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"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)
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Domingo, Outubro 24, 2004
O cheiro do café recém-passado empregnava a casa de uma sensação nostálgica e alientante. A ressaca estourando em sua cabeça era reforçada pelo gosto amargo que lhe vinha do estômago, alcançando a boca que de tempos em tempos se abria para um novo vômito ralo: não haviam mais restos. Do lado do telefone uma infinidade de contas nem abertas, menos ainda pagas. Entre elas um envelope sujo, amassado, rasgado ao meio sem que cortasse o seu conteúdo...que agora se encontrava no chão, espalhado entre a mesinha de centro e o sofá. Misturado aos discos e a garrafa de vinho seco estavam as últimas palavras que lera na vida. As pernas enfraquecidas condenavam uma noite de muito esforço físico e entre as pernas ainda existia alguma coisa latejando, como se pedisse descanso. "Aquele filho da puta levou minha alma e nem sequer sabe disso". Se lembrava vagamente do momento em que o síndico tocara, em meio a madrugada, reclamando do barulho que estava a incomodar os demais vizinhos. Caída no tapete manchado de bebida e gozo, de suor e desespero, sentiu um meio sorriso lhe modificando a expressão lânguida e forçando a voz rouca falou no tom mais alto que conseguia uma citação de um livro que lera "Ninguém sabe, mas eu me divirto com o mundo. À minha maneira". E a gargalhada saiu tosca, ridícula e ela quis chorar e não se conteve. Se permitiu contrarir os olhos tão forte que as lágrimas ficaram presas e no momento em que os abriu escorreu pelo rosto manchas pretas do lápis que passara na noite anterior e teve a face desenhada pela sua dor, pelo resto do que estava sendo. E então Ricardo veio da cozinha com duas canecas servidas do café fresco e olhou-a sem demonstrar a pena que na verdade sentia. Elisa ergueu o olhar e pediu que ele fosse embora, que não fazia sentido ela estando rasgada tão fundo, destroçadas as víceras e ele ficar ali a contemplar suas últimas e inúteis tentativas de sobreviver, afinal, a culpa sequer era dele. Ele não entenderia suas angústias e saber disso a irritava. Ele sentou-se no sofá encostando os pés na mão direita daquela muher que nua, se contorcia no chão frio. Esticou-lhe a caneca azul e, indefesa, ela sentou-se e tomou um gole. "Talvez eu não entenda o que te dói Elisa, mas entendo que a tua solidão é na alma e eu jamais seria suficiente para apaziguá-la desse mal." Levantou-se, recolheu a garrafa vazia do canto, ajeitou os discos, olhou os papéis dispersos pelo chão e saiu deixando a porta aberta. Elisa virou-se de costas, ainda sentada segurando a caneca azul e, olhando para o lado de fora da sua existência, enxergou um céu cinza e um início de chuva que caía em garoa fina. Ouviu Ricardo arrancando o carro com pressa e dormiu. Enfim tinha a paz que durante todo o tempo seu vazio de alma estivera a esperar.
