Sexta-feira, Abril 18, 2008
.
MALAS E PORTAS
A moça tinha as duas mãos ocupadas com as grandes malas azul-escuras e foi se aproximando da porta. Os passos eram rápidos e firmes. Mas eis que titubearam.
Apoiou as malas no chão, permanecendo erguidas as alças. Ela virou-se de lado, ereta, piscou suas longas pestanas rapidamente e apoiou o dedo indicador direito sobre os lábios.
- Meu querido, sabe o que acabo de pensar? Que coisa maluca que isso só tenha me ocorrido agora...
Então virou-se de frente e voltou alguns passos em direção ao sofá. Colocou as mãos sobra as costas do couro macio e afrouxou o peso de sua perna esquerda. E antes que voltasse a falar, como de costume, apertou os olhos feito fazem os míopes na intenção de melhor enxergar.
- De repente eu pensei que... Eu já sei com que cara você vai me olhar. Já sei! Mas por favor, tente ouvir sem defesas o que vou te dizer agora, está bem?
Deu mais alguns passos de modo a apoiar o culote na beirada da poltrona. Cruzou os braços e retomou.
- Pois bem. Acabo de me dar conta do quão perecível é esse meu movimento. Calma, calma...sem olhos de susto! Já te expliquei que não existe possibilidade de arrependimento, porque não se trata de escolha. Não foi questão de pesar e decidir por A ou B, por este ou aquele caminho, não. Quero que você saiba disso sem duvidar. por Deus, que se algum dia você voltar a esse assunto tentando descobrir os meus porquês...me promete que não vai fazer isso? Me promete que vai se lembrar que a vida é de outra natureza?
Parou mais uma vez. Puxou os cabelos fazendo um grande nó que se asemelhava aos coques das senhoras. Acomodou-se no braço do sofá dobrando a perna esquerda sobre a direita, que se mantinha fincada ao chão.
- É tão fácil que eu me esqueça dessa sensação física, sabe? Fico me perguntando por que não senti nada disso durante todo o tempo anterior. Pois bem, que eu me convença de que estava ocupada sentindo outras coisas, mas... não faz sentido! Eu dormia?! Não, não...não é pra você responder. É, eu bem sei que você não ia responder, mesmo. Mas o que estou tentando te explicar é do quão fugidia me parece essa certeza. E não se trata de averiguá-la ou esperar que decante. Você consegue entender que alguma coisa muito grande aconteceui e em decorrência dela eu talvez mude até mesmo meu jeito de andar? ... Mas que besteira. usei um exemplo ruim, me desculpe! Porque é algo tão subjetivo que, se coloco em palavras concretas, se distorce, enfraquece e anula. Me deixe pensar, meu bem...me deixe pensar!
Fez o silêncio de um minuto. Ela olhava para o lado onde ficava a janela sem, no entanto, ater-se à mesma. Rompeu numa gargalhada.
- Isso me parece tão absurdo, querido! É tão longe do meu tato que me parece insanidade essa nova crença!
O riso definhou transformando-se num semblante sério e intenso.
- Eu não sei do que estou falando. Como é que alguém pode decidir mudar-se, assim? Como é que uma pessoa se dispõe a dobrar cada uma de suas peças de roupa e ajeitá-las em grandes malas azul-escuras e, então, direcionar-se à porta de saída? Como pode? Como posso eu, sempre decidida a me agarrar às verdades inteiras da vida, suspender toda coerência que construí até então, em troca disso que nem sei o que é! Não, não, não... não é isso que você está pensando! Por favor, não faça isso com as coisas que estou te entregando! Pelos amor de Deus, pelo menos uma vez ouça o que te digo sem achar que já sabe do que se trata!
Ela já estava de pé, as mãos colocadas à frente do corpo com as palmas abertas viradas para o teto. Recobrou a postura. Voltou a ajeitar os cabelos. E pendeu olhos tristes e baixos. Mas logo levantou a cabeça, trazendo um sorriso leve e iluminado.
- Me desculpe, me desculpe. Que coisa mais sem cabimento eu decidir te jdespejar todas essas inquietações agora. Que bobagem, meu amor....que bobagem! Mas você consegue compreender minha linha de raciocínio, não é? É só porque confio demais em você e me é tão fácil te entregar meus medis e crenças, que...
Estava mais calma e lúcida. Mas teve nos olhos uma reação de surpresa.
- Meu Deus! Meu Deus...
Levantou-se. Deu meia-volta. As mãos sobre a boca entreaberta. Caminhou alguns passos em direção às malas e voltou-se como que para um último aviso, quase em sussuro.
- Eu não posso mais ficar aqui. Se fico, como me aconteceu agora, vou perdendo lentamente as razões e a lucidez. Eu acabo de gritar conrigo e isso não pode ser bom. Se vou ficando e se te olho em demasia, feito agorinha mesmo, me enfraquece o ímpeto e eu, de fato, me esqueço porque fiz essas malas. Esqueço, inclusive, que são minhas as malas feitas. E então você pode me sugerir que eu fique, não é? Mas, meu bem, já não posso. Já não posso... Fui eu mesma quem tirei o pó dessas bolsas, quem desocupou minhas gavetas, que fechou o zíper e arrastou tudo até essa porta. Porque é necessário. E talvez seja engraçado que eu te peça pra entender e me encorajar, não é? Talvez seja angraçado que eu te peça alguma coisa nesse momento, mas...
Virou-se de costas. Repirou os mesmo passos rápidos e firmes. As mãos envolveram as duas alças das malas. Antes de reerguer o corpo, pediu.
- Você tranca depois que eu sair?
Ergueu-se. deu três passos. Parou. Curvou-se e soltou as malas uma vez mais. Virou-se com olhos chorosos e um sorriso calmo.
- Não, não se levante... É melhor que fique aberta. É preciso que eu não volte, mas não por saber da porta trancada. Mas simplesmente por saber-me outra.
Enfim atravessou a porta. Sem verter lágrima. Sem voltar-se em indecisão.
.
posted by FEFA ALMEIDA SILVA |
O Inferno São os Outros
|
 |
Palavras e Imagens
Cotovelares
Maroca
Misson
Chuva Plástica
Jé Mimessi
Bruna Amado
Taverna Fim do Mundo
Escrita Boêmia
Pelas Tabelas
Take Five
Atire no Dramaturgo
Alquimia do Verbo
Sinclair Acapulco
A Voz do Silêncio
|
 |
 |