HORAS DE CLARICE
"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)


Quinta-feira, Dezembro 20, 2007  


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FIM DE FESTA

Quando nos despedimos eu supuz que chegaria aqui já querendo revê-la. Porque sábado foi tão difícil.
E não que seja ruim: mas foi difícil de um jeito muito triste.
A cena que me volta repetidamente e que me salvou nesses dias amontoados: nós duas sentadas próximas ao banheiro. Eu chorei tanto que acordei cansada no dia segiunte. Te disse uma porção de coisas que me faziam tremer. Te entreguei, sem querer, um bocadinho do meu desespero e por isso talvez eu te deva um pedido de desculpas. Não era pra ser pesada. Logo contigo: a menina dos passinhos leves.
Mas é que houve algum rompimento naquela noite. Em mim alguma coisa desistiu de se manter em pé. Eu me deixei descansar, então. Me permiti sentar no chão, esquecer a cerveja e deitar no seu colo.
Não suportei a solidão.
Porque fui tão disposta ao encontro, sabe? Esperei com paciência e atenção que sábado chegasse, que chegasse a festa, que chegasse ele, que o samba chegasse e que chegasse o que de mim vinha se ausentando.
E nada chegou.
Eu bebi e fumei com tanta ânsia que fui pra longe demais.
Via as pessoas indo e voltando. Se aproximavam e afastavam e eu simplesmente não conseguia encostá-las. Não houve contato algum, me entende? Eu falava e ouvia. E juro que me dediquei aos diálogos, aos assuntos, aos olhares. Mas me lembro deles todos desencontrados, dos vácuos nos assuntos, das mãos se perdendo no ar.
Eu não me lembro dos olhos dele nesse dia.
E foi num crescente, sabe?
Eu fui vendo os desencontros se instaurarem e me tomei por um desespero triste, triste. E foi quando me larguei. Já desencantada de que houvesse então alguma fresta de harmonia.
Mas tu tava lá, não é?
Me apresentou o banheiro secreto. Me traduziu as novas descobertas da maneira mais delicada que eu nem podia supor. Se sentou do meu ladinho enquanto eu dizia, dizia, dizia... com meu desespero quase infantil. Me levou lá pra cima quando eu já nem podia me manter acordada, querendo cama e um bom sono.
Me dói um bocado. Uma tristeza que havia se distanciado e agora volta calma, mas imponente. Mas me lembro de tua mãozinha dentro das minhas e do carinho com que eu te dizia, sincera, do que você me é.
No dia seguinte eu tinha tanta vergonha. Queria pedir desculpas. E nem bem sabia as razões.
Descobri que é essa minha mania de pensar sempre que a culpa é minha: feito os desencontros terem se instaurado porque eu não dei conta de me entregar pra ninguém.
E nem sei como é que as pessoas me viram. Não sei o que é que entenderam de toda minha movimentação confusa.
Senti vergonha por não sabê-las.
E acordei triste.
E fiquei com o nome dele me ecoando domingo todo. Vergonha das insistências que devo ter exagerado. Vergonha de não ter sabido chegar perto dele sem romper o que não posso tocar.
Triste por não tê-lo encontrado.

[quando ele avisou por telefone que estava chegando, ela correu pro banheiro. lavou o rosto, ofegante e tão feliz que teve medo: e se for ruim? e se der tudo errado? - interrompeu o susto num riso: como é que vai ser ruim? Ele ta chegando e você ta com saudades.]

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posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

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