Segunda-feira, Maio 05, 2008
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[so.nho (lat somniu) sm 1 Representação em nossa mente de alguma coisa ou fato, enquanto dormimos. 2 Coisa imaginada, mas sem existência real no mundo dos sentidos.]
Dera para ter sonhos pestilentos.
Não era dada a sonhos, nem nunca lhe ocorria gastar os primeiros minutos despertados para pensar naqueles flashes de imagens e histórias que sobreviviam às pálpebras abertas. No entanto, coisa de duas semanas, dera para se levantar da cama com um silêncio pesado, recheado de uma reflexão que M não sabia conduzir. Porque não tendo o hábito, sentia-se levemente ridícula raciocinando e concatenando possibilidades de significados. Mas talvez o que mais preocupasse M fosse a recorrência das pestes e pragas a lhe tomar o corpo.
Começou com uma narrativa já pelo meio - ou ao menos foi a partir daí que a consciência de M passou a identificar e memorizar o sonho. O cenário era um apartamento claro e bem arrumado. Mas sem muitos móveis. M se lembrava bem do sofá marrom-claro. Feito aqueles letreiros iniciais que aparecem contextualizando e passando informações imprescindíveis para o telespectador, M sabia que ali naquele apartamento, das cinco pessoas lá colocadas em clausura, só restara ela e T. E sabia também que eles estavam lá porque tinham no corpo uma doença raivosa sem cura. E foram, então, afastados do convívio social, sem direito a comida e bebida. E para o alívio de M, a cena em que ela e T mataram e comeram os outros três enfermos era também conteúdo prévio, sem cenas que pudessem ficar lhe repetindo insistentemente na memória depois de acordada.
O sonho começa com M e T conversando na sala. Ela reclama da impossibilidade de sair, de ver os amigos e do fato de terem matado os outros três. T não fala muito. Concorda com a cabeça e aquele parece um diálogo trivial, embora M sinta uma tristeza e um medo enormes. Eles sabem que morrerão logo em breve. Se olham com esse pesar sem no entanto afirmarem em voz alta o pensamento comum. Também sabem que, tendo matado os outros três, estão sujeitos a serem mortos um pelo outro. Mas não tocam no assunto. E conversam quase tranqüilamente na sala. De um instante para outro, M vê nos olhos de T um descontrole, enxerga os indícios da peste raivosa que deixa T feito bicho, acocorado na poltrona a babar enquanto olha M. Num salto rápido T grunhe em direção a M que por reflexo corre e se tranca no banheiro. Trava a porta no último minuto antes que T pudesse tê-la alcançado. E de dentro do cubículo se treme inteira, se olha no espelho, enxerga os seus próprios olhos apavorados. Senta-se na privada tampada. M sabe que vai morrer, sabe que por mais que lute contra os ataques imprevisíveis de T, vai acabar definhando em conseqüência da doença. Sente tristeza e o medo. Uma sensação enorme de ter sido abandonada, de não poder recorrer a nenhuma ajuda.
De fora, recobrada a consciência, T bate na porta levemente e pergunta se está tudo bem com M. Lá de dentro M diz que sim, que ela estava apertada e precisava usar o banheiro, era só isso. E de fora T fala que ficou preocupado porque ela já está ali dentro faz alguns minutos. E dissimuladamente os dois conversam - ela dentro, ele fora - como se a cena do salto de T sobre M nunca tivesse ocorrido. Porque realmente gostariam que nunca, mesmo. Mas eles sabiam sim e também sabem que vão morrer e sabem que é inútil qualquer tentativa de prolongar a vida. No entanto, M pensa no que a mantém viva, no que a incita à força, no que a faz insistir na sobrevivência. Recupera o fôlego e abre a porta do banheiro lentamente. E é, estranhamente, sem surpresa alguma mas com tamanho alívio que M vê na sala duas de suas amigas de infância - que T também conhecia - e uma delas levou o namorado. E todos sabem da doença, todos silenciosamente conhecem o rumo daquela história. Mas conversam, riem e contam da vida. T fala pouco. Fica sentado na poltrona observando todos. M está triste, muito triste. Mas sorri agradecida pela visita, fica emocionada em vê-los apesar de olhar para eles e sentir aumentar a certeza de que não há o que ser feito. Relembrando o sonho, M acha contraditório que os amigos cheguem para visitar sem levar comida ou água, sem ter nenhum propósito de ajuda efetiva, ou sequer sem terem medo. Simplesmente sentam na sala, conversam e decidem ir embora como se não pudessem demorar lá dentro, perigosa que era a tal peste no corpo de M e T. E tudo ia bem, dissimulavam todos rindo e conversando. Mas quando a amiga solteira se levanta num gesto de despedida, M se agarra à sua cintura e começa a chorar em desespero. A amiga passa a mão sobre seus cabelos num silêncio que faz M recobrar a postura enquanto pensa que é mesmo inútil aquele choro, que não havia nada o que pudesse ser feito para que fosse levada de lá, para que se curasse. E então cai sentada sobre o sofá vendo as duas amigas e o tal namorado de uma delas irem seguindo em direção a porta.
