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"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)
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Sábado, Janeiro 29, 2005
Certa vez ouvi de relance um noticiário que falava que, muitas vezes, pessoas que estão perdidas em alto mar não morrem nem por fome, nem por sede, mas por não conseguirem dormir. O corpo vai ficando tão debilitado, tão cansado de existir acompanhado da noção psicológica de que vive, que então padece. Mesmo que tivesse armazenados água e nutrientes em quantidades relevantes para sobrevivência de mais alguns dias, o corpo morre por não dormir.
Hoje acordei moída, podre. Podia ser ressaca das três garrafas de vinho a dois. Mas não era. Não tinha dor de cabeça, nem enjôo, nem moleza. Hoje acordei com ressaca moral, cansaço psíquico, desgaste existencial. Vi o dia nascer e morrer sem ter nada me valido a pena. Tentei livros, músicas, filmes...e só adicionava novos motivos para aumentar e validar tal angústia. Angústia essa que me lembra uma fiel definição feita pelo escritor Daniel Galera em um excelente texto, de onde retirei tal trecho: "A angústia (...) a consciência da morte, ou aquilo que os existencialistas preferiram definir como o 'absurdo da condição humana', emerge das profundezas, atravessando a barreira de nossa repressão e assumindo o primeiro plano em nossa mente. É a sensação de que nenhum projeto faz sentido, que tudo é caos...".
E sinceramente não sei porque continuo a escrever...
Não são raras as vezes em que, geralmente bêbada - de álcool ou poesia - choro a beleza da arte alheia e enxergo minha condição de "entendedora". Sei do que os grandes poetas e escritores falam e isso já me basta, não tenho que me atrever a dedilhar nada nesse teclado amarelado, nem em papel algum. E aí dou a certeza de que jamais voltarei a ter a cara-de-pau de escrever alguma coisa. Mas nasce outro dia e eu finjo que esqueci do meu tamanho e valor reais no mundo, me ponho a escrever e assinar (não bastasse a ousadia de escrever, ainda tenho a pachorra de assinar!!!) novas belas bostas postadas.
Pois bem, essa é uma das vezes em que a beleza do mundo me doeu errada...uma das vezes em que não consigo suportar tanta rima e sentido sublime e choro feito louca, feito doente, toda a beleza doída que tem me rasgado as retinas. E prometo a vocês (seja lá quem vocês sejam - boas pessoas não são, que fazem aqui? - se vieram pra rir, tudo bem...deliciem-se!) que não mais ousarei a escrita, não mais. Mas que continuarei a usar esse espaço de que disponho pra despistar a tal angústia amarga que tem me consumido, que tem me tirado o sorriso e a cor dos olhos, as perspectivas e as noites de sono.
Eu só precisava dormir.
posted by Fefa
2:53 AM
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Quinta-feira, Janeiro 27, 2005
SAMBA DOURADO
Eram as batidas do carnaval. Os tambores se aquecendo pra trazer todo o calor e brilho das escolas com suas musas a sambar incansáveis pelas ruas, sacudindo os corpos espalhados ao redor num ritmo constante misturado as bebedeiras e beijos descompromissados. Tatiana olhava pela janela a tarde se findar e transformar-se em noite. Noite quente de carnaval. Era o fevereiro que enfim mostrava a que veio. E ela sabia que era o mês mais curto do ano para não tornar tão penosos os restos dos dias fevereirinos que não mais eram de carnaval. Assim logo novo março se iniciava tornando as lembranças recentes de um samba alegre, menos penosas. Era esse cheiro de carnaval que Tatiana gostava. Naquela horas as meninas começavam a se maquiar, a colocar as fantasias, pequenos pedaços de panos e armações a lhes tamparem os sexos deixando a mostra os seios sorridentes, sedentos de suor e olhares desejosos. As meninas riam alto, que da janelinha daquele sobradinho Tatiana conseguia ouvir. As vezes as gargalhadas eram interrompidas por cochichos, eram os breves momentos em que as jovens moças se combinavam definindo que homem seria de quem, ou melhor, de quais homens elas seria as musas. A rua logo se enchia, a criançada corria jogando confete, serpentina e espumas. Um sorriso gratuito dos que passavam e olhavam Tatiana