Domingo, Julho 30, 2006
[foto: Luciana Kornalewski]
"Sempre tivemos o costume de tapar os ouvidos e de fazer cara feia. De achar que está tudo bem e de esquecer porque choramos. De achar tudo ridículo e de ter uma vaga lembrança."
["Fátima Fez os Pés para Mostrar na Choperia" - MARCELO MIRISOLA]
FÁTIMA, A OUTRA.
Do lado de fora, na porta amarelecida, tinha um vão com nome "caixa de correio" em que só se depositavam velhas canções arranhadas pelo tempo. Que Fátima não me ouvisse dizer isso assim: sem tom de pesar, sem adjetivos de compaixão ou afagos nos seus cabelos já sem brilho. Mas é que nos tempos passados as canções tinham sido outras e não haviam momentos nem frestas para que se falasse de portas e medos. Fátima fora mulher de colhão, de peso nos passos e de firmeza nos traços.
Das ancas largas e suspiros alheios, o jeito espantoso de driblar os pesadelos e de acordar os dias em quentura e desejo.
Fátima e os homens que nunca teve. Fátima e os sussurros que nunca lhe ouviram. Fátima e as promessas de futuro em gordos pedaços recheados. Fátima e o que não se alcançou.
E foi quando houve um barulho forte em seu quintal florescido, os peitos todos daquele lugar suspenderam em segundos contínuos e breves, em segundos sem som nem sentido. Dizem uns que Fátima caiu em desalento, vertendo fartas lágrimas de dor. Trançou as pernas e tonteou o quadril se apoiando no muro baixo e umidecido. Outros afirmam que foi em pulo que Fátima sorriu e gritou. Há os que juram ter havido samba e um riso largo de vida que findava.
E então o outono chegou com a promessa de um inverno ressequido.
E foi quando a porta se arrastou lenta e definitiva pra que Fátima escondesse suas coxas e mãos curiosas. Fátima e os sonhos que nunca contou.
Fátima e o medo. Fátima e a morte.
E a caixa de correio se enchia do que ela se esvaziou.
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O Inferno São os Outros
Sábado, Julho 22, 2006
Sem perceber havia entrelaçado os próprios dedos fazendo pressão nas juntas delicadas de suas mãos. O inverno chegara fora de época e quando acontecia de passar frio, era assim que fingia companhia. Tinha os lábios pintados e os cabelos em trança lateral. Piscava lentamente como quem vive em câmera lenta em um eterno close apaixonado. Caminhava diante dos carros de faróis cegantes em ritmo outro que lhes entregavam buzinas e gritos. A menina quase sorria. Quase ouvia "fica o dito e redito por não dito" e era mesmo difícil cantar o que nela havia restado. Suspeitava de pólvora. Temia a faísca que lhe inflamasse o estouro que romperia os ligamentos e todo o pó branco acinzentado que lhe cobririam até as pestanas caídas.
No pé, a bolha no dedinho esquerdo se expremia e relaxava nas passadas leves e a menina se deixava sentir a possibilidade do estouro. A possibilidade da faísca. É que já não acreditava em mais nada que não lhe tomasse no susto. A menina estava forte demais pra se deixar leviana. Ou seria pega pelos cabelos e arrastada pro outro lado - onde as coisas são todas mais coloridas e perigosas - ou ficaria nessa cadência nova que inventara pra saber completar-se sem peso. A menina era bonita, longe assim, tão longe da tristeza.
Não era fase de despudores. Era a fase da preguiça permitida. Da desconfiança exacerbada. Das conquistas silenciosamente prazeirosas. Feito moeda a conta no fundo da bolsa: quase nada, quase não e, no entanto, sim.
