Quarta-feira, Novembro 14, 2007
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Já não lembro quanto tempo faz que esse bonsai ta aqui. Arriscaria chutar uns 5 meses. Bonsai são aquelas árvores em miniatura, coisas de japonês, se não me engano. Bom, todos sabem o que é bonsai. Me lembro bem é da minha mãe, a ajeitá-lo. Mexia nas pedrinhas e escolheu a frente da janela da sala pra colocar o vaso. Avisou três vezes pra cada um de nós que não podíamos invtret a posição do bonsai. Olha, to fazendo esse risco preto aqui no vaso que é pra vocês saberem que ele tem sempre que estar virado pra dentro. Se ficar rodando ele de lado, morre! E eu balancei a cabeça sem entender bem porque é que alguém ficaria girando um bonsai. Não, Gaida. Eu vou virar. Todo dia vou chegar de manhã, antes do trabalho, e virar ele do lado oposto. daqui uns dias você vai encontrar ele esturricadinho aqui no móvel. E ela ria balançando a cabeça como se dissesse que meu pai não tem, mesmo, jeito.
Ela me interrompeu algumas vezes entre leituras e filmjes pra apontar onde começava a brotar um pontinho vermelho. Você sabe o que é romã, filha? Acho que sim. Você nunca viu uma romã, filha? Ah, já devo ter visto, sim. Então, é um bonsai de romã, vão nascer romãzinhas aqui, ó. Ta vendo essa florzinha? A romãzonha vai nascer aqui desse meio, ta vendo? Eu balançava afirmando que sim. É preciso regar toda manhã, meio copo de água filtrada. Daquelas obrigações que causam raciocínios antes das viagens. Pede pro seu João, deixa a chave na portaria. Ah, mas dois diazinhos só não morre não. Ai, gente, não vão matar meu bonsaizinho, hein? Lógico que não, mãe. Eu que vou comer essa romã que ta vingando aí, ó. Ai, filha, você viu? To tão feliz com a romãzinha, tá crescendo. As outras do lado caíam logo surgiam. Nas pedrinhas algumas delas ficavam ainda vermelhas, mortas.
Acontece que as folhas foram ficando pardas. A romãzinha que parecia vingar dava sinais de fraqueza feito o galho não a pudesse sustentar. E esses pontinhos brancos, aqui? Eram pulgões. Pulgão onde? Tem que arrancar tudo, me traz lá um palitinho que eu tiro. Não, Fulove! calma aí que não é assim, não! Deixe meu bonsai quetinho. Gaída, isso é pulgão, vai matar o bonsai aqui, é só tirar eles. Não, deixa ele queto que eu vou ligar pro cara e perguntar o que eu tenho que fazer. Não mexe neles, deixa a planta quetinha aí. E meu pa aproximava e afastava o palitinho de dentes, rindo, enquanto minha mãe, desconcentrada, tentava explicar pro moço o que acontecia com as florzinhas de romã.
Voltávamos de um almoço de domingo, das vezes em que íamos na churrascaria - alguma dessas datas comemorativas, feito dia dos pais. E ela disse que subiria, pegaria o bonsar e iríamos encontrar o cara que daria dicas de como matar os pulgões. Então você liga antes! Se não a gente vai até lá e não encontra o cara. Ela subiu apressada, estava de vestido.Agora sua mãe liga pro cara, ele não atende, porque essa hora ninguém vai ficar em esquina nenhuma vendendo bonsai, e então a gente sobre e vê um filminho, comendo chocolate. Outro dia levo ela lá com esses pulgões. E vem vindo ela, as florzinhas vermelhas balançando entre as folhas verdinhas. Ah, não acredito! Ela conseguiu falar com o cara!
Isso aqui é pulgão, moça. Tem que tirar. Pega um palitinho e vai tirando um por um mesmo, não tem jeito. Depois ela nos contou isso rindo, enquanto meu pai se balançava todo reafirmando. Não falei? To falando que conheço, que sei como é que acaba com pulgão. Mas e esse negócio das folhas opacas, aí? Perguntou porque elas não estão verdinhas e brilhantes como estavam? Ah, isso ele me falou que é sujeira, acredita? Rimos todos, tanto. Ela explicou qye passaria a burrifar um pouquinho de água pra que bnão acumulasse poeira em cima ds folhas. O cara aproveitou pra podar a ponta dos galhos. de vez em quando, quando a senhora ver que ela ja ta ficando mais fraquinha, pode podar um pouco pra dar força e ela crescer. Voi podar ela inteirinha quando a gente chegar em casa! Não, Fulove, não é assim não! O cara já podou hoje, agora tem que esperar. E eu sempre acabo achando engraçado o jeito de minha mãe continuar acreditando nessas brincadeiras do meu pai.
E quando minha mãe pegou as malas e saiu, estipulou-se mudamente que meu pai regaria o bonsai toda manhã. Ele o faz. Exceto quando viaja e então minha irmã toma a frente. A responsabilidade por retirar os pulgões é de todos. Não sei me proximar da janela sem pegar o palitinho que ja fica colocado do ladinho do vaso. Há vezes em que gasto hora inteira caçando os pontinhos brancos, tirando e jogando pela janela. E o olhar vai ficando mais apurado. Os ninhos deles parecem novelinhos de lá. Tenho um pouco de nojo e tiro com os dedos na pontinha do palito, o corpo esticado para traz. E vou me virando envolta dele. Olho de cima pra baixo, depois me agacho, coloco a cabeça fora da jenale, entrando. Já tirei um monte deles. Sem pressa alguma. Vou cutucando e tirando e jogando fora.
Mas outro dia olhei de novo pra primeira florzinha que vingou. Continua aqui e tem ficado cada vez maior e arredondada. talvez saia mesmo uma romã e minha irmã talvez a coma. As outras flores continuam a surgir. Há uma média de oito. Mas já nascem tristes e eu não consigo acreditar nelas. Os pulgões continuam se proliferando e eu tenho medo de termos criado uma harmonia entre nós. Mas fiquei pensando que se os pulgões todos morrerem, se um dia eu pegar o palitinho e não tiver onde tirar pontinho branco. Daí nesse dia eu talvez esqueça pra sempre de esperar a romã nascer.
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posted by FEFA ALMEIDA SILVA |
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