HORAS DE CLARICE
"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)


Segunda-feira, Maio 21, 2007  



PORÕES

Talvez fosse coração menino, uma carência latente e espécie de auto-punição. Mas ainda que incoerente, ele gostava de desenhar pássaros em seu porão. Não feito andorinhas, mas quase deuses saltitando entre os galhos que pregou no teto sem haver - opcionalmente - céu.

Hoje sei que lhe perguntei em demasia, que lhe pesei nos braços além do que me era permitido. Sei também que, apressada, tendia a pular etapas, não me dando conta de que abortava e não corrompia. E não caberia nas contas dos dedos a surdez alimentada com a fala e propotência - que respeito, mal da idade. Não sabendo ver sem o clarão viciantes do fogo, me prendia ao corrimão, às quinas, às mãos bonitas dele. Acabei por agarrá-las com tal força que me deixei fechar os olhos [só voltando a abrí-los quando saída de seu porão]. Não fora falta de confiança, mas de colhão. É que eu não saberia o caminho de volta se ele soltasse por entre as paredes escuras. E além: tempos depois, o desejo em latência de viver entre seus ecos e sussurros. [Com a visão já sem esforços, habituada ao breu.]

Não era vacilante a voz, era dura sem perder suavidade. Era soco com afago. Segredou-me tanto e avisava-me. Inútil: me pareciam diálogos introspectivos, passagens secretas, solidão opcional. Quando não. [pequenas doses de verdade enfileiradas à espera de sombra]

Mas eis que, relutante, deixo-me crer - já sem amarras ou cotoveleiras. Sem migalhas de pão decorando-me o caminho. E, sinuosa, com olhos em estalo e coração em disparada, passo a passo, indo. Sem titubeios ou companhia. Lá embaixo o porão, já outro: porque de fato. Lá embaixo rabisco ninhos, escondo sementes pra que nasçam em meus sustos. Levo nas dobras de meus vestidos os vestígios necessários de sol.

[Como outrora levara acalorando os pássaros daquele menino.]

posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

Quarta-feira, Maio 09, 2007  


[foto:Alberto Gonçalves]

Se houvesse insistência faria-se longo e contínuo. Mas feito fuga planejada já não caminhava pelas mesmas vielas entortadas pelo vento. Era caminho de progressos nesses tempos de funduras e infinitos. [onde se soltam os dedos e os olhares. onde já sem medo: constata-se]. Mente-se muito a respeito. Teorias abraçadas em cobertores antigos de lã. [é daí o cheiro de coisa outra]. Nas frestas que permitem vistas só o que resta são os pálidos pássaros em vôos trazidos pelo vício. Pelo vício: coisa mais triste essa de se esquecer o êxtase - porque vai-se ininterrupto e constante, vai-se frio, gélido das vistas e com o peito resistene às quedas. E vai-se longe, é bom saber, mas vai-se de uma solidão que não agrada ou alimenta. Vai-se só, só.

Mas saculeja, sempre. Ainda que na espera. Vê-se o novo. E se arrastam e batem e voam - já de um salto em algum contínuo. [ainda que só]. É tambor. A grande massa disforme e flexível, o correr e a ida. É dedo indicador no seio da terra úmida, sola em aspereza, rajadas de estouro adentro. É vil e instigante, é feito despudor porque pulsante. Obsceno, inescrupuloso.

O rombo, a lâmina, o assédio.

posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

Hermann Hesse, por Andy Warhol
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