HORAS DE CLARICE
"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)


Segunda-feira, Agosto 25, 2008  


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NAZARENAS E ABANDONOS

Quando Nazarena mexia o copo de café mirando os olhos na marca que o sol fazia no assoalho, sabia eu que lá nos vinha tormenta. Então se levantava, enquanto engolia pacientemente cada gole sonoro, e vinha dar-me um beijo na cabeça. Meus olhos de menino tinham medo de encará-la nesses dias. Ficava a lamber os dedos sujos de manteiga, borrando de óleo a caneca azul.
Nazarena se matou no verão de minha primeira série do ensino fundamental.
Mamãe me buscou na escola com uma blusa negra num sol que, se me lembro ainda hoje, doem as retinas. Ela tinha as mãos geladas e durante o caminho foi me pedindo para falar o que eu achava de Nazarena, se ela era engraçada, se brincava comigo, se eu gostava de suas broas e pães. Apesar de ter na memória uma infância de silêncios e olhares, naquela tarde cheguei a acostumar-me com minha voz.
Na esquina de nossa rua mamãe se ajoelhou na minha frente, tinha os olhos marejados e os lábios ressequidos. Eu tive medo, me ajoelhei também, imitando seu gesto por não saber como proceder.

- Nazarena não está mais lá em casa, filho. Ela precisou ir embora, não podia mais ficar. Quando você crescer mais um pouquinho, vai entender melhor essa coisa dos adultos precisarem partir.

Foram longos e difíceis os passos até nosso portão. Tudo me parecia mais lento e pesado. Eu não senti vontade de chorar e fui inventando uma raiva de Nazarena. Seu descaso com nossos segredos, seu desinteresse em terminar as regras dos jogos que inventávamos, aquela displicência toda em partir sem antes, enfim, deixar-me ajudá-la com os bolinhos de chuva.
Nazarena tinha cheiro de terra. As mãos eram um tantinho ásperas, boas de deixar deslizar nas costas da gente. E fazia um cafuné gostoso depois do lanche da tarde, no sofá. Nazarena tinha, também, os pés grandes e me deixava brincar com seus chinelos vermelhos.

Quando completei 13 anos, meu pai autorizou uma festinha para os amigos lá em casa. Me lembro da lista com os 37 nomes. Mamãe pediu que eu ajudasse nas compras e passamos toda tarde daquela sexta percorrendo supermercados e lojas, para providenciar tudo para o dia seguinte. Enquanto eu segurava as sacolas, mamãe correu até a prateleira de descartáveis porque estava esquecendo copinhos e talheres.
Do lado de fora, do outro lado da rua, passou Nazarena.
Senti meus joelhos perderem a força, meus dedos vacilarem nas alças de plástico. Meus olhos estancaram em seu movimento lento e contínuo e não consegui chamar minha mãe. Quando ela me encontrou branco e trêmulo quis saber o que acontecera. Disse eu que Nazarena havia passado por ali.
Riu-se. Triste e aliviada. Contou-me que Nazarena havia se suicidado naquela época. Que nunca me contara essa história por medo de me chocar.
As sacolas arrebentaram no chão, abracei minha mãe em soluços que me doíam as costelas. Pesou-me toda a ausência de Nazarena, transformou-se em desilusão toda a raiva que sedimentou-se desde que Nazarena tinha ido embora.

Mês passado o pai de minha esposa matou-se na banheira de seu apartamento, aos 93 anos. Suspeitávamos de que ele estivesse ficando esclerosado, mas não imaginávamos tal desfecho. Admirou-me o fato de eu não querer chorar. Abracei minha mulher durante todo o velório e o enterro. Mas sentia constantemente a vontade de sorrir. Recebi dela olhos sinceros de gratidão por minha calma e atenção.
Ontem, quando cheguei de mais uma quarta-feira de trabalho, li no móvel da sala o bilhete de despedida de minha esposa. Não teve coragem de me encarar pra dizer que partiria e preferiu sair quando eu não estivesse, deixando um bilhete.

Deve ser por causa de Nazarena que as histórias de suicídio me parecem mais doces.
Quando senti que a morte me doía mais do que o abandono, entendi porque é que as pessoas precisam partir.

