Domingo, Fevereiro 24, 2008
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SUORES
Sem que soubesse em consciência dos pedidos insistentes de seu corpo, dançava vez em quando. Mas um dia foi que se perdeu em tanto tom e jeito. E quando sentia o fio de água escorrer pelas costas, sempre imaginava a lamber-lhe uma língua que também tivesse braços para lhe apertar os culotes.
Desde quando apontaram-lhe na camiseta os bicos dos seios, ela entendeu que deixara-se perder qualquer inocência e recato. Nunca fora de timidez prejudicial que inibisse a vida de caminhar em crescência. Mas tinha a espécie de um silêncio nos olhos. E se os braços roçassem os alheios por minutos contínuos eram os mesmos bicos que se endureciam e deixava dormente o coro dos cabelos castanhos.
E numa tarde em que o sol ameaçava fugir pra sempre, ela abriu o portão praquele sorriso fresco. E foi tanto carinho e tanta vida. Tanta vontade de nunca mais não seber-se tal qual. Mas nas idades recentes os meninos costumam afeiçoar-se de seus cheiros, envolver-se em outros tais de maneira máscula e infantil. A mistura bonita da idade que define os primeiros traços. E ele beijou-lhe vezes outras e saiu pelo mesmo portão, sofrido, querendo que não quisesse outra coisa. Mas que queria e então foi-se. Na metade da hora seguinte a campainha soou e o sorriso, agora fresco e suado, confessou a querência maior da volta. E ali estava. A menina, em lisonjeio e desconcerto, beijou-lhe os cabelos negros e teve muito medo do dia em que já não seria querência primeira. Do dia em que já não fosse querência. E ali, no instante tal, descbriu que se findam, mesmo, os amores.
E foi-se vida e tanto tempo em recheio que ela não reparou.
Mas reparavam, era certo. E vinham interrompendo a leveza a que se propunha. Vinham com línguas e braços. E vinham com jeito e suores. Ela sempre acreditou. Pegou malícia, pegou desconfiança. Mas caía em conversas e acreditava. E quando se mostravam nús e garotos, quando os olhos perdiam o álcool e as táticas, ela sentia-se triste e sozinha. Ela prometia que pararia com tanta crença, com tanta abertura pra vida.
Mas que lhe vinham e, então quando, pegou foi mania de se olhar no espelho e dizer de si pra si que era mesmo tanta mentira e que já identificara os traços das táticas e dos trejeitos. Mas que seu corpo amolecido pelas vontades todas fazia menor o que demais surgisse. E gostava, sempre soube.
Só não entendia era o que vinha depois. Era sempre desencontro. Tão raro que lhe amanhecesse leve o dia seguinte.
E pra distorcer as idéias em gesso correu pra lugar distante. Foi-se todinha sem medo. Cheia de crença de reforçar as certezas. Com vontade de vida. Com vontade de gentes. E não houve dia sem saladas e areia. Não houve dia sem os olhos apertados de humilde agradecimento. Não houve dia sem suor em tanto sol. Não houve dia em peso.
Mas e então ela dançando tempo e meio sem saltar dia, voltou pra vida com o corpo em velocidade e calores distintos. E quando de volta foi tanta falta, e todo o silêncio, que ela tremia toda durante as noites. Acordava com os lençóis molhados em suor, embebida do prazer que se apossara das veias nos tempos corridos.
E descobriu, quase triste, quase feliz, de que era feita. Esticou-se sobre as idéias os nós dos entendimentos e ela soube-se mais humana e sincera. Soube-se mais rara e entendível. E talvez tenha doído a certeza de uma distância que não lhe permite encostar os dedos. Doeu foi ela cair, vez mais, nos calores e táticas alheia. Voltou a repetir pro espelho que tanto fazia. E tanto fez. O dia seguinte acordou pesado, como já indicara o início da noite anterior. Ela tomou banho e lavou os cabelos. Esfregou as pernas e o pescoço com força.
Faltava descobrir como não ir embora. Ela precisaria de paciência e atenção para entender como é que se chega e fica nesse lugar de sons e leveza. Que se chegasse lá de novo, prometeu-se: dançaria sem fim. Pra sempre.
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posted by FEFA ALMEIDA SILVA |
O Inferno São os Outros
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