Quarta-feira, Julho 30, 2008
.
OLHOS
Num tempo de coitos interrompidos e hímens invioláveis a vergonha era marca de bois.
A primeira vez que Lúcia tirou a roupa sem cobrir os seios com os braços foi para ele. Já sem as sandálias, tirou primeiro as calças. Calcinha. Colocou as mãos nas costas desabotoando o sutiã. Puxou as alças pelas mangas da blusa. Não se virou de costas. Olhava nos olhos dele. Ele deitado. Completamente vestido. Lúcia mordia os lábios, tremendo. Tinha medo nos olhos dela. Ele bêbado. Olhava como quem espera a chuva que aponta a metros de distância. Ela segurou a barra da blusa e apoiou os cotovelos na altura da barriga fazendo, num malabarismo sem ensaios, a blusa tombar no chão. Em pé e nua. Lúcia mastigava entre a saliva grossa o resto de vergonha que nutriu até então.
Perdia-se o lugar na casa e a estrada era destino indiscutível.
Quando ele marcou de pegá-la na estação Sumaré, Lúcia saiu de casa com tanta antecedência que pode terminar a leitura de seu livro, encostada nas catracas. Levas e levas de pessoas chegando e saindo. Grupos coloridos e cansados. Lúcia folheava calmamente a brochura entre as palmas, vertendo, vez em quando, os olhos pra direção da saída – por onde ele entraria. Mudou de posição três ou quatro vezes nas quase duas horas em que se manteve ali de pé. Na semana seguinte, em casa, leria tudo de novo com as atenções devidas nas páginas já viradas por ela na estação. O moço que varria o chão pediu licença para limpar aquele espaço onde Lúcia estava. Uma vez mais os olhos na porta de saída. E quando ele chegasse, olhos dele de procura, ela estaria com o livro apertado contra o peito, rangendo os dentes, ansiosa.
O resto dos dias numa lamúria da pele rompida.
Meia marguerita, meia calabresa. Cerveja de garrafa a preço módico. Ele terminava de apertar o toco de um cigarro no cinzeiro enquanto Lúcia servia-os dos pedaços escolhidos. Num gesto automático ele enfiou a mão no prato de Lúcia, roubando sua azeitona preta. Ela parou o movimento de buscar o copo, no meio. Olhou estupefata. Ele mastigou, lentamente, arranhando a pele da azeitona com os dentes da frente. Lúcia deixou a mão pousar sobre o vidro e trouxe o líquido até a boca, sem titubear o olhar. Ele cuspiu na mão o caroço, colocou ao lato da bituca apagada, deu um gole em sua cerveja. Quando apoiou o copo sobre a mesa ele levou os olhos para os de Lúcia – que permaneciam duros e assustados. Ele, então, desceria os dedos até alcançar a saia de Lúcia e subiria lentamente, fazendo-a descruzar as pernas. No resto de pizza e de noite os olhos de Lúcia lamberam-lhe os cabelos, os braços – os dedos.
Abrigos com pouca luz e muitos poros. Às vezes nem notas e vinténs, mas comida e pouso.
Quando ele dormia, deitava a cabeça sobre o braço esquerdo. Com o direito, encostava em Lúcia. Era a disposição estabelecida desde a primeira vez que Lúcia ficara na cama dele. Nas noites de garrafas de vinho esvaziadas ao som dos vinis que ele trocava, era comum que dormissem atravessados um no outro. Pernas sobre as costas, cabeça dele nas nádegas de Lúcia. E nos dias seguintes das tais noites de atravessar corpos, o prazer era conferido no espelho do banheiro. Lúcia tinha olhos graciosamente inchados. Não de muito sono, que era comum que ele a acordasse logo pelas oitavas horas da manhã. Lúcia de olhos cheios. Iam ainda, e já, nus para o chuveiro. Lúcia, enquanto amarrava os cabelos, fingia não reparar nos próprios olhos cheio de gozo.
Os olhos todos a lembrar-lhes a vergonha. E a vergonha: uma espécie de morte.
.
posted by FEFA ALMEIDA SILVA |
O Inferno São os Outros
Domingo, Julho 06, 2008
.
