HORAS DE CLARICE 
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"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)

 

Quarta-feira, Dezembro 22, 2004

 
E de baixo do pano, do pano, do pano...o corpo. Arrombado.



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Terça-feira, Dezembro 21, 2004

 
Era pouco mais de onze meia da noite, ela saía do banho envolta na toalha branca, manchada de óleo da máquina de lavar. Passando pelo espelho se olhou fundo, mediu cada pedacinho de sua existência palpável, comestível. Os cabelos molhados faziam escorrer linhas desregulares sobre os seios e as costas, como se fossem lágrimas mais fortes do que os olhos poderiam suportar. Abriu a primeira gaveta, remexeu em algumas blusas, vestiu duas ou três já sabendo que não as escolheria, mas fazia parte do rito essa indecisão, a prova das roupas que não usaria. De decote amarelo colocou uma calça jeans surrada, que gostava tanto, mas não servia pra ocasiões especiais que não fossem a rotina. Experimentou mais 3 calças e tentou ainda uma saia. Não, nada disso servia praquela noite. Dedilhou os cabides e teu vestido azul lhe sorriu esvoaçante. Nada mais exato que tuas alças torcidas, as costas nuas, as pernas delicadamente de fora e a sensação de vôo. Foi ao banheiro, se olhou novamente, agora nos olhos, no que eles lhe diziam. Secou os cabelo lentamente, não havia pressa, não havia outra opção. Gostava de realçar os olhos cor-de-mel com um lápis preto forte na parte inferior das pálpebras. Uma sobra azulada combinada com o tom da roupa e da esperança. Nos lábios, que ele sempre gostara tanto de beijar, qualquer batom quase sem cor. Sinalizou um meio sorriso mas só consguiu fazer com que as mãos iniciassem tremuras e trouxessem ao corpo um calafrio dolorido. Nós pés brancos e magros colocou a sandália dourada, salto fino, quase incapaz de cumprir sua função de sustentação. Gostava de usar perfume de homem, deu algumas esburrifadas na nuca e nos seios, um pouco também nos braços. Ele notaria, é certo que a notaria tão viva que talvez mudasse os rumos do destino inevitável. Já sem saber as horas abriu um vinho que encontrara no armário, presente antigo de alguém que ela já nem mais sabia. Abriu, colocou 3 dedinhos do tinto na taça, cheirou como fazem os bons apreciadores, sentou-se na sala e esperou, no escuro, que a vida acontecesse. Ela não sabia, mas eram exatamente meia-noite e quarenta e três quando a porta de seu apartamento foi aberta quase num arrombo e ela viu seu rosto desesperado, molhado da chuva, do suor e da dor a olhá-la estupefato. Foi o tempo de colocar a taça no móvel ao lado do sofá e ele partiu pra cima dando-lhe socos e tapas na cara. Alguns chegaram a dizer que ela sequer tenha gemido, choro é certeza que não houve. Foram três tiros na área do coração, morte na hora. De tudo só ficara o vestido azul esparramado pela sala, inebriado de amor, ódio e seu perfume masculino.

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Dói de verdade e não é bonito. O dia nasceu coerentemente cinza e chuvoso na minha noite mal-dormida e mal-entendida. Porque sou mesmo medrosa e talvez pela primeira vez em minha existência eu tenha me enxergado com relação ao mundo. Sei que depois de todo um marasmo e calmaria, veio meu tropeço, meu tombo, meu rosto desfigurado, inchado de sono, bebida e choro. Era mais bonito quando doía de leve, mas eu não ficaria sem sentir a vida por muito tempo, e eis que ontem ela me cuspiu na cara e riu da minha falta de jeito, me encolhendo no cantinho da janela. Talvez o sol apareça, talvez as pessoas voltem a me sorrir coloridas, talvez eu volte a pertencer a forma que desejam e talvez, assim sendo, eu volte a me esquecer de mim, embora eu jamais esqueça essa dor que eu ainda nem sei entender.