posted by Fefa
12:29 AM
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Terça-feira, Outubro 19, 2004
Embora não percebesse, a respiração estava forte e mais acelerada. Talvez fosse a apreensão. E o estômago aflito não lhe deixara atentar para a porta, que entreaberta, deixava entrar lentamente a sombra de alguém que se aproximava em direção ao quarto. O silêncio era metodicamente interrompido pelas gotas de soro penduradas naquela espécie de cabide metálico parado ao lado da cama. Deitada, assim, ficava com os olhos fixados no teto branco e se perdia no tempo em que ele estivera ali, sempre no alto, imponente, neutro, tão branco como se dissesse que não há nada que supere sua potência neutra e que dali só saem aqueles que ele - sim, o teto - decide deixar sair. Tentou mexer o pé direito, mas só sentia um formigamento estranho que lhe subia pelas pernas, arrepiando os pêlos. Se lembrou de Luís, e de quando os pêlos também ficavam eriçados em meio a beijos e abraços saudosos. "Devíamos ter acreditado mais em nós". Mais uma gota de soro, pensamento interrompido. Desviou os olhos do teto soberano e pousou-os sobre o banquinho do lado oposto a porta. Esquecidas ali estavam uma pilha de revistas da semana passada e a caneta bic que Jaqueline esquecera desde a última visita, tentando resolver palavras cruzadas a cada vez que o médico lhe recomendava repouso e então as risadas e conversas das duas eram interrompidas e caíam em meio ao silêncio, sempre intercalado pelas gotas de soro. Talvez não devesse ter escolhido um quarto assim tão isolado, para que ao menos pudesse ouvir conversas de outros pacientes e de seus parentes a trazerem o coração angustiado, mas os olhos cheios das mais fortes expectativas de melhoras. Lembrou-se de seu pai e conteve-se no impulso de chorar esquecida e largamente. Voltou-se para si. Não que esperasse ver outra cena, outras vestimentas, outro corpo mais carnudo, mas era sempre um novo susto se enxergar tal qual estava. E então a porta se abriu. Aquele homem calvo, roupa branca e devidamente engomada, tarimba valiosa de trabalho e a alma já gasta de tantas e tantas notícias a serem veiculadas ao longo dos anos. No entanto, o doutor fitou-a, colocou a prancheta sobre o pé da cama e deu o sorriso mais sincero que possivelmente existiu em toda sua existência médica. "Sua filha está salva e sorri como um anjo, posso trazê-la?".
posted by Fefa
8:09 PM
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Quinta-feira, Outubro 14, 2004
Só porque tenho pensado demais nele, isso não quer dizer que eu esteja apaixonada, Sandra. Tá bom, Marília. Ai, odeio quando você faz essa cara. Que cara? Essa que fez agora...com um meio sorriso, os olhos desviando e essa balançadinha de cabeça irritante! Nossa, Má, ficou brava comigo? Não, lógico que não, mas de mim, sei eu, ué! Tá bem, mas tem coisas que ficam explícitas, óbvias e a única pessoa que não enxerga é a gente mesma. Tá falando no cara de novo? Eu não, você que associou! e, pra mim, não existe essa de pensar tanto em alguém sem estar alimentando alguma coisinha. Pois bem, estou alimentando uma empolgaçãozinha, então. Você sabe,né?isso vai crescendo e vira...Vira o que, vai falar em amor eterno agora Sandrinha? Amor?!rápido assim Má? - gargalhada estridente - Tudo bem, o cara é bonitinho mesmo, tem um sorriso lindo e temos os gostos bem parecidos...Vocês se conheceram onde mesmo? Num show...Ah é!show daquele cara estranho que nunca lembro o nome. Esse mesmo, estávamos na mesma mesa. E depois no mesmo bar, no mesmo filme, no mesmo carro, na mesma gargalhada, na mesma hisória...né? - riso timido e descontraído - É, mais ou menos..e por tudo isso não acha normal eu pensar nele?? Normalíssimo, o estranho é você negar que tá mesmo apaixonada. Não to negando... Nem confessando! Tá Sandra, eu confesso uma coisinhazinha aqui dentro saltitando quando lembro dele me olhando, dizendo que gosta do jeito como eu falo. Ele te disso isso olhando nos olhos? Foi, por quê? Ihhhh, o cara ta na sua. Na minha?que mania você tem de resumir as coisas, de generalizar, de chegar no ponto final. Ué, e não é o melhor quando se concluiu o que tá acontecendo? Não, não acho.acho bom quando vai indo, a gente vai fingindo que não percebe, que não ta sentindo, que não entende nada...e aí tudo fica gritando tanto que você, enfim, se rende. E pronto...deu na mesma, eu só pulei esse papo meio paixonite-aguda que você colocou no meio. Será que ele vai me ligar? Quando ele te beija emaranha os dedos no seu cabelo? Que isso agora? Ele faz isso? Faz, faz sim...Ahhh então relaxa, no máximo em dois dias ele te liga! Dois?! Muito rápido? Não, pensei que talvez ele pudesse ligar hoje. Hoje?hummm..ele brinca com teus dedos? Tá Sandra, se ele brinca isso indica que ele me ligará hoje? Não, calma, não é simples assim não...o que acontece é que se ele brinca com teus dedos é porque implicitamente tem nele indagações e intenções que....
