HORAS DE CLARICE
"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)


Quarta-feira, Maio 24, 2006  



Não é que eu ainda sinta seu cheiro e o peso da sua mão na minha cintura, mas é que as vezes te sinto próximo. Talvez a memória tenha essa capacidade de reavivar o que pensávamos eternamente adormecido. Mas se vejo uma foto sua de relance, há o susto. Não o susto por te ver, mas o susto por não me assustar ao vê-lo. De repente percebo que te olhava sem medir a distância, sem pesar as saudades, sem doer o que já tomamos por terminado. As vezes eu queria tanto te ver, te olhar de novo pra saber se ainda conseguia enxergar seus labirintos, apertar seu braço e sussurrar que seria tão mais bonito se ainda fizéssemos sentido juntos. Mas não fazemos. Vontade de esperar você me chamar pro fim de semana, eu podia levar vinho pra sua casa e a gente ficava lá falando, deixava os minutos irem se amolecendo, deixava as superfícies derreterem e quando não coubesse mais espaço entre nós dois, podíamos nos abraçar sem medo, sem traumas. Mas é que me privo da esperança, me privo da frustração óbvia, tenho um medo desgraçado de sangrar além do que deveria só por ter sido irracionalmente teimosa. Quero me convencer de que você precisa mesmo caminhar sozinho, repito que os relacionamentos tem, naturalmente, um tempo de existência, uma vida últil. Mas é que eu não queria estar andando sem companhia agora, não queria estar sentindo esse desvalor em tudo que demorei tanto pra poder alcançar. Eu queria teu jeito quieto e interessado me assistindo narrar trechos das histórias que vivo e invento. Ando precisando é reinventar meus desejos, buscar - longe da minha memória - o prazer vivo, o prazer que não seja nostálgico, a vontade que não seja de eu ser sua, outra vez.

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Segunda-feira, Maio 22, 2006  



CUMPRINDO PROMESSAS

Faltou eu te confessar minha preferência pelo teu olho esquerdo e completar explicando tal opção devido o escuro no teu castanho-claro ocular. E faltou te dizer que, ainda no teu lado canhoto, uma pinta no teu braço me deixava louca. Os primeiros dias foram bonitos. Eu te abraçava forte e respirávamos fundo, segredávamos coisas, comíamos pipoca. Mas aí então o dia depois dos primeiros fez-se difícil e eu sentei no canto da escada chorando, com medo de que alguma coisa se perdesse (e realmente se perdeu.) Quis ajeitar meu ritmo no teu, quis entender tua dança e respeitar teu silêncio distante. Quis te pedir desesperadamente pra não desistir de mim. Com uma dor funda eu te exclamei que não era cega e afirmei que quando você fosse embora eu te abraçaria quieta e te deixaria ir, sem te pedir nada. Você negou, disse que ainda queria me ver grande. Eram falsas tuas promessas: era carnaval.

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Domingo, Maio 21, 2006  



ANTES QUE PUDESSE REPARAR.

Espiou pela fresta da janela. Ajeitou o casaco, amarrou o tênis do pé esquerdo e tirou a franja dos olhos. Não tinha conseguido almoçar, comeu só uma banana pra não ir com o estômago completamente vazio - era sempre assim quando era dia de vê-lo. Correu até o metrô, o relógio marcava 15 minutos pras horas que ela já nem sabia mais.
O grito estridente das escadas que levaram-na pro vagão vazio. Espécie estranha de solidão. As cadeiras sérias, imóveis e seus olhos na tentativa de fixar alguma imagem que corria pelas janelas embaçadas. Aproximava e afastava os joelhos num ritmo rápido, sem perceber. Ai, essa aflição de chegar logo, essa vontade de estar logo lá.
Em pequenos pulos alternados com as passadas rápidas, ela viu-se diante daquele portão cinza, descascando. Apartamento 21.
...
Apartamento 21.
...
Apartamen.."Oi, quem é?"
No espelho do hall ajeitou mais uma vez a franja e subiu, contendo a pressa, os lances eternos de escada, sem subir antes que as luzes automáticas dos corredores lhe dessem boas-vindas.

Bem mais rápido do que havia previsto, estava ela do lado de fora do portão, dessa vez de costas pra ele. Decidiu ir de ônibus pra casa. Sentiu o estômago se comprimir e lamentou não ter trazido nada pra comer, na bolsa. Com um soluço oco e discreto não conteve a dor. Apertou forte o banco da frente, fechou bem os olhos e pensou com tamanha tristeza e desalento:
-Ele sequer reparou que combinei a meia com minha blusa embaixo dessa jaqueta. Ele sequer reparou...