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Terça-feira, Dezembro 07, 2004

 
Quanto de abismos e mistérios existe na relação pais-e-filhos eu não sei exatamente. Mas descobri meu amor terno e largo pela mulher de cabelinhos curtos, olhar amável e um abraço que acalmaria qualquer tempestade. Não que não o soubesse existente, o que eu não sabia era seu peso e cor, sua volatilidade que jamais o permite fugir. Minha mãe é uma das icógnitas mais prazeirosas e dolorosas de se desvendar. Tenho tido mais paciência e calma em entendê-la, descobrí-la, admirá-la. Bobo assim, raso assim, hoje descobri que meu amor mal me cabe e eu nem podia calculá-lo, como supunha! Não por nada. Como todos os dias ela levantou cedo, fez café, tomou seu banho, trabalhou um pouco, praprou o almoço...e eu a amo. Exatamente por sermos opostas, por diferirmos no modo de ver e agir quando postas em situações similares. Minha mãe me representa o equilíbrio, o ponto exato que me falta, o exemplo pleno do que eu deveria tentar alcançar. É linda e sorri como um anjo escondendo as cicatrizes e a força que muitos devem subestimar. Mulher com todas as fibras fortes e uma sede de vida que me encanta. É assim essa menina-flor Margarida, que tanto sabe de mim e eu tanto quero saber dela!



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Segunda-feira, Dezembro 06, 2004

 
Hoje tenho qualquer coisa de escritora. Longe, muito longe de ser a escrita. Talvez esses cabelos desalinhados fazendo par com os pijamas que ainda não tirei. Ou então a alma em menor densidade como se dançasse na existência. Talvez ainda as olheiras, apesar da noite devidamente bem dormida com direito a sonhos, que me são tão raros. Ou quem sabe ainda esses livros desordenados sobre o móvel em meio a meus rascunhos e rabiscos, sujos de café que acabei de passar enquanto ouvia Maria Rita me trazer ao pensamento que ainda preciso descobrir quem foi sua mãe antes de julgá-las mesmo tão parecidas. Hoje tenho a saudade nostálgica do último beijo que ainda me deixou gosto na boca e um tremor nas mãos, medo infantil de não conseguir controlar o futuro, de não saber lidar com a vida. Talvez se eu fumasse quereria hoje um pouco do desconhecido representado por Nicole Kidman em "As Horas". Quem sabe devo assistir hoje "Magnólia". Essa chuva que avisa sua vinda nos trovões quer intensificar minha singular sensação e eu fico posta sem ações esperando ser o quer que eu seja sem precipitações ou planejamentos. Hoje não sou dona de mim, hoje posso ser apenas resultado.



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Quarta-feira, Dezembro 01, 2004

 

Hoje uma caminhada na praia lhe bastaria. Talvez por isso ela se encante tanto pelo Rio. Precisava de um fim de tarde nublado, sem pôr-do-sol alaranjado e cinematográfico obrigando-a ser feliz. Queria o cinza imponente olhando firme, questinonando suas dores e anseios. Queria aquele vento que carrega areia nos olhos, emaranha o cabelo misturando tumulto e maresia, grudando à força a roupa que se debate no corpo. Tiraria os chinelos e sentiria a instabilidade do chão, a dança dos grãos que cedem lugar a outros e outros e outros...A ela bastaria sentar e buscar com dedicação a exata finitude, a exata linha que separa as águas do mar e os gases do ar úmido de uma praia chuvosa. E então poderia chorar, soluçar alto, gemer. Ou poderia respirar fundo, insistir num sorriso adormecido, acreditar na beleza da angústia. Poderia ainda cantar, mesmo rouca e falha, qualquer coisa de Chico que lhe viesse à cabeça. Faria bem inventar um cenário bonito pra esse vazio. Inventar que o frio não vem da solidão e opacas não são suas próprias vistas. Podia até anoitecer como num susto em que se olha pra cima e as estrelas piscam. Ela, então, se daria conta das horas que voavam no ritmo das folhas dispersas e quando se decidisse por molhar os pés, nesse exato momento existiria todo um sentido, uma razão estruturada e sólida que lhe arrancaria o peso do corpo e a alma seria única responsável por mantê-la inteira. A lua, por medo de se repetir enlouquecida em céu negro, não apareceria, dando assim, lugar ao seu vôo sem asas.



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