HORAS DE CLARICE
"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)


Sexta-feira, Setembro 29, 2006  



Como é que se asfixia um soluço?

E ao redor pasmam todos os outros. Aqueles que se encostam como mosca que cai na sopa - delírio demais pra pouca asa.
Todos com quem eu teria um filho ou pactuaria um assassinato a sangue frio.

Mas meus dentes mordem fogo e eu sei cuspir o ácido que te cegaria. De seguro so há o bambo. De dança só há o cansaço.

Ainda nem comecei a te entregar meus espinhos arrancados - anos, gasta-se anos, nessa tarefa de arrancar os próprios espinhos - e tu me olhas patética com as mãos do sangue que propositalmente tu me arrancaste, cobrindo minha pele dos espinhos que eram teus.

Mas não há mal, nem medo.

Só te vejo menor e esguia. Só te seguro as mãos porque teu susto me cobra um pouco de pena. (Mas eu te digo com leveza que em mim, nada de ti rasga.)

O rombo nas minhas costas logo seca: deixe surgir a lua.

E vai-te menina fraca, vai plantar teus desalentos, que assim cheia de desencontros eu te quero na distância de uma vida.
Inteira.

posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

Hermann Hesse, por Andy Warhol
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