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O Inferno São os Outros
Quarta-feira, Julho 19, 2006
"...e quanto mais engrossa a casca, mais se torturam com o peso da carapaça, pensam que estão em segurança mas se consomem de medo, escondem-se dos outros sem saber que atrofiam os próprios olhos, fazem-se prisioneiros de si mesmos e nem sequer suspeitam, trazem na mão a chave mas se esquecem que ela abre, e, obsessivos, afligem-se com seus problemas pessoais sem chegar à cura, pois recusam remédio; a sabedoria está precisamente em não se fechar nesse mundo menor: humilde, o homem abandona sua individualidade para fazer parte de uma unidade maior, que é de onde retira sua grandeza; só através da família é que cada um em casa há de aumentar sua existência, é se entregando a ela que cada um em casa há de sossegar os próprios problemas, é preservando sua união que cada um em casa há de fruir as mais sublimes recompensas; nossa lei não é retrair mas ir ao encontro, não é seprarar mas reunir, onde estiver um há de estar o irmão também..." (Da mesa dos sermões.)
[LAVOURA ARCAICA - Raduan Nassar. p 147
adaptação cinematográfica - Luiz Fernando Carvalho
atuação de peso - Raul Cortez]
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O Inferno São os Outros
Domingo, Julho 16, 2006
É só a dança das idéias ecoando por dentro das minhas veias.
Tenho pensado boas coisas - no sentido de serem intensas e inéditas -, tenho enxergado novas belezas em velhas histórias.
Salpica em minha língua espécie de prazer viciante, espécie de busca infindável (a vontade de mais, um pouco mais, só um pouco mais...)
Tenho mirabolado planos individuais, para que não os qualifique solitários. Mas é que acabo de descobrir, por mim mesma, a antiga descoberta do homem racional: somos todos sós, todos ilhas icomunicáveis.
Já reparou na comunicação? Esse código torto que nos forja o real, que nos simboliza razamente as vísceras da vida? Mas a coisa fugiu do controle. Perdemos a mão, colocamos serenidade demais nas frases e toques e aí viramos essa encenação doentia, essa confusão de máscaras vistas como rostos. Nos castramos o mijo e o vômito. Pedimos licença para sangrar.
Os nomes são todos encaixáveis em subgrupos. Somos todos catalogáveis nesse circo palidamente colorido. Somos todos reconhecíveis perante as análises alheias. Ainda que retiremos essas etiquetas nas nossas testas: elas se cravaram na nossa pele.
E se, de repente, tu pensas que nos livraram ao menos a alma, podemos, então, ir caminhando lentamente, juntos. [Ficamos com a promessa sincera de sermos verdadeiros, e só. E tudo isso.]
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O Inferno São os Outros
Quinta-feira, Julho 06, 2006
DA INTIMIDADE QUE ME APOSSEI
Uma delas usava cabelos trançados, calça jeans e tênis. A outra, um pouco mais alta por causa do salto, tinha os cabelos escorridos lambendo as costas nuas naquele vestido de amarrar no pescoço. Talvez fossem irmãs, alguma coisa as aproximava além da nítida relação que beirava a amizade - geralmente, só os amigos sabem o quanto são amigos, portanto, não podia assegurar o grau que as envolvia.
Com o metrô cheio, tiveram que ficar de pé, lado a lado, segurando na barra de ferro acima de suas cabeças. A mais alta pareceu não se importar, ou talvez fosse só distração já que contava, minuciosamente, uma história que de onde eu estava não conseguia ouvir. A outra parecia querer sentar-se. Acompanhei o deslizar de seus olhos pelos bancos ocupados, todos. Muito provavelmente, nesse instante de verificação dos assentos, ela perdera trecho de importantíssimo valor na narrativa gesticulativa da outra, porque só voltou os olhos pra amiga quando esta, com a mão que tinha livre, mexeu na trança da possível irmã como forma de resgatar sua atenção dispersa. Mulher tem dessas sutilezas, sei do que falo, ao invés de interceptar a outra com as costumeiras frases para checagem do canal transmissor - "oi"; "tá ouvindo?"; "presta atenção!" - prefere fazer-se carinhosa e ser delicada com a distância perceptiva da outra. E então, o despercebido banco vazio atras delas foi preenchido generosamente por um senhor de bigodes e bochechas gordas e rosadas (eu quase pude ler em seus olhos diminutos o quanto aquela barriga agradecia estar aconchegada sobre as coxas).
