HORAS DE CLARICE
"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)


Sábado, Outubro 21, 2006  



Os retrocessos. A marca risonha e despudorada, e os olhos alheios feito nada fosse. Retrocessos, meu queridos, retroceder. Aumentar o tom de voz, os gestos dos punhos, pulsos, dedos e olhos. [pois que a gesticulação dos olhos é das mais transparentes reveladoras - talvez não do retrocesso em si. mas o quase. quase lá.] Some à tal cicatriz vergonhosa, o imediatismo que finda o vaguear das idéias. Dia e meio sem resultados é a prova concreta de sua bestialidade humana. Não vês? Pois não ironize afirmando que não concorda antes de pensar no dia e meio das tuas semanas que se acasalam feito coelhos, proliferando uma velocidade temporal que te esmaga. Não a mim, filha de outra raça, retalho da improdutividade e essa roupinha velha pra dar cara do pseudo-existencialismo, o também chamado de escroto burguês. Mas ainda de costas pra resposta rápida e inútil que se dá: o retrocesso. Inútil em âmbito global nessa minha complexidade de grão de areia do Saara. Porque dar os passinhos descontraídos, para trás não enrubesce mais. [a filhadaputisse acontece quando passa a enobrecer esses miseráveis que ditam regras. não ria, seu nome provavelmente consta nessa lista de descarados.] E se há um buraco negro que engula o universo de seu umbigo, morre-se. O buraco negro que engole os umbigos alheios é por demasiado distante, se embaçando nessa sua miopia consentida. Mas para que lhe dêem as mãos [e os cus] gira-se a cabeça lentamente, como quem enxerga o horizonte da esquina ao lado com seus ratos fedorentos e isentos de civilização, e profere-se discurso embotado de fermento e farinha, sem sal, nem ovo. E a palavra dita: cresce. Grande, afofada e ridiculamente inútil. Mas posta em meio de avenida, junta às demais já proferidas: punhetagem de alta classe, o sono bem dormido, o vinho bem tomado e todos os cus devidamente comidos [ainda que com carinho, doação, concórdia e desejo].
E já não há mais sossego, paz se esvairiu e as vísceras sem embrulham cá dentro - sem vômito que cesse o incômodo.

posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

Domingo, Outubro 08, 2006  



Engraçado como as vontades são moldadas pelo emocional.
É claro que vontades são frutos da emoção, do sensitivo, do prazeiroso.
Vontades são, necessariamente, buscas de prazeres. [Me seria um tanto quanto interessante desmitificar tal afirmação, mas, por hora, as idéias vagueiam por outros campos.]
Mas eu falava sobre sobre moldar, desvirtuar, redizer... sem recriar - e isso complica o entendimento.
Eu falo do viceral e, então, André me perdoe, por favor, em sua Lavoura Arcaica. [Ainda tenho os traços e vícios de menina com vestido cor-de-rosa e esse jeito da delicadeza que ainda não aprendeu a ser viva.]

(...)

Me desenhei na parede da sala. Já sei dos seus olhos arregalados e misturados de raiva e pena.
Mas não se trata disso, meu bem. Antes, olhe. Consegue identificar tuas mãos emaranhadas nos meus cabelos?
Meu medo é não saber mais onde te tenho, porque assim eu perco o jeito de te ter. E digo ter, pela vontade dos sentidos e não o que decidimos estipular como casal. Afinal de contas, o que somos?
E aí esse peso final das frases interrogativas estupra toda possibilidade da pergunta ser só o que literalmente é. Engraçado que o normal seja o que nos habituamos a incorporar e o difícil passa a ser o bruto, o espontâneo [o real? - e aí interrogo de novo, pesando. Pensando].
Sim, ali ao lado são outras mãos que não as tuas.
E não se trata de me jogar em vidas outras. Trata-se da busca. O que tenho perdido nos supetões dos encontros.
Dos encontros que eu forjo. Ainda que existam e me façam maior e que, de fato, sejam maiores do que eu. Não sei onde os estou levando. E nem imagino que eu possua tamanha destreza e agilidade para levar alguma coisa a algum lugar. É só que existe um mínimo de autenticidade e responsabilidade quando se está vivo. Mesmo que não se queira.
Era da busca, essa aflição.
O não-sono, a falta de fome, a sede que não cessa.
E eu tentando me olhar como uma, como individual. Por isso o desenho.
E essa embramação de raciocínio é uma punhetagem existencial, sim. E aí já não sei como conseguir te explicar que, na verdade, andava esquecendo quem eu era.
Você retruca que é porque talvez eu não seja ninguém.
Eu afirmo que, definitivamente, não sou.
E somo à afirmação, que ainda nada, eis-me viva. E aí retomo a responsabilidade, de que falava há pouco.
Essa dança difícil entre saber-me sozinha - natural e humanamente sozinha. E ainda assim: todo.
Você acompanha minhas falas, mas me cobra seu nome.
Então eu não digo. Porque te coloco emaranhado nos meus cabelos e você simplesmente não vê.
E nisso destoamos de maneira decisiva.
Essa tua pena tangencia minhas decisões timidamente tomadas. E eu não queria recair sobre meu rosto, essa atenção que me é doada e não me é merecida. Pois que te busco a direção dos olhos, sim, mas não voltadas para mim, compreende? Eu te quero com olhos ansiosos, espertos. Digo: vivos.
E, tampouco, quero as atenções assim te lambendo. Eu quero o contrário do que se prevê, ou se acostuma.
Eu repito o que me definiram: quero embaralhar os códigos.
A abertura em minha testa?
É meu pedido desesperado de que me embaralhem.

[A mão esticada, os olhos abertos de maneira jamais vista - jamais reparada? - e o fio de voz rouca:]

Você pode?

posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

Domingo, Outubro 01, 2006  



[...para Gustavo Esperança Borba]

Já não sabia seu rosto, seu gosto, nem jeito. Me ficava seu nome, os olhos pequenos e o sorriso moleque - porque sim, éramos moleques, ainda.
Te soube pelas beiradas, pelas tabelas, pelas rebarbas. Te soube por óticas bonitas e por frases apaixonadas. Te soube igual, mas grande. Te soube e resoube o que ainda não esquecia.
Não te soube nada, enfim.
Foi a proximidade ilusória e meu jeito do que ainda-vai-ser-logo-mais.
Não foi.
E dos seus desencontros, da aflição, do desajuste. Não soube.
Dos seus medos, suas neuroses, suas decisões. Não soube.
E então você salta, sem volta.
E então redescubro as saudades que já não tinham nem nome, nem gosto. Redescubro o fundo que teve seu tato.
E não sei pra onde é que você foi.
Não soube.
Te penso perto, sinto perto e real o susto e o choro.
Mas te penso, menino, como quem não soube mais caber nessa loucura que nos habituamos a aceitar. Te penso em angústia universal, te penso nos sentidos todos que deixo esvairem-se, te penso não mais e isso é forte.
Quase a fuga dos abraços que não dei, das visitas que não fiz, dos pensamentos que não dediquei.
E essa gosma que me toma as vistas e o raciocínio.
E esse domingo de chuva. Essa chuva de choro e eu já não sei onde colocar minhas mãos.

posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

Hermann Hesse, por Andy Warhol
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