre o tapete e então levantou a cabeça.
- Pena que todas as correspondências que vêm com nosso nome são contas, né?

Era Mauro quem segurava a porta, num semblante tranqüilo, um quase sorriso.

- Pois é, tudo virou e-mail agora, né? – disse Beatriz entrando e conferindo se ele apertara o botão do térreo.
- Aqui ó, esse bolo de envelope e nada de cartão postal, história de alguém em outra cidade, um amigo de infância restabelecendo contato...Pelo menos ainda me tratam pelo nome, né? Senhor Marcos Salles. Excelentíssimo Marcos Salles. Amigo Marcos Salles. É, ta bom, vai.

Riram cúmplices. Apesar da conversa trivial, dos poucos minutos até o elevador parar e ele dizer que desceria até a garagem, parecia já se conhecerem a mais tempo do que os dois encontros no elevador. Antes de descer, mais uma vez, Beatriz virou-se para dar tchau e um bom dia. Dessa vez ele parecia já esperar que ela se despedisse.

- Bom dia. E boa leitura, esse cara aí exige bastante fôlego.

Antes de colocar o livro na bolsa, Beatriz olharia primeiro para a capa e depois para a porta do elevador, já fechada.

...

Pareceriam demorar os anos todos até que ela completasse seus 22.
Ele, com mais 22 além dos dela.

...

Se encontrariam freqüentemente no elevador, sempre saindo e chegando – os horários se casavam. Beatriz passaria a descer com Marcos até a garagem, enquanto terminavam algum assunto, depois tornaria a subir para o térreo para ganhar as ruas até o ponto de ônibus. Marcos passaria a oferecer caronas, todos os dias, mesmo que trabalhassem em diferentes direções. Ela nunca aceitaria, elogiando a rapidez e facilidade de pegar um único ônibus até o trabalho. Ele repetiria que já pensou muitas vezes em vender o carro e viver só de transporte público. Ela descobriria que ele é jornalista e trabalha numa editora pequena. Ele ficaria sabendo que ela se formou em administração, por influência do pai, profissão que não gostava. Nem desgostava.

- Mas teve uma época em que eu comprava livros compulsivamente, era uma coisa horrorosa.

Beatriz rindo do jeito dramático dele contar as histórias.

- Eu queria morar na sua casa. Você deve ter uma biblioteca fantástica, tantas músicas e filmes, né?
- Tem bastante livro, sim. Vinis e CDs eu tenho menos, mas também tenho alguns. Filme é uma coisa que eu nunca tive muito costume de comprar, não. Mas se quiser dar uma olhada eu te empresto alguma coisa. Se você fugir é só eu pegar o elevador e descer quatro andares pra resgatar os objetos!

Conversavam na garagem, enquanto Beatriz segurava a porta do elevador, para subir novamente ao térreo.

- Mas eu queria morar na sua casa por mais que isso, sabe? Mais do que estar lá fisicamente lendo seus livros, ouvindo suas músicas e bebendo vinho, que você deve ter, né? – riu-se um pouco tímida.

Marcos manteve os olhos levemente apertados, olhando-a com curiosidade, enquanto ela continuava:

- Eu queria morar lá porque se eu fosse alguém que você quis que morasse lá, é porque eu seria uma pessoa muito legal. A minha vontade era de merecer morar com você, entendeu?
- Entendi. – respondeu-lhe, sério mas sem peso.

Marcos deu-lhe um beijo no rosto, ofereceu mais uma vez a carona que Beatriz recusou, com o rosto levemente rosado pela confissão.

...

- Beatriz Fonseca, sim. Ana, não. Beatriz, sim. Sim. Sim. Não. Ana, não. Beatr.. o que é isso?

O envelope amarelo tinha como remetente Marcos Salles. O elevador abriu, ela entrou enquanto rasgava o papel e descobria junto ao bilhete uma chave:

Querida Bia,

Talvez quem não mereça sua companhia é esse cara que já passou dos quarenta, se desiludiu com um bocado do mundo e esqueceu como ainda gosta dos livros que comprou compulsivamente um dia.
Já não nos vemos com a mesma freqüência desde que você mudou de emprego. Então eu te deixo a chave da minha porta no décimo segundo andar: vá se familiarizando com as estantes, pegue o que quiser, pode abrir os vinhos e quando eu voltar dessa viagem que estou indo fazer para Portugal, você me conta sobre o que leu e pensou.
Esteja preparada para receber alguns cartões postais, também.

Um beijo,
M.


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posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

Hermann Hesse, por Andy Warhol
Os Dias de Ontem

Palavras e Imagens

Alquimia do Verbo
Arara Teresa
Atire no Dramaturgo
Bruna Amado
Chuva Plástica
Escrita Boêmia
Flor Carambola
Hipertricose Nasale
Jé Mimessi
Maroca
Memórias do Café Nice
Misson
O Carapuceiro
Pelas Tabelas
Ranchocarne
Solilóquios Idioléticos
Sinclair Acapulco
Taverna Fim do Mundo

A Voz do Silêncio