HORAS DE CLARICE
"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)


Domingo, Março 11, 2007  



ASSIM, ELA

Era quase bonito, mas tão triste que ela preferia manter-se sozinha. Caio Fernando ecoando nas suas incertezas e a vontade de não mais. Era cansativa e desastrosa a insistência. Virava obsessão e conselhos de fazer terapia. Mas era ela, posto assim, sem mais rodeios desnecessários. Não era acúmulo nem vontades novas, era simplismente o beco exato que se permite existir quando se olha pra cima, pra além, pra fora. Ela e o que não podia. Ela e o que não se alcança. Culpa maior, para a ilusão fazer-se despercebida. E sem nomear sua, virava desconforto sem sossego. Olheiras acumuladas que levariam anos de sono ininterrupto para fazerem-se sutis. Porque o oco. Céu cinza de chamar tormenta e as ruas todas se escorrendo em vielas. Um constante cheiro de mijo e vômito. Nojo e súplica. Era assim. Pedaços de música e livros cuspidos entre o riso e o grito. Suava quase delicada, pequenas gotas a iluminar a testa, o nariz e envolver os lábios ressecados. Fazia-se menina, ela. Mulher de mais de metro e meio e os saltos que nunca ousaria. Se crescer: cuidado, cuidado. Era dança e olhos. Tinha poros feito portos de chegadas seguras. Era engano. Era sempre o mesmo engano fazendo-se novo como tentativa de acerto. O acúmulo, que não pedido, dado como grego. Fingia, descaradamente, convencendo os mais atentos.[os desatentos já são, naturalmente, tidos por convencidos.]
Era tanto que nada. E nos domingos de sóis era mais difícil, menos delicada e mais áspera. Ás vezes chorava enquanto coava café e não se decidia por que música ouvir, se afogando no silêncio mal quisto. Se olhava repetidas vezes no espelho do banheiro, riscava papéis, rascunhava cartas. Fosse vinho e então encontro. Mas era ela. Era isso. Caindo lentamente pro lado errado e pras idéias em rotatória. O gosto amargo na ponta dos dedos. O medo aflito, o medo. Aflito. E de quando vento, sussurro. Nunca o instante inteiro. Sem volta, diriam. Mas ela acordava dias todos a se re-convencer da farsa. Porque sua, porque feita. Indo assim, entre cores e truques. Espremendo as crenças, recheando suas listas infindáveis e se rindo, fácil, dos erros. Esses. Era sem desejos. A vontade de ela. Era isso. E era assim, ela.

posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

Domingo, Março 04, 2007  



Meu telefone ainda está fora do gancho porque eu, sinceramente, não acho que sejam tempos pras nossas conversas. E ainda que eu nem saiba se tu me arrisca ligações nas tuas madrugadas longas, prefiro esse silêncio e a certeza que não vou ter o ruído irritante do telefone e as pernas bambeando com tua voz me entregando alguns fantasmas. Porque a certeza - quando possível - é fuga, sabe? E embora tenha colocado a bons tapas essa carinha de menina querendo ser gente, ainda sou covarde com um bocado de coisas decisivas. Não sou forte, não. Falo com propriedade só das coisas que são facilmente encenáveis, me entende? E não quero que pense na não-sinceridade das minhas dissertações, só quero que você entenda que eu amo as pessoas que me desconcertam. Tenho uma tendência irrefutável de me apaixonar pelos silêncios que beiram o incômodo. Tenho esse desajeito como prova de sangue correndo nas veias e um cérebro que ainda funciona de verdade. ["coração" ficaria piegas demais.]
E então eu vou tropeçando e criando cacoetes. Sabe que minha risada não vai lá muito bem? Às vezes grito antes de realmente gargalhar e às vezes só fecho os olhos e balanço um pouquinho a cabeça - e isso nada tem a ver com a real graça da situação. Mas eu falava dos cacoetes novos. Meu jeito de olhar pela janela do ônibus e agradecer o troco, mudou. Não sei te dizer se porque sorrio mais, ou se porque parei de sorrir fingindo proximidade. É só que eu tenho sido tão sincera que às vezes beiro a falta de tato. É verdade, não tenho tido tato algum. Mas vou me jogando nas situações sem querer me agarrar às pessoas. Lembro de quando eu tinha medo da solidão mas ficava te olhando tão bonito encher os olhos de lágrimas e falar das pessoas que já tinham te fudido. E que era isso o que você mais queria.
Meu jeito de andar nas ruas também já não seria reconhecido por você se me visse caminhando de longe. E eu sempre brinco de ficar olhando os andares alheios procurando seu ritmo no meio deles. Você nunca me aparece sem avisar. [mas eu sempre me assusto quando você chega.] E eu já não tenho tido medo das velhas coisas. Não é bom? Fico pensando se algum dia tu vai me olhar e dizer que me tornei exatamente a mulher que prometia, sem me comprometer. Porque ser sempre a promessa me deixa presa numa expectativa. Sem que eu possa me prender em você. Porque é preciso liberdade demais pra ser inteira e eu já não tenho conseguido ser pedaços. Voltei pra casa e descobri que não quero largar as partes para juntá-las daqui pra frente. Descobri que seus passos são leves, mas decididos. Que se tiver espaço, posso caminhar junto contigo. Não tendo: sobrevoarei teus caminhos.

posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

Hermann Hesse, por Andy Warhol
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