Passados alguns dias M acordou com uma aflição no corpo. E antes de se levantar da cama M repassou o que lembrava do sonho que acabara de ter.
Era um lugar enorme, uma casa onde moravam muitas pessoas e que, especialmente naquela ocasião, estava ainda mais cheia de visitas e amigos. Uma quantidade enorme de pessoas circulando, carregando colchões, latinhas de cerveja nas mãos, vozes, talvez uma música tocando longe. M estava muito feliz. Ajeitava o lençol de seu beliche e a mala no canto do quarto onde dormiria. Não conseguia lembrar com quem conversava, mas sabe que era uma pessoa próxima, provavelmente uma amiga, dessas que nos vale viajar para qualquer lugar porque a companhia nos basta. E enquanto conversavam animadamente, B entrou no quarto. M se lembra da sensação que teve quando o viu entrar. Olhou com encantamento e alegria quase sem acreditar que aquele cara dormiria no mesmo quarto que ela. E não sabe se comentou com a pessoa que estava junto ou se só pensou, mas M tinha uma admiração enorme pelo trabalho de B. O cara escrevia livros. B entrou com uma lata de cerveja e um rádio de pilhas antigo. Deixou o rádio sobre seu beliche, no outro canto do quarto, e saiu sem olhar para elas.
A cena foi cortada - ou porque sonhos são mesmo descontínuos, ou porque a memória de M não se ateve às passagens de cena - e M estava sentada de pernas cruzadas em sua cama quando sentiu coçar a parte de traz do braço esquerdo. Coçou e sentiu algum líquido entrando por baixo das unhas. Quando olhou viu inúmeras e minúsculas bolhas de água. Puxou a calça e viu que suas canelas estavam tomadas por elas. Levantou a blusa e tinha uma porção de pequenos grupos de minúsculas bolhas avermelhadas que coçavam. M estava sozinha no quarto. Então tirou o sutiã e viu que os seios estavam cobertos também pelas bolhas. E tremeu-se inteira. Vestiu de novo a camiseta, arrumou a calça e os olhos se encheram de lágrimas. Se deitou, quieta, nervosa e com medo. Ficou assim por alguns segundos e levou a mão até seu rosto. Embora não tivesse ali nenhum espelho para lhe confirmar, a sensação que tiveram as pontas dos dedos ao tocar-se não deixavam dúvidas de que também estavam tomados das minúsculas bolhas avermelhadas. M sentou-se novamente, levantou uma das pernas da calça e coçou a canela. Enquanto as unhas iam passando, as bolhas furavam e soltavam um líquido transparente. Mas tão logo as unhas se afastavam, as bolhas se refaziam, desta vez maiores.
Em algum momento as pessoas chegaram no quarto e todos pediam para ver o que era, para dar palpites e diagnósticos. A amiga de M não sabia o que dizer e ficou sentada a seu lado, em silêncio, com um olhar de pena e talvez um pouco de medo. M, diferentemente do que ocorreria se aquilo não fosse um sonho, chorava copiosamente. Sem escândalos ou sons, simplesmente chorava. Iam lhe escorrendo as lágrimas e M sentia que o caminho delas sobre seu rosto desenhava a irregularidade de sua pele tomada pelas bolhas. Sentia-se sozinha e não sabia o que fazer. As pessoas que entravam e saíam do quarto não lhe ajudavam. Davam palpites enquanto já iam se direcionando à saída, sem se preocupar realmente. E mais uma vez a cena pula para a seguinte. M de novo sozinha, como se tivessem passados dias e ela estivesse acamada por um tempo indeterminado. O tempo inteiro conferindo se tinham sumido as bolhas que lhe tomaram os seios, insistentemente passando os dedos no rosto a fim de verificar se a pele voltara ao normal. Se concentrando em não coçar todo o corpo que ardia.
Estava sentada na cama com os olhos melados das lágrimas que escorridas secaram, quando B entrou no quarto e foi direto para onde estava seu rádio de pilhas, lá no canto. Diferente da primeira vez em que B apareceu, desta vez M só ficou feliz em vê-lo, como se nos dias que foram se passando tivesse existido uma aproximação e cumplicidade. Ele não disse nada, mas olhou para M como se afirmasse que sabia que espécie de aflição era aquela. Foi um jeito forte de olhá-la. Sem pena nem tristeza. Um olhar que somente constatava que a vida era mesmo assim. Que não era fácil e que estamos sempre sozinhos. Um olhar que tirou de M a carência mole que nos toma quando estamos doentes. Um olhar que lembrou a ela que é preciso ser forte e inteira para seguir o resto do caminho. B entregou-lhe o rádio. B estava parado em pé ao lado do beliche de M. A cabeça de M estava na altura do peito de B. Então M colocou o rádio sobre o travesseiro e inclinou-se para B, deitando sua cabeça no peito dele. M chorava um pouquinho, mas talvez fosse um choro de agradecimento. Com o braço direito B envolveu-a e acariciou seus cabelos por algum tempo.
M acordou com a sensação de ainda sentir o cheiro de B. Com a mão esquerda tocou o próprio rosto, com a outra levantou a camiseta.
Estava com o corpo limpo de pestes.
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posted by FEFA ALMEIDA SILVA |
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