VIELAS TEMPORAIS
[quando Clementine conta para ele que não gostava de sua boneca porque ela era feia. É essa a cena. Eles estão debaixo dos lençóis e ela chora atordoada: “seja bonita!”]
três anos e sete meses antes
Clara enroscou as pernas se emaranhando no corpo sonado de Vitor. Ele colocou a mão sobre seus cabelos, mexendo os dedos lentamente enquanto ela sorria. Não passava das duas da madrugada. Na sala o som ainda ligado. Uma garrafa e meia de vinho tinto foi o que consumiram entre danças, sexos e cigarros.
- Eu nunca fui uma das meninas mais bonitas da sala. Eu não era conhecida e, muito provavelmente, a maioria das crianças que eram da minha sala, hoje em dia não se lembram de mim. Eu até gostava de passar despercebida, de alguma maneira. Lembro de uma menina, Tatiana, que era a menina mais bonita da sala. E todos os meninos queriam ficar perto dela, e todas as meninas queriam ser amigas dela. Engraçado, né? Eu não era amiga dela, não. Eu andava com a Rafaela. A gente sentava mais no canto da sala.
Vitor continua a afagar os cabelos de Clara. Ininterruptamente. Diz, com a voz baixa, que ela devia ser a menininha mais linda da classe. Ele tem certeza. Ela prossegue a fala, sem desviar a narrativa.
- Acho que por isso eu era muito vaidosa. Eu sabia que não era bonita. Tirava notas boas, mas mesmo assim as professoras não sabiam meu nome. Eu lembro quando tinha aula com a tia Bete e eu gostava muito dela. Fui aluna dela três anos seguidos. Aí um dia ela foi fazer a chamada e falou “Ué, porque tem esse nome aqui na chamada? Tem alguma Clara aqui?”. Ela não sabia meu nome. Eu tive que levantar a mão pra dizer “sou eu, tia Bete”. E lembro de ter ficado tão triste, tão triste.
- Clarinha., você é linda. Linda! Você é a mulher mais fantástica e linda que eu já conheci.
Ele se desenroscou dela, colocando seus olhos na altura dos de Clara. Vitor beijando seus olhos molhados. Ela fincava as unhas nas costas e braços de Vitor. Um desespero amarelecido, mas ainda tão vivo. Cheiro forte de tempo que passou sem ir embora. Transaram uma vez mais. Clara gritou e chorou até sentir-se cansada. Vitor repetiu a noite toda enquanto a olhava: linda, linda, linda.
Na manhã seguinte Clara tinha o rosto adoravelmente inchado e se encarando no espelho do banheiro deixou os lábios se soltarem num sorriso leve. Fez café enquanto Vitor ainda dormia.
dois anos e dez meses antes
Clara se enroscou no pescoço de Vitor, beijou-lhe a cabeça, testa, olhos. Sorria satisfeita, apaixonada.
- Eu te amo!
Ele apertou-a pela cintura, puxando seus cabelos, fazendo a cabeça de Clara se inclinar para trás. Foi beijando seu pescoço e descendo pelos seios, cheirando-lhe a barriga, abraçando-lhe as pernas.
- Você vai ficar comigo pra sempre? - Vitor quis saber.
Clara baixou os olhos, séria.
- Você vai embora antes.
um ano e cinco meses antes
A mãe casara-se muito jovem, engravidara dele e o pai tinha ido morar com outra mulher quando ele ainda era pequeno.
- E eu chegava em casa, da escola, a porta do quarto dela tava sempre fechada. Eu gritava já do portão, porque sabia que ela nunca ficava sozinha. E um dia eu quis ver. Eu não queria mais fingir que não sabia. Eu quis ver. Entrei em casa sem fazer barulho. Eu lembro de tirar o tênis antes de entrar, porque não queria que ela me ouvisse. E deixei a mochila numa poltrona que tinha logo na entrada da sala. Fiquei ouvindo os gemidos dela. E tinha algum outro gemido também, de homem. E eu não consegui passar da sala. Fiquei sentado no tapete. Sentei e fechei os olhos, com as mãos apertando o ouvido, mas continuava ouvindo, eu ouvia e não queria mais ouvir e queria que ela me visse ali, queria que ela soubesse que eu tava ali, que ela parasse, que ela parasse, que ela parasse.
Vitor dormiu no colo de Clara. Enquanto ainda sussurrava o resto da história e deixava escorrer lágrima e saliva, misturadas. Um desespero que ela não sabia como cuidar. Deixou que o menino se agarrasse em suas pernas e ouviu, tudo em silêncio.
três meses antes
- Eu preciso ligar pra minha mãe. É aniversário dela hoje.
