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"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)
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Domingo, Fevereiro 27, 2005
"Esqueço que amar é quase uma dor..."
Ele as vezes ria, as vezes brigava, as vezes ia embora sem levá-la pra longe, junto dele. E isso ia ferindo fundo, sem que fosse muito perceptível, era o tipo de coisa acumulativa, que só se percebe a intensidade quando fere-se mais um pouquinho em uma nova vez. Aí vem a revolta, as promessas de nunca mais chorar tanto, as confusões de identidade e o sono. Acordar é o anestésico mais eficaz, as vezes. E digo que é o acordar e não o dormir, porque dormir é não se saber sendo, mas o acordar é abrir os olhos e retomar uma consciência que vem mais clara e sadia - mais maquiada, talvez - menos na carne viva. O dia nasce novinho em folha e as feridas todas parecem quase cicatrizadas, com aquelas casquinhas secas que instigam a unha a coçá-las. Mas há embaixo da superfície seca e curada um mar revolto, quase incontrolável que só aguarda um novo momento de se lançar sem dó. Dói. E não adianta se encolher, não adianta correr, não adianta bater palma nem tocar a campainha porque há um portão intransponível pra esse mundo distante, cuja chave não lhe foi entregue. Mas é só aguardar o fim da noite. Virar-se pro outro lado e dormir. Logo ele volta com aquele mesmo sorriso e o abraço que vale a ela a tua própria existência. Ele vem inofensivo e carente lhe acariciar os cabelos e beijar os lábios cansados de gritar. Vem lhe secando as lágrimas e segurando forte as tuas mãos. Aí então ela se lembra que não é preciso mais nenhum medo, nenhuma dor. E dorme desculpando aquilo que mal lembra e quase não lhe faz mais sentido.
posted by Fefa
4:18 AM
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Quarta-feira, Fevereiro 23, 2005
Ela não estava bem, era evidente. Aquela sensibilidade aguçada, expressa na voz (ora rouca, ora estridente). Entrecortando o silêncio com suspiros e gargalhadas maiores do que a graça que as causava. E não porque tivesse menos que vinte anos. Não porque sempre tivera tudo sempre tão fácil. Não porque gostasse de brincar com a vida e agora era necessário levá-la mais a sério. Era tudo culpa dele. Daqueles olhos atentos e transparente que ele tinha. Por causa daquele cabelo cheiroso. Por causa do cheiro de manteiga na frigideira. Culpa das mãos. Culpa do pé com meia a invadir-lhe a sandália. E então vinha o choro, e os medos e as novidades...A dor decisiva começava a nascer timidamente naquela noite quente de lua bonita.
posted by Fefa
2:51 AM
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Sexta-feira, Fevereiro 11, 2005
ELA DESATINOU
(Chico Buarque)
Ela desatinou, viu chegar Quarta-feira
Acabar brincadeira, bandeiras se desmanchando
E ela ainda está sambando
Ela desatinou, viu morrer alegrias, rasgar fantasias
Os dias sem sol raiando e ela ainda está sambando
Ela não vê que toda a gente, já está sofrendo normalmente
Toda a cidade anda esquecida, da falsa vida, da avenida
Onde quem não inveja a infeliz, feliz
No seu mundo de cetim, assim,
Debochando da dor, do pecado
posted by Fefa
1:21 AM
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