HORAS DE CLARICE
"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)


Quinta-feira, Junho 19, 2008  


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Lúcia disse que não desejaria filhos se não soubesse em si o dom da maternidade. Foi o que ela disse antes de parar os passos diante de uma vitrine colorida. Renato prosseguiu, acelerando a caminhada. Agora pensando, está quase certo de que correu quando se distanciou de Lúcia. Sim, ele correu. Tem certeza. E correu forçando os músculos da perna até a exaustão. Ininterruptamente Av. Brigadeiro Luiz Antônio abaixo, chegando ao Parque Ibirapuera. Renato nunca mais viu Lúcia. E viu as fontes que excepcionalmente estavam ligadas naquele fim de tarde de uma terça-feira fria. Termômetros marcam o dia mais frio do ano na cidade de São Paulo. Os fortes jatos d’água dançavam – talvez comemorando o recorde nos graus centígrados. Mantendo fixos os olhos na lagoa espelhada, Renato enfiou a mão direita no bolso e desligou o celular sem tirá-lo da calça. Renato conhecera Lúcia numa festa de amigos em comum: Lúcia segurava um copo de cerveja enquanto ria e olhava para Renato que segurava um copo de cerveja enquanto ria e olhava para Lúcia que segurava um copo de cerveja. Enquanto seguia a passos largos, ainda que lentos, Renato sentia tremer os joelhos. Há quanto tempo não fazia algum esporte? A blusa de lã e os sapatos não eram exatamente as vestimentas mais apropriadas para se exercitar. Renato continuou entrando no parque. Ele pensou que dali até o metrô Conceição, perto de sua casa, seria uma longa caminhada. Naquele dia jogou a cópia das chaves de Lúcia num bueiro da Avenida Rubem Berta. E quando Lúcia aceitou seu convite para irem pro apartamento dele, ela elogiou a organização desse um cara que morava sozinho. E Renato acordou dedicando as duas primeiras horas de seu despertar, no dia seguinte, a contemplar o corpo sonado e nu de Lúcia, tão linda. Ela nunca saberia. As placas pregadas no chão iam informando a quilometragem. Maratonistas são pessoas engraçadas, foi o que Renato pensou enquanto cruzava um dos imensos gramados. Como é que as placas de proibido pisar na grama são colocadas? Lembrou dessa frase num email que não tinha graça nenhuma. As pessoas gastam tempo com um bocado de besteiras. Depois de pensar nisso, aí sim, sorriu. O sorriso de Lúcia era mesmo encantador, como dissera sua mãe quando conheceu a nora. Tinham viajado para o interior de São Paulo. Renato gostava da idéia de dar um pedaço de sua infância para ela. Lúcia nasceu em São Paulo. Dez milhões e meio de habitantes. Era o tipo de número que fugia da abrangência de idéias de Ricardo. Feito quando pensava nos valores dos prêmios acumulados da Mega Sena. Um real em moeda e pagou pela garrafinha de água, sentando perto da área em que os skatistas e patinadores corriam. Quis acender um cigarro, mas já não fumava há sete meses. O cinzeiro sempre ficava cheio das bitucas que ele acumulava enquanto ouvia música e abria latinhas de cerveja nos finais de semana. Lúcia entrava, deixava a bolsa e os sapatos perto do móvel da TV e limpava o cinzeiro. Nunca haviam reparado na repetição dessa seqüência de movimentos. Impulsos contínuos e cada vez mais velozes até que pudessem saltar sobre a fileira de cones. Renato ficou imaginando o quanto aquele moleque de patins verdes devia ter treinado para conseguir fazer isso. Voltou a lembrar de seus joelhos fracos e destreinados. Voltou a colocar as mãos no bolso pensando-não-pensando em ver as horas em seu celular. Desligado. Renato seria pai de três filhos, todos homens. A mulher, Fabiana, nunca entenderia os cinzeros repletos de bitucas dos cigarros que ele nunca mais fumara. Quando era adolescente tinha escrito o seu nome e o de Vanessa na árvore que ficava na esquina das ruas onde moravam. Teve sua inicial tatuada nas costas de Raquel. Trocou a senha do email quando terminou com Simone. Lúcia é a única mulher que Renato amou na vida. Conceição é o ônibus que passa depressa e Renato não vê. Porque ia saindo pelo portão de ferro do parque e observou o tamanho daquele prédio do Detran. Queriam lhe cobrar quinhentos reais para ter sua carteira de motorista aprovada. Tomou um porre quando conseguiu a habilitação por mérito próprio. Lúcia nunca aprendeu a dirigir, embora Renato tenha prometido inúmeras vezes que a ensinaria. Por fim, ele acabava lhe dizendo que sábados e domingos eram melhores aproveitados a pé. Hoje é terça-feira. O dia mais frio desse ano que já vai pelos meios. Fabiana tem os cabelos curtos e as ancas largas, mas ainda não se mudou para São Paulo. Renato vai caminhando em direção ao seu bairro. Sabe que terá longo percurso, mas não se preocupa em chegar logo. Com o que é que se preocupava? Coçou a cabeça. Precisava cortar os cabelos. Três dedos, Lúcia disse com o rosto sério, talvez magoado. Renato não tinha reparado. Não vinha reparando, há um bom tempo, o quanto a cidade crescia rápido. Decidiu que deveria andar mais a pé e talvez vender o carro, um Celta vinho. Tinto, ela preferia e ele gostava mais de cerveja. Deu sinal e pegou o primeiro ônibus que passou. Desceu sete pontos depois, querendo andar mais um pouco. E agora pensando, avenida Brigadeiro Luiz Antônio abaixo: ele sabe que correu, sim. Soltou das mãos dela. Soltou e correu. Ouviu seu nome num grito que foi entrecortado pelo barulho do trânsito. Não quis olhar pra traz, essa foi a grande verdade conclusiva. Naquele dia Renato nunca mais voltaria pra casa. Passando em frente ao metrô Conceição, olhou pra cima e viu a janela que esquecera aberta. Abortou seu primeiro filho, Fabiana lhe contaria no terceiro mês de gestação quando já estavam casados. Tinha só 16 anos, era o que deveria fazer, ela lhe diria. E Renato soltaria sua mão, correndo, avenida abaixo. Para o parque, para o ônibus, para seu apartamento de janelas abertas. As chaves que jogara fora, no bueiro, eram as suas. Entre os dedos mexia no molho que abria e fechava as portas de Lúcia. Mexia e fechava as portas de Lúcia. Fechava as portas de Lúcia. Fechava a porta do ônibus com destino à São Paulo. Poltrona 27, Fabiana pediu. Eram dez horas da noite de uma terça-feira, cinco anos ainda por vir.

