HORAS DE CLARICE 
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"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)

 

Segunda-feira, Novembro 29, 2004

 

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Ainda faltava tanto pra ela ser o que queria, mas isso ela não sabia, e então chorava debruçada no parapeito da janela daquele quarto tão impessoal. O sol se pondo ofuscava sua vista cansada, doída, molhada. Era o laranja mais triste que ela já vira na vida. Soluçava quase imperceptivelmente deixando as idéias brincarem diante do raciocínio. Não queria a linearidade objetiva que sempre usava. Hoje o que mais precisava era não ser quem era, pra descobrir quem, então, poderia ser. O silêncio falso daquela cidadezinha incomodava sua necessidade de não ser. Se levantou esticando os braços para tráz como se quisesse alongar eternamente o corpo e o tempo. Não fazia sentido aquilo que a engolia e deteriorava por dentro. Carregava a angústia de todos os anos de existência e não sabia entender quem era. Talvez fosse a casa vazia. Talvez fosse a vida vazia. Esse vazio quase palpável de quem um dia descobre que não construiu nada além de ilusões. Subiu as escadas daquele prédio morno, quase morto e chegou até as antenas de televisão que riam solitárias lá em cima. Olhou as cores pálidas das casas e das pessoas que se aventuravam viver. Sentada junto ao vento sorriu. Era gostoso descobrir vida exatamente onde ela não existia. Onde o resto do que foi ficava esperando o tempo até que pudesse deixar de ser aquilo que já nem era mais. Debaixo dos pés descalços ela sentia as folhas secas racharem, quebrarem suas superfícies ressequidas e o fio silencioso que insistia em permanecer. Com os dedos dos pés brincava chutando as folhas ao longe, queria ver a incerteza de seus vôos. Embora ela não soubesse, era uma nova existência que se iniciava, algo tão maior que sua consciência que ela jamais poderia entender e então prendia a atenção no gesto que insistia, na sola do pé a roçar as delicadas plantas amarronzadas, nas folhas que caíam de baixo.



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Sexta-feira, Novembro 19, 2004

 
MÁ EDUCAÇÃO

Para Jéssica, que tem olhos de amêndoas e coração de algodão...



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Domingo, Novembro 14, 2004

 
AS HORAS

Tudo que há de implícito e significativo no desenrolar dos tempos...revolto e modificado, também, pelas palavras.



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Quinta-feira, Novembro 11, 2004

 
Quando eu decido que vou desistir de mim, que vou desacreditar na beleza implícita das coisas e me forçar a caber na forma exigida....você me convida pra uma cerveja numa quarta-feira chuvosa....Mari me escreve uma carta nessa quinta-feira sem sal...e eu acabo por dar risada dos meus medos prevsíveis, da minha revolta calculada....!!!!!!!!!

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Talvez alguém tenha reparado nos dias em que nada de novo apareceu por aqui. É que não tenho estado diposta a sentar em frente desse quadrado branco acreditando em alguma coisa que nasce em mim e traduzindo-a aqui através das mesmas meia dúzias de palavras que sempro acabo por usar. São sempre os mesmo adjetivos, os mesmo substantivos querendo reverenciar naquilo que há tempos ficou gasto e eu continuei a valorizar. Porque as vezes eu enxergo a realidade crua da existência, o exato lugar e posição em que me encontro. Leio minhas tentativa ridículas de qualquer coisa que beire o que se diz "escrita" e tenho vergonha e covardia de tentar inovar no que não me cabe. Meu corpo está lânguido e descrente do que posso ser, as minhas olheiras entregam o meu cansaço e a falta de mim em mim. Ele então me pergunta se estou preocupada. Ele então toma mais um gole de cerveja. Ele então me beija e acaricia os cabelos. Ele acha que tenho frio e levo certas coisas a sério demais. Ele então fica quase bêbado e completamente lindo. Ele me conta tantas histórias que eu jamais descreveria a exata perfeição com que ele o fez. Chove. Muito. Muita coisa além da água do céu escorreu pelos boeiros abafados e angustiados. De repente tive minha existência de volta. Mesmo que eu acabe por usar as mesmas repetidas palavras..."quais são as palavras que nunca são ditas?"...Escrevo.



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