apoiar-se no parapeito. Jogavam-lhe beijos, desejavam-lhe alegria e festa, encenavam-lhe paixões, um Pierrot chorava por ela jogando-lhe uma rosa murcha, amassada. Tatiana sorria, fazia teatro junto aos demais, acompanhava a festa ganhar massa, o som ganhar recheio e ser embalado pela bateria uniformizada que começava a ganhar os quilômetros a frente, deixando um rastro de carnavalescos dançantes atrás, a seguir, a sambar. E foram-se assim, os dias. Tatiana a olhar os tempos passando. De madrugada observava a sujeira ser arrastada pelos caminhões que jogavam água, levantavam os caídos, ajeitavam os enfeites pra nova noite acontecer bonita outra vez. Terça-feira findava doída aos olhos molhados de Tatiana, debruçada sobre o parapeito, estarrecida diante dos restos que o último carnaval deixara. Ainda restavam bandeiras penduradas, fantasias esquecidas no meio-fio, alguma batucada querendo prolongar a festa. E pela primeira vez, desde antes desses dias de fevereiro, Tatiana voltou-se para dentro do quarto que lhe mostrava a rotina que logo se instalaria. Abriu o armário, enfiou-se até o fundo buscando um saco de papel. Depositou-o com cuidado sobre a cama coberta com a colcha desbotada de velhos amores e sonhos. Retirou as penas e lantejoulas e colocou-se dentro do vestido dourado. Rainha da bateria. Calçou as sandálias, pintou os olhos, os lábios e as unhas. Tornou a apoiar-se no parapeito, impulsionando todo o corpo, onde ficou de pé. E sambou, sambou todo o resto de noite até que a quarta-feira nascesse, enfim, em cinzas.
posted by Fefa
12:20 AM
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Terça-feira, Janeiro 18, 2005
OS BRINCOS
(Para Vinícius, pela beleza de tua sinceridade quase egoísta.)
O prediozinho mofado continuava sem porteiro. Ela entrou angustiada e subiu as escadas até o segundo andar. Bateu na porta com a expectativa de que só lhe retornasse o eco, mas foi possível ouvir os chinelos se arrastando aflitos, com pressa, e ainda assim, tão lentos. Logo na primeira fresta que permitia a fuga do bagunça lá de dentro ela o enxergou com os mesmos olhos ternos acompanhados de um sorriso meio triste, meio satisfeito. Não sabia se estendia a mão, se lhe beijava o rosto, se inclinava-se para um abraço.
- Está linda, Ana, linda! - ele cortava-lhe o pensamento já lhe envolvendo nos braços brancos e flácidos.
- Imagine Ricardo, o tempo voa, já tenho até essas ruguinhas querendo me entregar a idade.
O sorriso raso não condizia com o mal estar que lhe causava estar ali, diante daquilo que um dia lhe fez tanto sentido e hoje assim, metido num roupão velho e desbotado, chinelos gastos, cabelos desgrenhados e os dedos amarelados do cigarro.
- Continua fumando muito, não é Ri?
- Esses seus brincos! Lembra quando fomos ao parque e você mostrou-me feliz a primeira pechincha bem-sucedida de sua vida? E aí eu não contive a sinceridade e disse que pr'aquele brinco - este, no caso - o cara deveria estar pagando alguém para levar embora mesmo. Como você lacrimejava dócil Ana...E sabe que hoje acho eles lindos, mesmo, assim pendurados em ti?
Era quase palpável o desajeito dela em estar ali. Não sabia bem o que lhe dizer. Não sabia bem o que ele esperava dela. Não sabia o que fazia ali. Para que, afinal, tinha ido?
Soltou um riso nervoso que nada tinha a ver com o assunto
- Olhe ali no cantinho...Tá vendo? Ali do lado da jarra de água... Perto da cortina, Ana!...Sim, é teu vinho preferido, comprei pra te dar mesmo, sabia que viria.
Ela tinha se levantado para pegar a garrafa empoeirada no cantinho onde ele havia indicado. Rodou entre os dedos, quis abrir, cheirá-lo. Devolveu sobre a mesa.
- Deixe por aí, qualquer hora você toma.
- Não vai levar? Pois se foi pra ti mesma que comprei, Aninha!
Ele a olhava numa mistura de saudades e dores, investigando seus gestos descompassados com aquele vestido que nada lhe parecia, tão diferente do que aquela mulher já havia sido.
- Casa-se quando, minha querida?
Assustada quase derrubou o cinzeiro que pegara na estante.
- Semana que vem... - a voz quase muda, falhando roucamente - não lhe mandei o convite porque, você sabe, você entende, não é....pensei talvez que...
