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"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)

 

Quinta-feira, Novembro 03, 2005

 


E porque ela buscava insistentemente, ainda que não consciente, uma alma que lhe acalentasse os soluços - até que estes cessassem - ele apareceu. Meio sem jeito, meio sem rumo caminharam sobre a fina linha de separação entre o acaso e a eternidade. Deixaram o tato invadir os poros e corromper as certezas, causando um desajeito nos passos, uma leveza estranha e difícil. Mas de repente alguma coisa findara. Por mais que balançassem os braços e os desejos, estagnavam-se em introspecção crescente. As mãos permaneciam enlaçadas. Ela, então, entendeu o processo de metamorfose. Seu medo era os casulos não abrirem a tempo. Porque eles precisariam desse rompimento doloroso da casca, das máscaras, dos vícios. Mas e então quando se mostrassem nus frente ao outro, não saberiam o que fazer da carne alheia. Se olhariam ingênuos e perdidos diante do universo de possibilidades. Fora conseqüência e agora haviam desfeito o cenário comum. Haviam quebrado as vitrines sem muito esforço e com as mãos cheias de pedras não existia nada a ser atacado ou destruído. Era a nudez pálida do que nasce do inesperado. Era o processo inverso. De reinvenção, de remolduração dos tópicos. Eles começavam a descobrir a extensão de suas asas. E sobre tudo o que ainda existia, alçaram um vôo novo em comum.



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