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posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

Terça-feira, Junho 03, 2008  


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Parece dança, mas são cálculos.
Não que as coisas sejam ou cadências ou números. É só que misturar tais definições, lidar com elas de maneira displicente, cria solo rico pros descaminhos.
Tocava samba. Muito samba. E tinha cerveja e cachaça e fazia um pouco de frio. Mas quem é que sentia? Ninguém sentia, não. Porque quem se agitava e dava as mãos, enroscava passos e desenlaçava inibições: não sentiu frio. Era um calor dos que vêm de dentro. Olhos marejados, boca molhada e a sensação flutuante.
Tão raros os encontros certeiros. Ainda que houvesse por ali um tanto de lágrimas e emoções. Os abraços inebriados confundiam as certezas. Pois que não era tudo cálculo?
Pois é.
Pois era.
Há sempre a opção de se negar à massa. De sambar sozinho. Se embebedar ausente de olhares e intenções. É sempre possível se esquivar dos cálculos. Ou mesmo calcular uma maneira que faça a dança nascer – e então não se calcula mais. Mas olhando, sacudindo braços, cabelos, sorrisos derramados aleatoriamente e sem direção, é um modo de participação. Porque aquele que não escolhe ir embora, inevitavelmente escolheu ficar. E ficando: mistura-se.
São espelhos de respostas. Sem cuidado, ausente de cautelas, as perguntas já dispersas são confusamente respondidas. Não há ponto em nó que permita se enveredar pelos desenrolares das direções.
A ironia de um cálculo que na batida de um surdo transforma-se em caos.

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posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

Hermann Hesse, por Andy Warhol
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