...Ah, ele tem brincado com muito mais do que meus dedos. Tem brincado com minha certezas, com meus planos, com minhas perspectivas...Será que ele me liga?
posted by Fefa
3:25 PM
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Quarta-feira, Outubro 13, 2004
Talvez minhas últimas descobertas ainda necessitem de tempo para serem absorvidas e traduzidas em alguma coisa escrita por aqui. Mas a verdade é que os últimos filmes, livros, músicas e pessoas que tem tomado meus dias e intensidades têm estado demasiado sensíveis para serem conceituados, pelo menos por enquanto...
"Mas era como uma pessoa que, tendo nascida cega e não tendo ninguém a seu lado que tivesse tido visão, essa pessoas não pudesse sequer formular uma pergunta sobre a visão: ela não saberia que existe ver. Mas, como na verdade existia a visão, mesmo que essa pessoa em si mesma não a soubesse e nem tivesse ouvido falar, essa pessoa estaria parada, inquieta, atenta, sem saber perguntar sobre o que não sabia que existe -- ela sentiria falta do que deveria ser seu."
(A Paixão Segundo G.H. - Clarice Lispector)
posted by Fefa
2:46 PM
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Segunda-feira, Outubro 04, 2004
Ela, agora, existia diferente. Se respirasse fundo podia sentí-lo nos alvéolos, no arrepiar dos pêlos, nas cócegas perto da barriga. Porque alguma coisa (ele) desencadeara uma sucessão de novas sensações tão emboladas e novas, mesmo, que ela mal podia assimilar, ainda não entendia bem, mas sabia que a partir daquilo tudo jamais seria a mesma. Inevitavelmente um sorriso no canto da boca. Olhava o mundo com olhos molhados, com as idéias dançando na cabeça, com as mãos suadas e apertadas entre o livro que tentava ler na volta pra casa depois de ter saído mais cedo da aula. Expectadora da existência alheia, captava nos detalhes indiferentes alguma coisa que remetia a ele, lhe vinha o gosto na boca e saudades do abraço, talvez se vissem no final de semana, mas ela provavelmente teria que fazer hora extra no estágio e aí ficaria mais difícil. Se descobriram por acaso em uma ferinha de domingo perto da Avenida Paulista enquanto ela experimentava um cachecol colorido e ele olhava os hippies fazendo colares de sementes. "Ai, desculpa!", "Que isso, desculpas eu que peço, tava muito espaçoso com esse pé no meio do caminho", risos tímidos, "É que as vezes a gente esquece que o mundo tem mais gente, né?...Desculpa mesmo assim!"...Ela sorriu mais uma vez e foi andando, ele correu atrás dela e lhe entregou o cachecol que experimentara..."O que é isso?", "Ficou tão bem em você, não podia deixar de tê-lo, resolvi te dar". Café, risadas, livros, segredos, telefones, até logo. E agora isso. Voltava aturdida e remexida pelo inesperado, pelo susto que a vida resolveu lhe dar dias antes. Pensou, doída, que se não se vissem ia doer, mas logo contrapos-se sorrindo que talvez todo o tumulto na sua vivêcia devia-se exatamente pela exata medida com que havia ocorrido. "Queria tanto, tanto vê-lo". Chegando em casa passou um café, remexeu nos livros da estante e antes de se olhar no espelho sabia que veria alguém que não era antes, veria um pouco além da medida que representava para o mundo. Segurou a respiração e quebrou o espelho. Já era hora de se livrar dos parâmetros.
posted by Fefa
12:22 PM
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