Na stação Sé, mais - bem mais - da metade das pessoas que ocupavam nosso vagão foram se espremendo, levantando pastas e mochilas por sobre as cabeças, colando costas em peitos umas das outras, com passinhos minúsculos como os de gueixas, até que vazassem porta afora podendo, então, espaçar as pernas quase em corrida para a outra plataforma, onde voltariam a se espremer entre bufadas, cotovelos e olhares amargos.
Feito um aquário, as portas opostas às que tinham acabado de cuspir o mar de gente, ainda permaneciam fechadas e repletas de olhos que verificavam o objetivo exato, que miravam o ponto onde se atirariam certeiras a fim de se sentar. Mas as duas companheiras, guiadas pela mais baixa, correram antes que novos pés entrassem no vagão e sentaram-se, ainda lado a lado, nos bancos que, juntos com o meu, formavam um ângulo de noventa graus. No segundo seguinte o vagão voltou a inflar-se do zumbido oco que fazem as pessoas quando assim, muito juntas. Bem que Nara queria deslizar os olhos pelos outros olhos dentro daquela minhoca de ferro, mas Talita voltou a segurar-lhe a trança, abortando o ato que se seguiria. (A essa altura elas já tinham se tratado pelos diminutivos carinhosos - Ná e Tatá - que pouco me agradam e, portanto, resolvi deduzir o resto das letras que possivelmente aparecem nas respectivas identidades das mocinhas. E se os nomes fossem Natália e Taís ou Nádia e Tatiana, eu só descobriria que tenho péssima capacidade para dedução nominal, o que pouco me importa.)
Agora eu ouvia com nitidez a voz rouqueada de Talita e enxergava nitidamente - apesar da miopia e ausência de óculos - os olhos espertos de Nara.
...e você sabe bem o que passei nesses dois meses, né Ná? ... [acena que sim com a cabeça, os olhos levemente caídos como forma de consolo ao sofrimento da outra] ... uma angústia, uma vontade de deletar ele das minhas memórias todas. Eu nem me importaria de apagar inclusive os momentos bons, foda-se! Eu queria era ficar boa logo. Não nasci com talento pra sofrer, ai credo, não tenho dom pra isso, não ... [As sobrancelhas de Nara, quase imperceptivelmente, franziram como se estranhasse a opção de alguém querer apagar outro alguém da memória, ainda que pagasse o preço de vaporizar as ditas boas lembranças. A mim também arranhou os ouvidos essa tal afirmação e eu devo ter remexido mais bruscamente os músculos faciais. A diferença é que ninguém me observava] ... O foda, Ná, é que ele vivia online no MSN e eu peguei um vício desgraçado de olhar o orkut dele, no mínimo, umas três vezes por dia. A merda é que ele deleta os scraps e isso só alimentava minha inquietação. Porque sei lá, se eu visse troca de recadinhos dele com alguma outra menina, isso com certeza ia ser um puta empurrão pra eu esquecer o Gá ... [Nara não só sorriu, houve uma espécie de riso não-comedido que deixaram as mãos de Talita em pausa no ar enquanto interrogava a amiga com os olhos. Foram três segundos de um mal-estar intocável, de um silêncio, que apesar de incômodo, agradou os ouvidos de Nara. Espaço breve, rompido pela continuação empolgante sobre como se desapaixonar de Gabriel - ainda em minhas deduções nominais] ... mas não, eu entrava lá e sempre tinham "zero recados" na página dele. Aí no meio do caminho entra aquela história com Pedrinho, lembra né? Puts, ele é um fofo e eu to ligada que ele ficou muito apaixonadinho. Principalmente por causa daquele papo compreensivo de saber que eu gostava de outro cara, mas estar disposto a estar do meu lado sem me cobrar nada, só pra gente se fazer bem e tal. Foda, né? ... [Nara gosta da idéia de um homem compreensivo, percebi seus olhinhos, de espertos, tornarem-se carência dolorida, quase tristeza. O joelho direito começou a subir e descer rapidamente, impulsionado pelo pé inquieto. Talita, com a cabeça virada para a janela, morde os lábios e mantém as idéias vagando - provavelmente nas mil possibilidades que Pedro prometera e ele negara] ... Mas