Ela falava tanto e tanto que pouco importava o que dissesse, o que justificasse, o que tentasse convencer. Aninha dos olhos úmidos, das mãos delicadas, da voz suave.
- Tome minha linda Ana, que este vinho foi mesmo comprado pra ti. - ele disse lhe estendendo a garrafa que fora pegar.
- Não posso Ricardo, não quero que te chateies comigo, mas não posso.
Ela apagou o cigarro que mal acendera derrubando um pouco das cinzas sobre o sofá, recolheu a bolsa, beijou-lhe o rosto e recomendou que se cuidasse, que fumasse menos e que qualquer hora voltaria para visitá-lo, assim que desse. Nem esperou que a porta se fechasse atrás de si e correu pelos degraus abaixo, ofegante, com os mesmos olhos úmidos de antes. Antes de tomar o táxi se olhou na vitrine de uma loja de esquina, encarou os olhos fundos e aflitos e deixou a atenção se guiar até as orelhas:
- Meus brincos...perdi meus brincos!
posted by Fefa
1:36 AM
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Segunda-feira, Janeiro 03, 2005
Foi por causa de seu sorriso. Ela tinha certeza. Não fazia sentido tudo aquilo que ele confessava, todas as histórias que lembrava (que aliás ela suspeitava serem falsas - tinha um sério problema com memória para minuciosidades), aquele tom romantizado de quando se viram a primeira vez debaixo de uma chuva torrencial, ela suja de barro, fedendo a pinga. Foi sim seu sorriso que justificou o primeiro olhar mais intimidador. Ele vestia terno azul. Ela sequer gostava de caras com terno! Que é que aquele babaca fazia de terno em plena madrugada do primeiro sábado pra domingo do ano? Ela não tinha certeza se havia questionado em alto e bom som, mas a verdade é que ele explicava ter acabado de sair de uma festa de casamento. Seu primo conhecera uma russa que estava há três semanas de férias no Rio e se apaixonaram enlouquecidamente. Aquela coisa de filme hollywoodiano em que o amor é eterno e até os defeitos são essenciais na existência a dois. Porra nenhuma, tudo mentira isso! Ela afirmava gargalhando que esse casamentinho cinematográfico não duraria mais que dois anos, isso se o casal realmente insistisse em permanecer junto. E o cara de terno, meio perdido, não sabia se ficava puto ou se ria com aquela menina (teria quantos anos?) ou se mandava a merda e ia se esconder debaixo de outro lugar até a chuva dar uma melhorada. Mas a verdade é que ela começou a passar mal e ele não saberia deixá-la vomitando na calçada enquanto esperava pra entrar no seu carro recém-comprado. Pois foi aí que tudo se fundiu. Ele ofereceu carona, mas a menina tava mal mesmo, nem sabia o caminho de casa. Leva pra sua cara, rapaz! Disse um outro cara que também via a cena sem saber se ajudava ou ignorava o vômito alheio. E foi isso. Suja de barro, vômito e cheiro de cachaça barata ela sentou ao seu lado como se não entendesse nada ao redor. Ele repetia, repetia, repetia, como num velho disco riscado, que queria levá-la pra casa. Ela ria, sorria, ficava muda, introspectiva, misteriosa. Sorriso filho duma puta. Agora aquele merda daquele cara ficava achando que fazia sentido os meses que passaram juntos vendo filme, indo em não sei quais shows, trocando não sei quantos cd´s. Não é nada disso não, a gente nem combina. Ela pensava enquanto ele pedia dois cafés. Foi sim por causa do sorriso. Nossa! você se lembra do nosso primeiro café? Será que ele ainda não entendeu essa minha falta de interesse no que indica detalhes de paixonite novelesca? por que é que o ridículo ri como se fizéssemos bem um pro outro? ele é que não sabe amar, diria Cazuza, e fica procurando alguém pra caber nesse sonho escroto de amor. Ah, como eu queria que você vestisse aquele seu vestidinhos azul outra vez, só pra eu te lembrar com os olhinhos lentos e avermelhados da bebedeira que você nunca me contou direito. Merda!eu não devia ter sorrido logo agora. Foi isso, exatamente isso: você sorriu e eu já sabia que faríamos todo o sentido da existência vivendo juntos, vambora morar comigo, vamo? E ele nem sabia que ela não gostava de café, de pinga, e de ternos.
posted by Fefa
12:40 PM
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