HORAS DE CLARICE 
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"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)

 

Quinta-feira, Setembro 30, 2004

 
Hoje foi dia de Paulista. Dia de andar atá quase seu fim, mesmo que cinza e chuvoso, mesmo que corrido e cansável. Hoje foi dia de me perder e me encontrar nos rostos que, talvez, eu jamais volte a ver, ou se os vir, talvez, nem me lembre de já tê-los olhado. Hoje foi dia de me inquietar com a existência, de ver preço de livros em sebos, de pensar em novas tatuagens, de querer comprar pequenos presentinhos, de comer pipoca doce, de andar e andar e andar...Hoje foi dia de encostar um pouquinho mais fundo no que sou, de entender um pouquinho mais do que tenho me tornado, de almeijar mais forte o que ainda serei. Hoje foi dia de saudades, de encontros, de decisões. Hoje foi dia de combinações e planos. Hoje foi dia de vida...vida! Daquela mais pura e neutra, daquela mais comum e inconfundível, daquela intensa e imensamente eu.



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Quarta-feira, Setembro 29, 2004

 
"A grandeza do mundo me encolhe." (Clarice Lispector)

Não, ninguém vai me convencer de que é assim, de que as coisas estão em seu curso natural e eu devo me adaptar as suas teorias e ritmos. Ninguém me dará argumentos suficientes que me convençam a fazer aquilo que meu corpo já se recusa, que minha cabeça se nega a entender, que meu cansaço já não suporta. Porque eu olho pela janela e vejo além desse céu cinza, vejo além desses prédios de concreto desbotado e desgastado. Eu olho lá fora e vejo muito de mim aguardando pra ser reconhecido, desvendado, descoberto e sentido. Meus últimos tempos estão rasgando quaisquer certezas mais ridículas e fracas e se torna mais forte em mim essa sede que a alma não cansa de sentir e as mãos não cansam de procurar estrelas no escuro, porque embora eu não as veja, seu calor me direciona e norteia. Minha existência não acompanha o tempo natural das coisas mundanas...

"Você não pode voltar atrás no que vê. Você pode se recusar a ver. Até o fim de sua vida pode se recusar sem necessidade de rever seus mitos ou movimentra-se de um lugar confortávelç. Mas a partir do momento em que você vê, mesmo que involuntariamente VOCÊ ESTÁ PERDIDO" (Caio Fernando)



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Terça-feira, Setembro 28, 2004

 
Aconteceu recentemente - anteontem, pra ser mais exata - mas lembrando assim...parece mentira.



(Ashton Kutcher em cena no filme "Efeito Borboleta") - Até onde tudo realmente existiu?...



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Sábado, Setembro 18, 2004

 

Arnaldo Antunes
"O corpo existe e pode ser pego. É suficientemente opaco para que se possa vê-lo. Se ficar olhando anos você pode ver crescer o cabelo. O corpo existe porque foi feito. Por isso tem um buraco no meio. O corpo existe, dado que exala cheiro. E em cada extremidade existe um dedo. O corpo se cortado espirra um líquido vermelho. O corpo tem alguém como recheio."
.....E O PULSO, AINDA PULSA!!!!!........
(show indescritivelmente perfeito...intensamente enlouquecedor...mutantemente pirante...)



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Sábado, Setembro 04, 2004

 
E quem é que vai alcançar minhas ternuras? Quais as mãos tocaram minha sensiblidade mais funda sem me rasgar a existência de forma agressiva e intolerável? As palavras se repetem dentro da minha cabeça como se quisessem fazer parte eterna de mim, se esquecendo que nem mesmo eu duraria tanto tempo. Ouço os sussurros do tempo que vai passando mal enquanto traz consigo a temperatura morna das vidas inúteis e indiferentes.Eu sorrio mais do que preciso e do que posso e me deixo ser ferida sem relutar as facas que me cortam a pele e furam os olhos. Eu ando morrendo. Quanto tempo alguém sobrevive depois de não viver mais? E não digo nas fotografias e participações secundárias em histórias mal-contadas. Eu digo o quanto ela suporta viver inalterável na energia que circunda a existência cósmica. Vida. Dedos e sonhos. Sinos e flores. Medos... E o que há em ti que fecha e abre? Por favor, alguém acenda a luz!



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Sexta-feira, Setembro 03, 2004

 
BLUES DA PIEDADE
(Cazuza)

Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas

Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia

Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça

Vamos pedir piedade
Pois há um incêncio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem



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Quarta-feira, Setembro 01, 2004

 
BRILHO ETERNO de uma mente sem lembranças

Vale a pena existir...? Insistir...?
Porque esse filme não me permite comentários...e me encheu de indagações e novas sensibilidades...

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...VIVER DÓI!...



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