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Quinta-feira, Maio 18, 2006  



SOBRE A ARTE (ou tentativa) DA CONQUISTA

É que se pegar pelo pescoço, direto, rompe a corrente. A idéia é se achegar, delicadamente, sutilmente - como agora tem sido moda dizer. Se chegue calado, mostrando um pouco dos dentes num quase-sorriso que beire o não-intencional. Vai parecer a tal força do acaso e se tu tiver sorte não vai rolar aquele papo de ser mera coinscidência. Geralmente as pessoas curtem a possibilidade de uma conspiração universal a favor de sua felicidade individual. Foda-se se teu ideal de felicidade condiz, ou não, com o do mundo. E não nos desfoquemos, falávamos do pescoço. Aquela região abaixo do queijo e antes de chegar na orelha, sabe? Entre o que se deseja e o que se toca: é esse o ponto. Se rolar um olhar fixo que não demonstre uma fixação psicopata, é causa ganha. Porque aí envolve tudo aquilo de energia, da posição da lua e de vênus e tu querendo que o espaço vá a merda, eu sei, te conheço. Mas é nesse detalhe, é nesse ponto que tu encaixa a armadilha. Porque se de repente for possível apoiar o braço sobre a mesa, como se segurasse tua própria cabeça, naquele tom divagante, aí casa com a imagem preparada no tal lance de não pegar pelo pescoço. É a simbologia que faz o ato, me entende? Tente chutar de leve, se os pés estiverem próximos dos teus, porque aí então é o contato não-intencional, de que falei. Vale também deixar alguma coisa cair e tentar o chavão das agachadas simultâneas. Mas aí é foda. Foda porque pode rolar a quebra da atmosfera, me entende? Se tu abaixa sozinho, pega o que caiu, vira cena deslocada, desinteressante, desligada do objetivo. Isso, exatamente o ponto do pescoço, abaixo do queixo mas antes de chegar na orelha. Pra substituição, pra que você mantenha a amarra dos tempos, pode cruzar as pernas, descansar a mão no joelho e aí nesse momento rola uma olhada mais direta. Não porra, agora tem que ser uma encarada rápida nos olhos, coisa de menos de segundo, pra que não exista certeza. Tem que ficar na possibilidade do "será?", ta entendendo? E no instante seguinte é óbvio: descruze as pernas! E volte o olhar pra alguma direção oposta, e se demore quase um minuto, tom pensante, rola mexer no cabelo, ou na barra da calça, ou ritimar a ponta dos dedos de maneira despretenciosa, sabe? E aí? Aí é causa ganha. Vai direto no pesçoso que aí tu leva direto pra casa!

[e do outro lado da mesa, acontecia o pensamento...]

- Será que sobrou macarrão do almoço? Já é a quarta caipirinha que tomo, fumei um maço inteiro de cigarros e aquele merda não apareceu... Deviam morrer esses filhos-da-puta que tem uma sensibilidade nata de nos pegar pelo pescoço no momento exato em que é fatal! Porra, to ficando bêbada e não to afim de gastar grana com comida, nesse lugar...

[Se não só devesse, se virasse fato, ele ao menos não morreria - não era nato:]

-Porra, onde é mesmo o ponto exato? Entre a orelha e o quê?!

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Segunda-feira, Maio 15, 2006  



Ela gosta dos dois quilos a menos e das 48 horas a mais nos fins de semana. Gosta do frio desse outono invasivo e do medo de não acordar. Mas ela gosta mesmo é do vácuo entre seus braços, dos teus pés em tropeços, da sua língua em chamas. O silêncio. Ela adora esse silêncio. Como lhe dá prazer o telefone mudo e o rádio aos berros naquele vinil antigo já tão desgastado, em que mais se ouve o chiado do tempo, do que a melodia lá gravada - doutros tempos. Como é que pode ela gostar assim, tanto, dos seus olhos inchados e trêmulos, das veias saltitando impacientes? Ah, mas ela pede, ela quer tanto tudo isso. Quer o soluço dos semáfaros mudando solitários na escuridão. Ela mantém as altas doses de álcool pra que possa morder os próprios lábios e sentí-los já dormentes, e então pode largar os olhos que pousam sobre qualquer imagem e se perdem alma a dentro na procura de uma razão viva. Como lhe é agradável o cheiro de café inundando cômodos e sendo absorvido por seu estômago doente! Ela quer a úlcera, a marca da vergonha a ferro e brasa no lado direito do rosto. Quer a boca corrompida pela cicatriz latente, que não pára de crescer. Gosta muito do desespero sem repouso, das paredes geladas que nunca, nunca, são capazes de aconchegar ninguém. Ela quer o vermelho, ela quer o coágulo e agulha que o estoure. Gosta do limite, gosta da película transparente que a mantém sã e a inclina para insanidade.

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Sexta-feira, Maio 12, 2006  


[www.flickr.com/photos/ludowitzka]

Como é que se lida com a dor?
É preciso sangrar ininterruptamente até a dormência dos músculos, até a palidez das pálpebras e a mancha roxa que se forma abaixo dos olhos.
Mas eu tenho rido, eu tenho gostado de alguma coisa, eu tenho sido bonita e isso não cabe, não é?
E se tudo for fuga? E se tudo for esse medo que me dá respulsas? Essa covardia, deus meu, que não quero minha.
Esse jeito de falar bastante, balançar as mãos e gargalhada tão livre. É coisa descabida dessa minha dor secreta, desse meu peso de ter que amanhecer os dias. É coisa fora de cabimento, mas tá aqui, dentro aqui de mim, saindo dos meus gestos e risos.
Ontem vi os olhos de um recém-nascido se abrirem e descobri que a gente vê até aquilo que nem entende.
O mundo foge do nosso tato.
Ou, talvez, esteja fugindo eu.

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Sábado, Maio 06, 2006  



Tinha um jeito engraçado de se enrolar no lençol, ela. Enfiava os pés no montinho acumulado de pano, ao pé da cama, até que se formassem duas espécies de pantufas pra aquecer do frio que só se faz nas madrugadas vazias. Noite inteira aquela aflição de não conseguir grudar o sono nas pálpebras arregaladas. O desajeito de onde colocar os braços: se embaixo do corpo, se cruzados para acolher a cabeça ou se enroscados na própria cintura. Tão mais fina. A menina ia fingindo moleza, ia cadenciando os pensamentos, ia delicadamente aprisionando os glóbulos no escuro. E quase sem som ia nascendo uma melodia, um ritmo de respiração e voz, a união do silêncio oco e o granhido da existência. Aos pouquinhos um riso de canto, uma quase risada sutil, os dedos se destencionando, os joelhos levemente separados, e os braços feito asas: abertos, abertos, abertos...

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Hermann Hesse, por Andy Warhol
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