HORAS DE CLARICE 
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"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)

 

Quinta-feira, Dezembro 22, 2005

 
Já estava acordada, de olhos abertos fitando a exata quina onde o armário cedia espaço à parede. Tinha as pernas um pouco doloridas pelo peso das dele, mas não queria se mexer para não acordá-lo. E ia desviando o foco de suas dores e idéias ressaquiadas nos detalhes daquelas portas de madeira clara. Mas é que o fato dele tê-la chamado de fraca, de insignificante, não lhe saía das atenções. Quase a fazia empurrá-lo agressivamente pra que ele acordasse assutado, com os olhos e rosto amassados do lençol, perguntando o que tinha acontecido. Ela ficaria em pé, raivosa, olhando no fundo mais fundo que alcançasse e começaria em uma fala contínua todo o raciocínio cíclico que percorreu durante todas as horas daquela madrugada infernal de insônia e insultos. Ele respirou mais fundo, tendo medo de que ele de alguma forma ouvisse seus pensamentos, quis calar os fluxos mentais e voltou os olhos mais para o chão encontrando sua calça ao avesso, enroscada com uma das tantas camisetas brancas que ele gostava de usar. E pensou que assim deitada, com os cabelos em desalinho repousado, devia ser mesmo fraca, muito fraca. Pensou que se houvesse alguma força em si, teria cuspido em cima dele enquanto ele blasfemava a seu respeito, e que se não o fizera era porque algo fazia algum sentido e ela se deixava ouvindo. Chorar naquele exato momento era o que não podia acontecer. As mãos dele, que lhe envolviam a cintura perceberiam os movimentos cadenciados de um choro silencioso e ela seria olhada com pena, ele calado, mas tão certo de que não falara mais que a verdade. Ela o abraçaria quieta, tão quieta que não saberia depois com o que romper o silêncio que se instauraria, fazendo esse rompante, provavelmente, com um soluço leve seguidos dos dedos a enxugar os olhos - isso sempre era prenúncio para um diálogo. Para desolá-la, sem intenção, ele virou para o lado oposto, soltando-a por completo. Ela virou-se inteira e analisou o corpo descansado dele, suas costas num sobe e desce macio, seus cabelos claros que convidavam as mãos a brincarem. Era hora de ir embora, devagar, pra não haver perguntas nem respostas. Só a ida, o abandono que ele talvez nem perceberia imaginando ter se esquecido de algum compromisso que ela devia ter dito que tinha no dia seguinte de manhã. Levantou calmamente se sentando, levantou a alça direita da blusa que quase descobria seu seio e só então desviou os olhos para começar a se vestir. Antes que fizesse qualquer movimento posterior ao desvio do olhar ele abraçou-a pela cintura, ainda de olhos fechados, e perguntou se estava tudo bem, se ela queria alguma coisa. Sem perceber havia se deitado novamente e no instante que os olhares se cruzaram frente a frente ela lhe sussurrou: eu amo você.



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Quinta-feira, Dezembro 08, 2005

 
UMA CARTA

Como é que eu poderia classificar essa persistência ainda que o mal-estar esteja imponente, irredutível? Há qualquer coisa subliminar que quase me alcança a consciência e então eu denomino confiança. Eu confio em você. Eu te confio, ainda iniciante e desajeitada, meus labirintos. Eu te confio meu futuro. Não te entrego as culpas e soluços ocos, porque estes são conseqüências dos meus desenganos. Mas te confio os olhos profundos, o gaguejar espontâneo, o suor na palma das minhas mãos. Já não há como retroceder: seu nome se cravou na minha busca e nos meus encontros. Te direcionarei os escarros mais raivosos a cada tombo e nova cicatriz. Mas serão seus também os silêncios mais recheados, a gargalhada mais rica (e ainda assim pura e inocente) que eu sonorizar sem cálculo.
É a corda bamba, não é? Esse não saber se lhe darei as cores que seus olhos procuram ou a textura que suas mãos apalpam insistentemente à fim de encontrar. Mas você me instiga a fé. E eu acredito. Não é surda ou cegamente, mas uma crença que se move no sensitivo, que se apóia no som da sua voz, no tom de sua agressividade que me sacudia e que me esbofetiou fechando, por instantes, meus olhos aflitos e minha boca nervosamente entreaberta - ainda que seus dedos e tão pouco a palma de suas mãos tenham me tocado.
O que é que me amedronta? O cheiro de mofo, de traça, o gosto de naftalina se impregnando na garganta. Andei vivendo ao avesso, meu bem. Com medo, tanto medo de mim. Quisera eu transformar minhas vísceras em vinho e me entornar inteira nas ausências que lhe impus. Eu escorreria por entre tuas dúvidas e angústias e inebriaria tuas inseguranças do mais verdadeiro prazer. Você também confiaria em mim.
Mas não é disso que falo, dessas suposições fantasiosas. O que fiz se não esmiuçar meu orgulho? Eu julguei tuas as minhas faltas e chamei teus os meus devaneios. Eu nunca soube que pertencia tanto a você e displicente me desvirtuava melindrosamente de sua direção. Mas eu te quero. Eu te quero meu sopro. Te quero minhas raízes desenroscando a comodidade da terra, movimentos sinuosos cavando a profundidade. Te quero meus dedos se alongando até que sejam suficientemente capazes de lhe tocar a certeza. Mesmo que ela oscile, mesmo que eu oscile.
Somos a espera em seus respectivos âmbitos. Teus pés descalços se sobrepõe lhe pesando os olhos. Eu não paro. Não enquanto eu não tiver a saliva que valha o despertar de teu sono merecido. Talvez você também veja a iminênscia de uma ruga que me esfacela a testa. Alguma prova a que poderei recorrer caso as verdades se mostrem por demais alheias.
É do que somos que eu falo, entende? Dessa vontade que me foge as cercas, do sol que vai entoar nossa cumplicidade no momento em que quase secretamente saberemos, com toda consciência, saberemos.



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