HORAS DE CLARICE 
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"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)

 

Quarta-feira, Agosto 25, 2004

 
Saudades da Mari...do seu riso largo e solto, dos seus cachos desalinhados, dos seus passos leves, do seu olhar intenso. Essa menina foi pra Recife e me deixou um gosto amargo na boca, de noite mal dormida, de frio da madrugada, de tempos passados e que nostalgicamente não voltam mais. Hoje estou falando dela nesse tom doído porque o comecinho da noite pediu um café regado às nossas vozes, sonhos e encontros. Porque eu queria ter abraçado o mundo mas mal pude terminar minhas obrigações de boa-menina-vestibulanda-que-quer-passar-numa-faculdade-pública. Ela me olharia e diria que eu deveria me soltar mais, respeitar mais meus instintos, gritar quando desse vontade, bater de frente com autoridades midíocres...e depois terminaria dizendo que vê beleza no meio jeito ponderado, mais "responsável e certinho". Ah...quem conhece essa menina se apaixona, tem jeito não minha gente, tem jeito não. E eu não escapei da generalização...conseqüentemente eis-me aqui: embriagadamente saudosista...
Saudades de ti menina linda....saudades...saudades....



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Sexta-feira, Agosto 13, 2004

 
"...toda memória é seletiva..."

E ontem me apaixonei (de novo) pelo meu pai. É sempre no mesmo susto, no mesmo momento que eu não imaginaria, nos mesmo olhos miúdos, negros e brilhantes que eu vejo a alma desse cara que eu amaria mesmo não me sendo pai. E mesmo que eu pareça rasa nas afirmações e declarações eu asseguro de que jamais entenderá do que eu falo aquele que olha pro pai e vê o cara que o criou, ensinou e ponto final. Eu olho e vejo minhas raízes, entendo de onde surgi, de onde criei e fiz crescer minha alma. Olho e sinto a razão de minhas ânsias e sonhos, de minhas vontades largas, de meus passos arriscados, encorajados, autênticos. Porque esse cara de quem eu falo não sorri amarelo nem é gentil por hipocresia, porque sua alma não lhe cabe tamanha a realização e satisfação pela vida. Porque mesmo quando não nos fazemos entender, mesmo quando gritamos eu entendo que é também por essas pequenas raivas que brotam que somos e fazemos o nosso amor atemporal e existencial tornar-se sublime e redimir quaisquer nebulosidades...Porque por mais que eu fale e fale eu fale fico a mercê de repetições ralas e perco o fio, perco a linearidade, mergulho na intensidade do que nós, maravilhosamente presenteados, criamos e alimentamos. Porque ele é o cara por quem sou apaixonada, por quem destruiria qualquer mundo meu, por quem faria todos os dias e horas valerem a pena. Porque dizer que o amo sequer encosta no que realmente se extravasa de mim pra ele e que sinto vir tão intenso dele, pra mim.

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Sim, e nada mudará a minha opinião nesses tempos...a vida é demasiada curta, rápida, instante.
Tenho passado dias de verdadeiros tufões psicológicos e as idéias me vem e vão numa rapidez indizível que somente Clarice pode descrever como "reflexões rapidíssimas e brilhantes como faíscas que se entrecruzavam eletricamente, fundindo-se mais em sensações do que pensamentos".E nesse monte de coisas que não se ordenam e me tomam é como quando cai muita neve que mal se enxerga a pessoa a passos de nós, mas e ai ela vai se diminuindo, se assentando, passa o tempo pra que ela vá se derretendo e então começamos a ver brotar do branco a cor e vida das coisas...mais ou menos o que se passa...ando na mais forte queda de neve existente em mim nos últimos tempos! E tudo na velocidade que meus olhos e mãos só podem tocar e quase se machucam com a agressividade com que chegam. Mas o tempo vai passar, e entenda-se aqui que é um tempo atemporal, daqueles que não se mede em minutos e horas e dias, mas daqueles tempos existenciais que as coisas possuem, e quando tudo for se assentando eu conseguirei voltar a ver as cores vivas de novo, as vidas a nascer, o recomeço brotando do velho, do que passou...E mesmo sem enchergar nem ver os porquês de tantos flocos a cair-me nos rosto eu sei de toda revolução futura, de todos os nascimentos que me virão.
Tempos de tempestades e o que me cabe no momento é me segurar no galho mais próximo pra não ser levada pelos furacões e maremotos...
tempos loucos...lindamente loucos...!
Perdoem-me ser vaga e rasa...sou pouca pra tudo que venho sentindo...mas ainda terei maior domínio sobre essas novas sensações.



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