meu, eu tinha acabado de ter uma puta decepção com um cara que namorei por quase dois anos. Eu, definitivamente, não tava afim de me arriscar. Não tô aí pra ficar dando cara a tapa, né? ... [Nisso a fala já tinha outro tom, aquele que mais se distanciasse de um mínimo arrependimento. Afinal de contas, nem era o tal Pedro que Talita queria exaltar, mexendo, minuto a minuto, nos fios lisos sobre sua cabecinha ansiosa. Engraçado era Nara não dizer palavra ou meia. Sempre um indício, mas nunca um algo inteiro. Vontade era eu questioná-la, verificar se minhas interpretações condiziam com seus gestos sutís. Uma tosse e o assunto retomado] ... Aí ontem o Gá passou lá no meu prédio ... [A primeira fala de Nara: "você tá brincando?!" - que se não tivesse ocorrido, muito provavelmente a própria Talita exclamaria, como se fosse alguém a ouvir a própria história. Mas Nara recheou sua intervenção: "e aí? Você desceu? Tava sozinha em casa?". Foi o momento de real interesse nos fatos, isso graças a imprevisibilidade - que até então não tinha aparecido] ... Não, imagina! Meus pais tavam em casa. Eu que desci pra falar com ele. Nervosíssima, né? Mas me segurei horrores pra ele não se ligar. Bom, aí o Gá se declarou completamente. Disse que tava foda a gente separado, que não fazia sentido se nós nos amamos tanto ... [Impressionante foi o semblante disperso de Nara, exatamente como quando as duas tinham entrado no metrô. Talita prosseguia nos pormenores da declaração apaixonada de Gabriel enquanto a amiga começava a roer a unha do dedinho da mão esquerda. E antes que a amiga segurasse em sua trança pela terceira vez, ela virou o rosto com ar de atenção. Eu desceria na próxima estação. Jé de pé, de frente para porta ainda fechada] ... Nossa Ná, que alívio estar namorando com o Gá outra vez, estamos ótimos, é muito bom sentir esse sossego, essa paz no coração, to tranqüila outra vez, sabe? ... [Eu, nos meus passos largos - metrô afora -, pensando como é que pode alguém se acalmar com o amor. Fiquei torcendo pra que o silêncio de Nara fosse a certeza de que amor desconcerta e angustia mesmo, ainda que faça bem. Porque amor é coisa viva, precisa de sangue e de víceras, precisa desestruturar a paz e a tranqüilidade. Amor só existe se arriscando. Subo a escada rolante segurando no corrimão direito - gosto da sensação das coisas nascendo conforme a escada sobe e meus olhos alcançam. Mas Nara sabia, Nara contaria pra ela.]
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O Inferno São os Outros
Terça-feira, Julho 04, 2006
"...como o canto repetitivo dos passarinhos, que soa como um refrão de bossa nova." (Daniel Galera)
A menina tinha tanto medo do mar. Medo da força com que caminham as ondas, do vento que despenteia as certezas e do reflexo ofuscante do sol. Quando não do sol, de nós. Andava na beira da areia, chutando e pisando em conchas, fingindo gostar do antes, quando, no entanto, medo era de depois, do dentro, do fundo.
As palmas suadas, as solas, a carcaça queimada e a menina-sorriso. Ouvindo a surdez das águas se arrebentando perto dos seus joelhos encolhidos. E foi assim que resolveu intervir.
Correr ali, faz bem não. Passo a passo, olhos d´água, n´água. Menina entrando onde não era mundo seu. Ontem, talvez, fora, mas já desacostumada do sal a grudar na pele e da leveza em que se é possível descansar sobre a película fina da água que não tem fim, invadiu.
Enfiou os punhos e o peito, submergiu os cabelos e deixou ocupados os olhos - guardados corpo adentro - salvos pro depois que viria forte, sem dó.
Atenta e aflita, a menina-sorriso viu-se nado, a possibilidade de esticar os braços e tocar o mundo. Sacudia as pernas, os pés feito bandeira ao vento, os dedinhos claros a furar o aconchego momentâneo das águas. Que não sossegam nunca.
A maré baixou. Ela, então, enxergou o fundo: o chão marrom e mole, mas que sustentaria seu peso.
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