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"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)

 

Terça-feira, Maio 17, 2005

 

No ritmo novo dancado a dois, naquele descompasso engracado, desajeito das maos soltas a se buscarem. Fazia graca e movimento aquele novo dia em que a lua se prostrava imponente. Era gostoso entender a cadencia e os degraus do novo espaco, as luminarias verdes estrategicamente posicionadas pra um tom de aconchego e riso. Na costura dos retalhos, ferro quente pra desamarrotar as novas roupas, bonita a adaptacao ao outro, a desposicao em dar-se inteiro, em receber. E como feitos pra se acharem, era a beleza da amplitude e extensao corporal que entoava e suavizava os cortes. Na elasticidade aquatica das lagrimas faziam-se encantadores as pequenas grandes almas adormecidas. Era delicada a costura das cortinas, fazendo par com a transparencia escondida na mesa, era o assovio torto embebedando de suores e intensidades. Na agressividade dos dizeres automaticos o susto da delicadeza do sentido, eram bonitos os olhos avermelhados e a confissao da impotencia no controle. Era fino, profundo, era sorriso no escuro, era gostoso e dolorido. Era a beleza mais bonita que ja se viu, colorida e delicada feito bolha de sabao.



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Quarta-feira, Maio 11, 2005

 

Que viessem as noites. Os olhares famintos. As esbarradas propositais. A pele em chamas. A cabeca em delirios etilicos. Os passos confusos. Os bilhetes trocados. Os lencois molhados. Os poros suados. Ela gostava desses amores instantaneos, dessas promessas gratuitas. Gostava da falsa inocencia porque lhe faziam bem os personagens. Mas por favor, que nao lhe segurassem nas maos. Entregava o rosto a tapas, os seios expostos as mordidas, deixava nuas as pernas para os arranhoes. Mas que nao lhe agarrassem as maos e entrelacassem os dedos. Porque entao pararia a musica, acenderiam-se as luzes e as cortinas se fechariam. Porque se existe um meio de a alma fugir antes da morte, essa fuga se faz exatamente atraves das maos dadas. Mas aquela noite nascia diferente. A lua nova chorava uma garoa fina avisando o que ela nao ouvia enquanto cantava e retocava o rimel no banheiro de casa. Os vultos e sombras se confundiam e distraiam sua intuicao. Eram similares os olhares e o calor da pele, pareciam os mesmos dizeres costumeiros dos bilhetes que recebia, os esbarroes fingiam-se naturais, instigando os suores nos lencois mais proximos. Mas ela nao conhecia a transformacao da noite em dia, suas maos sempre procuravam as chaves do carro e de casa, fugindo antes que se entregassem a outras. Mas aquela noite nascera diferente. Abrindo os olhos inchados do sono ela via descalcos os mesmo pes que assistira terem confundido os passos. Os lencois secos jah haviam absorvido a umidade dos poros e envolviam o resto daquele corpo adormecido que ela olhava e comecava lentamente a tocar. Ela o apalpava cada vez mais avida, apalpava todo aquele corpo estendido. Mas com suas maos eternamente ansiosas jamais encontrou as maos dele.



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Quinta-feira, Maio 05, 2005

 

Nao sou do tipo que varia as ruas, nem que muda o corte de cabelo de forma ousada, nem que fala facilmente com estranhos. Nao sou do tipo que sempre varia o pedido no mesmo restaurante, nem que desmonta relogios para encontrar segredos. Nao sou do tipo que premedita historias, ou que esta sempre atenta a ativar a memoria pra saber contar os fatos ocorridos. Nao sou do tipo que esquece os arrepios, nem sou do tipo que se esquiva rapidamente vendo o golpe ser armado. Nao sou do tipo que almeija o mundo, nem sou do tipo que busca o extremo limite querendo alcancar o ceu para descobrir sua textura. Nao sou do tipo que chora pra chamar a atencao, do tipo que fala pra chamar a atencao, do tipo que se insinua pra chamar a atencao. Nao sou do tipo que chama a atencao. Nao sou do tipo que coloca a alma em pedestal. Nao sou do tipo que tem volta quando se entrega. Nao sou do tipo que anda no meio das avenidas, nem do tipo que se arrasta encostando nos muros, nem tampouco sou do tipo que nao sabe andar. Nao sou do tipo que despensa guarda-chuva, nao sou do tipo que fecha os olhos na descida da montanha-russa. Nao sou do tipo que possui segredos obscuros, nem do tipo que deixa as lagrimas na superficie acessivel. Nao sou do tipo que eu consiga entender, nem sou do tipo que se explique facilmente.
O que sera que esperam de mim?



