Segunda-feira, Outubro 29, 2007
.
[pra que nunca soube chegar]
...
Foram dias atípicos, aqueles. Não tardariam a minguar e acabariam por deixar esse resto de festa na ponta dos dedos. O susto inicial é sempre desnorteador das noções.
Tinha olhos esverdeados e, então, deixou-se olhar sem pressa. Deixou-se tocar com cautela. Cílios sorridentes. Um carinho embutido nos piscares.
Obviamente não traria consigo um envelope e documentos autenticados, três cópias, reconhecidos em firma. Não haveria aviso prévio.
Ok. Vejamos o que traz aqui. Olha, infelizmente esse oco não vai poder ser instaurado. O edital de inscrição não está corretamente preenchido. Além disso, as testemunhas precisam, necessariamente, residir na região e... Não, não! Isso não pode ser resolvido mediante verba. Não, nem com esses bens valiosos. Me desculpe. Será necessário retornar num outro dia, com toda documentação corretamente preenchida e organizada. Funcionamos de 2ª a 6ª em horário comercial. Obrigado. Próximo!
Mas vindo em galopes infantis lhe fizera abrir os braços num ímpeto de entrega. Pegou-lhe pela costela, subindo pelo tórax, tomando-lhe a garganta, seca. Na ponta dos cabelos ainda escorriam cores e sons. Um turvo na concha dos ouvidos, chegando a checar se tinha suja as barras da calça.
Se pegou em idéias avessas. Num primeiro instante olhando com distância e inferioridade. Depois, o desmanche dos posicionamentos certeiros. Pensou nos olhos caídos daquela que, cansada de ver rasgar a pele e as vísceras, decide abandonar o nome daquele que lhe permitiu o estopim de existência mais sincero. Se lembrou com força da maneira como as lágrimas se alojam sobre os cílios inferiores e fazem boiar as retinas frágeis. Teve pena e compaixão, mas não lhe nasceu coragem ou respostas viáveis. Destroncou o pensamento pr'aquela que, crente, se permite inventividades vazias. O sorriso das que com alma de meretrizes põe-se de quatro, de costas, de jeito. E choram enquanto chupam e gozam, enquanto choram.
Mas feito vem, assim. Vai-se de maneira escorrida. Talvez ainda faísquem as intenções de permanência. Mas não há vilosidades, gosma, cola. Escorre. Sabão. Feito sem presente de agradecimento, não há despedida. Não há madeira sobre madeira, com pregos e amarras, pra sustentar um aceno. Não há escrivaninha, talvez seja isso. Caneta tinteiro já não se encontra e isso inviabiliza tanta coisa. Envelopes, por exemplo. Como conseguir escolher uma cor que não agrida ou anule? Então, vai-se de maneiras sem enfins. Então, desenha-se, sozinhamente, no escuro de um quarto já apagado, o que não se leu, o que não se soube.
Sabe a delicadeza máxima?
Sabe quando a gente vai deitar e se percebe com um resto de sorriso? O resto daquela alegria toda.
Existe, não é? É no que eu acredito. Onde me encosta a vida e eu sei que vale a pena.
Mas eu não nego nem peso, nem dores - é bom que eu explique. É só que sou facilmente fagocitada se alguém me puxa pela mão. Porque eu acho das coisas mais bonitas: duas mãos dadas.
Só que então existe um fio de aflição crescente e um estranhamento engraçado. "Essa tristeza é mesmo minha?". É não, menino. Mas eu me deixo ser encostada e doer, de leve, feito fosse.
Fica uma vozinha me sussurrando que eu não tenho direito algum de ser feliz nesse chão revirado. Quase desrespeito, sabe? Quase invasão - ainda que você me esteja puxando pela mão.
Não houve pensamento prévio. Mas me há um início de movimento contrário. Igual quando a tarde termina de cair e é maior o eco dos latidos e o grito inteiro das cigarras.
Já inventei um bocado de teorias pra me explicar que é no meu jeito o convite pra essa aflição. Mas já não posso com racionalidades em demasia. Já não posso inventar religiões que abriguem minha fé (custa-me muito tecer orações que se esvaziarão na repetição oníssona de seus fiéis). Já não tenho jeito algum pra discursar arrebatando seguidores - nunca tive. Me entende que não se trata de apresentações expositivas? É de outro jeito que as pessoas se invadem (e a idéia de uma invasão brusca é linda, mas experimente imaginá-la lenta e gradual - uma folha de papel sendo vagarosamente repousada sobre a água).
Eu preciso muito do silêncio. Prezo quando observam minha distância e sabem convertê-la em conforto. Quando reconhecem nos meus braços um jeito tão feminino de dar colo e também me aconchegar.
Mas já não posso com rasgos tolos. Já não posso com piscares levianos. Porque fujo antes, em correria.
Fujo sem deixar senha ou restos de roupa. Com quase tudo quanto cheguei trazendo. Em silêncio.
E vai fazendo um friozinho fino.
Até que no fim das noites todas, então.
Em silêncio.
.
posted by FEFA ALMEIDA SILVA |
O Inferno São os Outros
Segunda-feira, Outubro 22, 2007
.
Paralelepípedos
Depois pensou que era chata demais essa mania de metáforas. Arriscou teorias metafísicas.
[e achou chata demais essa tentativa de racionalidades]
O mindinho já doía menos e a quina da mesa, agora, assim calada. "Qualquer canto".
Mas que de fato pareciam pedras entremeadas por terra. Chão. Sabe? Terra mesmo, marrom. A lhe escorrer a chuva feito canais, veias, tubos. Sangue vermelho e quente. E pensou na estrutura das pedras. No jeito de serem aglutinadas. No desenho desforme e encantador que acabam formando. Inventou, naquele instante, que a beleza só é possível se ao acaso.
dois segundo e meio depois: lembrou do Amor.
O desconcerto. olhos baixos, frio na barriga. Entra a orquestra, foco no rosto do mocinho.
[quase risadinhas - mão na boca - desceria no próximo ponto: ufa! Afinal, já raiava um sol sem pena.]
Tirou a roupa e levou até a área de serviço, onde tirou do varal a toalha branca.
Escovou os dentes, se analisando no espelho, antes de ligar o chuveiro: queimado.
Pula, pula, pula.
Ahhh...
Dizia alguém, noutro tempo, que banho gelado faz bem.
Ao menos faz crer um mundo mais quente.
Deitou-se sem pressa. Esticando aos pouquinhos o corpo que perdia o frio.
Ainda esticou os dedos dos pés. Coçou o cotovelo.
Um meio sorriso.
Um sossego sem ócio.
Felicidade, disse também alguém n'algum tempo e lugar.
Paralelepípedos.
.
posted by FEFA ALMEIDA SILVA |
O Inferno São os Outros
|
 |
Palavras e Imagens
Cotovelares
Maroca
Chuva_Plástica
Misson
Yaníssimo
Jé!!!
Bruninha
Solari
Tomiate
Sheyla Maía
Ka [zones]
Mário Bortolotto
Daniel Galera
A Voz do Silêncio
|
 |
 |