HORAS DE CLARICE
"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)


Domingo, Junho 25, 2006  



TIRO PELA CULATRA

Não sei manejar armas e então me desabituei a enxergá-las dispersas no espaço entre as pessoas e as coisas. E tenho aguçado esse hábito de olhar pro mundo com olhos encantados e coração disparado.
Esqueci de tomar conta de mim e quis acreditar na possibilidade de alguma beleza nesse ferro frio, nesse cano que adormecia uma bala aflita. É mentira quando dizem que serve para auto-proteção. Te vi e me atrapalhei nos gestos e desejos. Aí então, em disparos, não só o peito, apertei o gatilho por incapacidade de reter-me só. O difícil é entender porque foi que meu dedo puxou o pino que cuspiria a bala - nada certeira - pois que eu nunca quereria te fazer sangrar. Fato é que empurrei minhas asas cortadas precipício abaixo e quando senti uma pontada forte eu pus a mão no meu sangue jorrando feito nascente de rio tortuoso.
Me restaram teus olhos de susto e tristeza e eu não consegui te explicar que não era intencional a arma colada no seu peito. Você me sorriu descrente e tentou cuidar da ferida da qual nem foi culpado por eu tê-la.
E sei bem que você não esconderia uma arma, meu medo de você é outro.
Meu medo de você: sou eu.

posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

Sábado, Junho 24, 2006  



DOS TEMPOS JÁ (sofr)IDOS

Se ainda.
Fossem dadas as nossas mãos e seriam outros os dias que me acometem. Essa porta rachada seria o vão dos nossos segredos e não haveria tanta graça no suor que me corre pela espinha - o arrepio, há tempos, seguiu rumo pra outras bandas mais carnavalescas. Seu sapato ainda tropeçaria em meus desassossegos e o vinho amargaria nossos lábios, antes que pudéssemos saborear as uvas pisoteadas. Em esmasgos as cascas das quais me despi.
Já outra.

posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

Domingo, Junho 11, 2006  



COMPLEXIFICANDO O MOVIMENTO INÁBIL

[Porque se houvesse remédio, que engraçado seria. Seria triste. Imagine só ter resposta pra todos os anseios? É quando me convenço de que sangrar é bonito, é quando me permito sorrir enquanto dói os ossos. Sabe isso de o corpo responder às angústias? E nem falo do extremo de ficar doente: gripe em pleno verão e catapora pela segunda vez. Falo do nó, da respiração pesada, truncada, esforçada. Os olhos sempre caindo e se escondendo na mancha crescente e roxa. O medo latejando as pernas, apertando o estômago, contraindo as costelas e as unhas cravadas na palma das próprias mãos.]

Esticou bem a corda, desenrolou aqueles pedaços onde formavam inícios de espiral e amarrou a alma. Subiu na cadeira, colocou o primeiro pé - o direito - na beirada externa da janela, forçou o corpo, colocou a outra perna pra fora, ficou de pé, abriu os braços e chorou. Ela nunca mais seria livre.
Abriu os olhos e enxergou o teto em bolhas escuras. Jé era tempo de avisar ao síndico sobre o vazamento no apartamento superior. Levantou calmamente, porque soubera - tempos atrás - que levantar muito rápido, depois de ter dormido por horas, pode bagunçar a ordem funcional dos órgãos. Se ela não esquecesse que seria só continuar pulando, dançando, rodopiando: um dia volta ao normal. Volta? Quem é que volta?
"Socorro" - ela desenhou no vidro do banheiro, embaçado pelo banho quente - passando as costas da mão na esperança vã e rasa de que assim fosse a solução. Então, se fosse, gastaria alguns bons dias na arte de desenhar e desfazer. Seria possível reescrever o nascimento, tirar o trauma que temos desse mundo frio e colocar nos canudinhos cerebrais coreis mais suaves e tranquilas até uma adaptação harmonioza. Imagine só como seriam os sorrisos das pessoas? Consegue pensar em uma abertura dos lábios, os dentes sendo escancarados pouco a pouco acompanhados de olhos cintilantes? Um brilho que desconhecemos.
Chutou o jornal perto da porta e foi até a cozinha buscar uma xícara. Hoje tomaria chá com torradas, hoje tomaria cuidado. Enquanto fervia a água e ela esperava o assovio solitário da chaleira, comeu as unhas da mão esquerda, ajeitou a barra da calça, jogou para trás os cabelos e os desejos.
Quando trancou a porta pelo lado de fora, por dentro houve o oco. Na cesta em cima da mesa os pães endureceram, o leite azedou e o pó de café só deixou a cor, mandando embora cheiro e gosto.
Tem jeito não, menina, foi pra sempre. Volte você, então, que aí o medo se intimida.

posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

Domingo, Junho 04, 2006  



Porque alguns filmes merecem ser vistos mais vezes...
E porque a segunda vez em que vi, este me bateu exatamente onde nasce minha febre.

posted by FEFA ALMEIDA SILVA | O Inferno São os Outros

Hermann Hesse, por Andy Warhol
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