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Quarta-feira, Maio 04, 2005

 

Enquanto ele colocava a chave na fechadura ela enroscava seus bracos na cintura dele. De olhos fechados respirava e rocava os labios na sua nuca. Enquanto entravam ele sugeria que tomassem um vinho e ela concordava enquanto tirava os sapatos e a blusa. Mexendo nos vinis encontrou Gal Costa, melodia exata para inundar aquele apartamento escuro. Sem camisa ela trazia as tacas, uma na mao esquerda em que o braco esticado a entregava, e a outra na mao direita que ele levou ate a boca tomando dois goles largos. Em um desespero, avidos por se sentirem inteiros, jogaram no chao, proximo as tacas, os restos de roupa que ainda vestiam. Ele segurava forte sua cintura e olhava firme o fundo de seus olhos. Ela respirava forte e lentamente enquanto cravava as unhas nas costas dele. Sorriam, gemiam, se apertavam. Ela sentia querer se rasgar inteira, abrir as visceras, derreter. Ele suava e lhe beijava os olhos, a boca, o pescoco. Se enlacaram mais e mais e mais. Como se nao quisessem nunca mais o desenlace. Ele gostava de seu corpo energico, ela gostava dele consistente e seguro. Trocaram olhares, suores e semem. Deitaram-se exaustos lado a lado, dando-se levemente as maos e a alma. Ele puxou sua taca e deu um gole demorado, ela pediu um pouco de agua. Colocando a agua ao lado do vinho que ela nao terminara de beber, ele deitou e dormiu tao pesado quanto ela dormia. Quando sentiu um espaco grande demais para si no sofa ele abriu os olhos e nao a alcancou. Nao encontrou suas roupas, nem o oculos que ela havia deixado na estante, nem o resto de vinho que adormecera na taca. Restou somente a agua, intacta. Ele cerrou novamente as palpebras repetindo pra si que ela voltaria, que nao largaria para traz a agua, pois o vinho que beberam era bastante acido para mergulhar solitario dentro deles.



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Segunda-feira, Maio 02, 2005

 


Para Fabiana Lopes e Mari Castro que insistem em visitar esse espacinho esquecido...

SOBRE AS LINGUAS

Chegar sozinha em pais estranho eh como nascer de novo. A gente sabe exatamente o que quer mas nao faz muita ideia de como conseguir. Eh dificil direcionar as pessoas sem saber uma palavra na mesma lingua, e definitivamente chorar nao vai auxiliar, essa forma de chamar atencao pra alguma necessidade soh funciona mesmo com as maes e os filhos pequenos, e eh linguagem universal.
Mas de repente se voce esta no aviao e quer qualquer coisa diferente do que esta vendo pra beber, desista e acabe pedindo uma agua mesmo, ou sei la, ate tente, mais saiba que provavelmente todos acabarao de ter comido antes que o comissario consiga entender o seu pedido.
E se voce gosta de Clarice, de Chico e de Matheus eh preciso redescobrir gostos acessiveis, num outro pais esses gostos nao sao parametros pra definir sua personalidade. Voce atravessa as fronteiras e deve fazer nascer em si mesmo novas linhas que definam suas gargalhadas e seus passos de danca, o ritmo geralmenre soa diferente e embora possa parecer estranho no comeco, eh soh sentir o som entrar e as coisas ficarao mais bonitas nas suas diferencas. Aproveite, muitos dizem que a musica tambem eh linguagem universal (mais intensa e entendivel que o choro).



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