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posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

Sexta-feira, Agosto 15, 2008  


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Enquanto tomava meu café expresso e grifava Harold Bloom - dizendo que Dom Quixote e Sancho Pança só passam por mudanças durante a narrativa porque se ouvem reciprocamente, e não porque se enclausuram dentro das próprias idéias e solidões - um par de all star vermelho se aproximou da minha mesa:

- Oi, você é a Karina*?

Meus olhos caminharam sobre minha xícara, a calça bege, camiseta com listras horizontais, barba mal feita e uns olhos tão doces por trás dos óculos de aro preto.

- Karina? Não, não...

Quando repeti o nome que me perguntara, ele manteve as mãos que seguravam livros mais na altura do rosto, como se quisesse enconder-se disfarçadamente atrás deles. E antes que eu chegasse a dizer o terceiro "não" acompanhado de "meu nome é Fernanda", ele agradeceu, pediu desculpas e saiu encabulado.
Eu, que me intimido tanto quanto a pessoa que se envergonhou, abaixei a cabeça sobre o texto novamente, sem sanar minha curiosidade em saber se ele tinha saído da cafeteria ou sentado em outra mesa. Larguei os olhos nas palavras, que me pareceram todas soltas, e me pus a pensar na tal Karina, no tal encontro, no acontecido desencontro e nessas artes da vida, como bem já disse tal poetinha.
Mas logo voltei-me pras digressões à respeito das andanças do Cavaleiro da Triste Figura.
A porta de vidro se abriu e ele entrou acompanhado de um casal. Sentaram-se a duas mesas de distância. Ele de costas pra mim. O casal de frente.
Perguntaram-lhe onde ele trabalhava. A moça [Karina? pensei] era linda com seus cabelos cacheados colocados delicadamente para trás das orelhas. Vestia uma blusa clara que deixava o colo dos seios nús de maneira tão pura. Ela olhava sorrindo muito, com tanta entrega de um encantamento óbvio, enquanto ele respondia:

- Trabalho em casa.

O casal se entreolhou rindo, uma gargalhada leve e satisfeita.

- A gente queria saber, na verdade, o que exatamente você faz.

E agora quem falava era o cara que parecia acompanhar a garota, não como namorado. Não tinham mais de 35 anos cada um ali. E esse outro moço, de tênis verde, calça jeans clara e cabelo desgrenhado, tinha um sorriso de homem. Os olhos miúdos eram tão atentos e encantados quanto os dela. Os dele, de costas pra mim, eu não via. Mas ele sorria, eu soube por sua voz que explicava o que, exatamente, fazia no trabalho atual.
Falavam de revistas e publicações. Falavam de estudantes, universidades, outros estados e capitais. Eram idéias. A menina olhava para o de tênis verde enquanto ele sugeria uma idéia e então ela também dizia uma outra e eu via a nuca do de all star vermelho se movimentar afirmativamente, gesticulando as mãos.
Me pareceram tão vivos e inteiros. Tão dipostos a darem certo.
Vontade de puxar minha cadeira, pedir mais um café e fazer parte desse futuro promissor.

Guardei meu texto, conferi o horário que marcava o fim do meu intervalo pro almoço e passei pela mesa dos três sem olhá-los.

*Karina: que escrevo assim, com K, por motivos pessoais de carinhos e vivências.
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posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

Segunda-feira, Agosto 11, 2008  


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Eu digo meia palavra. Gesticulo mudamente. Encho o copo e sei que tenho os olhos dispersos. Será o Paraíso desprovido de som? Que só atravessam os grandes portões aqueles cujo silêncio fez-se fé. A que eu tinha, verti junto ao último gole de cerveja. Segurei o copo embaçado na altura dos olhos deixando somente o direito aberto e vi ali, num amarelo opaco, o elixir das crenças reencontradas. E bebi, lentamente, antes de decidir o tamanho do rasgo que fariam os entremeios da vida. Que tudo quanto não tem nome existe mais por não fazer-se em rédeas. E vou rezando, cautelosamente, pelo rumo do sangue que se me corre parece já morto de uma espera prometida. Sem dar-me conta das aporrinhações que fazer-se em peso traz, vou trocando aleatoriamente, grão por grão, as ordens de raciocínios enfermos.

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posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

Hermann Hesse, por Andy Warhol
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