A água fervia no bule enquanto Clara dava descarga. Veio com a camiseta de Vitor vestida pelo avesso, os cabelos num coque que a deixava mais séria e mais velha. Ela se aproximou segurando o telefone e dizendo que ele ligasse logo, então. Que não seria tão difícil. Mas era.
- Eu vou ficar com sua camiseta, ta?
- Ta ué, por quê? Você sempre fica. Por que ta me perguntando?
- Ah, não sei. Te incomoda que eu use?
Vitor saiu da cozinha com o telefone na mão, já discando.
Clara passou por ele na sala e foi para o quarto.
- Por que você tirou a camiseta, Clara?
- Conseguiu falar com sua mãe?
- Consegui. Ela te mandou um beijo. E eu falei que você também tinha mandado um.
- A gente podia sair pra comer alguma coisa hoje a noite.
Naquele dia Clara estava triste. Esforçou-se. Colocou um vestido colorido, sandálias baixas e soltou os cabelos. Pintou levemente os olhos e desceu para portaria de seu prédio, esperando Vitor passar. Esperou 20 minutos além do combinado.
- Ué, aconteceu alguma coisa?
- Me atrasei
- Isso eu sei. Fiquei aqui quase meia hora te esperando.
- Desceu antes porque quis, eu falei que te ligava quando estivesse aqui embaixo.
Fez-se um silêncio pesado. No sinal vermelho Vitor olhou para Clara, que olhava para frente. Clara virou-se para Vitor:
- O que foi?
- Nada. To te olhando, toda arrumada.
- Ta ruim?
- Não. Ta bonita.
- Você não gostou, né? Sei lá, fiquei com vontade de me arrumar.
- Gostei sim.
- Acho que eu não tava me sentindo muito bem hoje, tava me sentindo desinteressante, aí eu quis me arrumar mais.
Vitor estava olhando pela janela. Uma mulher atravessava o sinal a pé. Clara sabia que ele a estava olhando da maneira como ela quisera que ele tivesse a olhado quando entrou no carro. Baixou os olhos, querendo chorar.
- Você não acredita em mim, né Vitor?
- Do que você ta falando, Clara? - e na voz um tom de impaciência.
- Você acha que todas as mulheres são iguais a sua mãe e não consegue acreditar em nenhuma delas. Por mais que eu te entregue todos os meus segredos e confie em você sem poréns, você sempre pensa que vai chegar em casa e me ouvir com outra pessoa, não é?
O rosto de Vitor foi se enrugando. Ele mirou os olhos, incrédulo de que ela lhe estivesse dizendo aquilo. Continuou dirigindo, sem falar palavra.
- Onde a gente ta indo?
- Pra minha casa.
- Pra sua casa? A gente não ia sair, Vitor? Eu não me arrumei à toa. Você acha que coloquei esse vestido e passei lápis no olho pra gente ficar tomando vinho barato na sua casa?
- Não, eu não acho. Acho que você se arrumou assim porque nunca deixou de se sentir aquela menina da quarta série.
hoje
Clara levantou às 11h37 do domingo ensolarado. Sozinha.
Vitor levantou às 9h23 do mesmo domingo. Comprou pão e leite. Leu o jornal. Assistiu pedaços de programas na TV e ligou para o amigo. Mais para o fim da tarde sairiam para um chope.
Clara tomou banho com medo de se olhar no espelho. Não se decidia por sentir-se livre ou eternamente fadada ao que era. Antes de colocar as roupas, pintou os olhos. Deixou os cabelos escorrerem água nas suas costas nuas.
dois meses adiante
Clara choraria enquanto Vitor lhe beijaria as mãos, braços e olhos. Prometeriam mutuamente ficar juntospra sempre. Clara contaria do medo que deu não mais tê-lo. Vitor confessaria nunca tê-la visto tão bonita. No dia seguinte almoçariam macarronada na casa da mãe dele. Ela não pintaria os olhos. Ele a levaria para jantar fora.
.
posted by FEFA ALMEIDA SILVA |
O Inferno São os Outros
|
 |
Palavras e Imagens
Cotovelares
Maroca
Misson
Chuva Plástica
Jé Mimessi
Bruna Amado
Taverna Fim do Mundo
Escrita Boêmia
Pelas Tabelas
Take Five
Atire no Dramaturgo
Alquimia do Verbo
Sinclair Acapulco
A Voz do Silêncio
|
 |
 |