HORAS DE CLARICE
"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)


Terça-feira, Julho 17, 2007  



O PRATO e a faca

Beirar o desatino. Não por opção, peso de escolhas, cálculo de rastros e resquícios de sanidade. Porque, definitivamente, cascas. Os cegos dos nós em processo de decomposição. Decadência dos cristais soterrados da poeira velha. [um sopro, o vôo e a decadência] Mãos afanando-lhe o gozo. Feito longas gargantas umidecidas de abandono e carência.

- Já reparou em como podem ser tristes as gargalhadas infantis? - Rosana dizia olhando para os próprios pés, enquanto os meninos corriam e se jogavam na grama.
- O kischt, minha cara. Não fale como se quisesse ausentar esse instante em que se obriga feliz.

O desenlace se dava nestes exatos entremeios de respiração e gesto. Pedro ainda não se livrara da mania de mordiscar os lábios internamente, criando-lhe caretas que não deixavam Rosana se conter. Se ao menos ela conseguisse não olhá-lo, e então continuaria a fluir pelo lodo corrente, pelo escuro que se infiltravam a fim de tatearem-se visceralmente. Já não pontuava quando, exatamente, passara a se alimentar desses instantes asquerosos. Sabia, de alguma maneira que somente as mulheres podem entender - posto que somente elas sentem de tal maneira -, que houvera um pequeno som agudo quando penetrara a primeira vez nos diálogos a que Pedro a infiltrava. Além disso, gostava de seus sapatos envelhecidos. Não se tratava de um estilo proposital, da escolha minuciosa em armários centenários. Pedro sofria males que não lhe permitiam o carimbo e as finanças.

[Há certa situação, nas vidas pulsantes, em que se profere discursos lambusados em óleo, engordados de teorias. Corta-se o ventre, acumula-se no cerne do mais alto tom da voz berrante aquele número de sementes que não permite uma outa, mínima que seja, posterior. E larga este animal, estupidamente gordo de teses e fétido das repetições rocambolescas, em meio à avenida, trombando carros, confundindo pedestres, ocupando os cantos destinados aos cidadãos em situação de rua.]

Noutros tempos fora, de fato, fruto de invenções. A janela, os cigarros no canto da boca e alguma espécie de riso. [sim, e como riam] Mas a noite sempre vinha. Vinha Pedro e vinha medo. Mas abria os olhos a querer que saltassem. Cozinhava-lhe ovos pela manhã, mexidos, como preferia. Escolhia a música que soava dos poros dele, antes que Pedro soubesse querer. Tão antes que não chegava a saber da querência.

- O excesso, Pedro.
- Se faz necessário, claro. - passando as pontas dos dedos indicador e polegar na barra de sua nova saia. O movimento de pinça evidenciando o que ele jamais verbalizaria. Era notavelmente uma saia nova e ele, no tal movimento tátil, dizia-lhe ter percebido - mas ainda não respondia-lhe se havia gostado.
- Falo da morte. - E os pêlos do braço se levantaram todos, foi ela sentindo descerem até escorrer pelos pés. - Falo de quando o excesso pode romper a vida.

Tentou, infinitas vezes, um som constante ao raspar a faca no fundo do prato vazio. Procurava a nota constante que se tornaria via de caminhada. Permearia-se por cima e por baixo, sem rompê-la. Não saberiam sequer olhá-la, não teriam meios humanos de tocá-la e, então Rosana, sempre raspando a faca - sem cessar -, abaixaria os olhos, subiria a saia e entregaria sem alarde, sem movimento contrário, sem jogo de pesos.

Enquanto.

Chamando insanidade, decadência, indícios de suicídio. Rosana tilintava os dedos na ponta da mesa. Impossível, doente. Já tentara médicos? Já tentara viagens? Os dedos a tilintar um ritmo crescente. Os espaços já se necessitavam maiores, pediam fermento - fermento sempre lhes eram dados. Crescendo, sem parar. Rosana com olhos. Uma pena, alguma dor. Pedro também não perdera a mania de tossir, limpando a garganta sempre que perdia a meada das construções mentais. Vez outra desviava Rosana do centro do sentido. Tilintava.

Viriam em fila.

O prato e a faca. Era preciso que pudessem entendê-la.

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posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

Terça-feira, Julho 03, 2007  

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"Quem dera eu achasse água no leito da minha alma, pra te colocar pra beber minha mágoa..."

Caminhava até a exaustão.
Trocava de ônibus, circulava pelas estações do metrô, subia e descia ruas, alamedas, becos.
Inventiva, endireitava os ombros, amarrava os insistentes cadarços que não-feitos para liberdade, mirava os olhos no ponto central logo a frente. Não era difícil: uma perna depois da outra, sempre na frente da que se ia indo primeiro. Deixando os pés, feito corpo de lagartas, lamberem o chão. O escarro, a bituca e o chiclete.

"- Não, eu já não me despejaria a fundo por motivo qualquer"

Abrindo e fechando, sem raciocínio, o zíper da bolsa. Manuseando o livro que faltava-lhe vinte páginas. Organizando a carteira, o celular e a maquiagem do lado esquerdo. Deixando o cachecol embolado à direita. Procurando caneta, esbarrando no batom, tateando a escova de cabelo. Algumas moedas no fundo. "Há sempre algumas moedas no fundo". Revendo velhos pedaços de papéis desbotados - de tempo e esquecimento. Entradas de cinema, comprovante de pagamento e papel de bala.

"- ... mas se de repente me houvesse, no susto, um motivo? Quem sabe, né... Quem sabe?... E se talvez, de repente, morresse minha mãe, descobrisse um câncer meu pai...? Se de repente eu, em acidente de carro, ou doença que aguarde transplante?"

O pé direito tilintava o chão metálico. A boca - tremelicava dando forma ao que o pensamento jogava cabeça-fora. "Mãos de tocar violão, já disseram". Treinava nos joelhos um batuque de tamborim. "Se ninguém se animar eu vou quebrar meu...". Três pontos adiante, logo mais, logo menos. Duas mensagens de texto de sua operadora telefônica. Agenda. Para o almoço arroz com feijão e carne moída. Ainda tinha farinha de mandioca e suco de cajú. Tanta coisa no resto da tarde, na agenda. O vento despenteando a franja. Olhos de sono - e medo. Pagar condomínio, dentista e comida pro gato.

"-... mas como? O que é que eu faria? Não faria... não faria, não. Já não há onde eu possa caminhar ao encontro. Já sem portas, porque sem chão. Já não há. Já de tempos soubera, mas no susto me tremo. Não há, deus meu, não há!"

Dois degraus, sol quente esquentando a lã da manhã distanciada. Vento, mais que para franja. Barras da calça arrastando o pó. Muídos os pequenos pocinhos aflitos. O baque do pé nas insegurança dos joelhos exaustos. "Se eu pisar mais forte, não me aguento". A mão direita a puxar a bolsa para debaixo do braço. Esquerda a tatear atrás de um cigarro. Coçava a testa, a nuca. Coçava boca. Mexia no botão do bolso traseiro. Um bolso traseiro, o outro e os dois.

"- Quando foi o estalido de rompimento irreversível?..."

Não fora.
Nunca seria.
Ainda que certa, ainda que sem retroceder, ainda que não-palpável.
Ainda não fora.
Não seria.

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posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

Hermann Hesse, por Andy Warhol
Os Dias de Ontem

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