HORAS DE CLARICE 
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"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo." (Drummond)

 

Quinta-feira, Junho 17, 2004

 
Para Mari
que sempre salpica de estrelas nosso chão...

É sempre, sempre, sempre, sempre assim...Aquele tchau já com gosto da saudade que vai doer a noite toda, latejar na alma e lacrimejar a vista. Ela se vai tão levinha e deixa todo o ar com seu aroma de existência e plenitude que respirar depois de sua ida é quase uma dor, é amor, segundo Djavan. Mas e hoje não foi dessa maneira. Faltava-nos vinte minutos e então os ponteirinhos do meu relógio de pulso saltaram loucos, desvairados, raivosos e cravaram-se em meu peito fazendo escorrer sangue vermelho, voz rouca, mãos fracas e eu sequer pude lhe pedir que ao menos hoje não me deixasse nos restos de seus passos as fagulhas de ferro quente que me atingiriam os olhos e fariam necrofilar minhas certezas. Ainda tenho o gosto do café na língua e sei que as notas musicais misturadas a vozes inconfundíveis ainda rondam meus espaços e espasmos. Ainda tenho o susto de Paulo César e os pulmões elásticos pelas nossas risadas. Mas você é delicadamente rude...Me aparece em doses homeopáticas cheia de ervas e eras e contos, destruindo as cascas velhas da minha alma, me desvirginando perante o universo e eu, criancinha indefesa sem pai nem mãe, preciso me virar sozinha, descolar meu pão e água. E embora você tenha a mochila repleta das mais deliciosas comidas de que já se soube e guarde os mais puros e refinados vinhos, você me olha ao longe me mandando que eu mesma conquiste meus prazeres. Me permite ser leviana, rasa, boba, casta, gasta, gata...E sou tão eu com você minha irmãzinha, que penso que chegaremos a um ponto de fusão sem volta, a uma mescla de alma sem possibilidade de distinção. E enquanto esse dia não vem vou aqui pegando trapos pelos caminhos, juntando migalhas, colecionando sorrisos pra que eu possa lhe dar o mais puro e lindo do que eu alcançaria ser, o mais belo que mereces.



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Terça-feira, Junho 15, 2004

 
Talvez se me fosse possível mais tempo, honraria melhor minha língua e a utilização das palavras...Mas as vezes a fonte vai secando e a gente não quer perder as ultimas frases que umedecem a vida...!


Colocaram os sapatinhos e a fita cor-de-rosa no cabelo muito bem penteado da princesinha. Ela vestia saia rodada, bem passada, comportada. Nas mãos luvas brancas, puras e no rosto róseo um tímido sorriso de menina inocente. Lhe contaram mil e uma histórias de fadas e príncipes, de sonhos que se realizam, de felicidades eternas. A menina se punha atenta, as vezes ria, as vezes chorava. De noite dormia em meio a cobertas macias e tinhas os mais lindos anjos a velarem teu sono. Mas certo dia acordou e em susto viu que crescera, assim, da noite pro dia...Não sabia dizer como, nem porque...Se olhou no espelho e teve vergonha...Correu atordoada pelos corredores e becos do castelo a pedido de ajuda, de que lhe pegassem no colo e lhe acalmassem a alma. Mas só ouvia ruídos longínqüos, sombras frias, velas acesas. E quando não pode mais, caiu. Retirou a fita dos cabelos, os sapatos, o vestido. Quando se viu nua, descobriu também estar despindo a alma. Sentia as feridas lhe abrirem a pele, os músculos, as veias, tocarem os ossos...Doía, muito. E quando conseguiu parar de chorar, já anestesiada pela subversão das dores, novamente se olhou. E viu-se mulher, viu-se viva. Não mais lhe colocaram mimos, não mais lhe trouxeram histórias...Sentiu necessario calçar as botas, colocar o chapéu, pegar as armas e ferir o destino.



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Terça-feira, Junho 08, 2004

 
Está bem...estou a postos. Preparada e decidida, venha, derrube-me, espanque-me, dilascera esse restinho que me fortifica. Ah, assim não quer? Pois bem, desviarei meus olhares e gestos para que acredite na minha distração e então pode invadir meus segundos entre momentos e devastar as razões inúteis que me enfiaram guela a baixo.
É quando com a respiração ofegante e os olhos fundos desnorteados que então existe, sim, a vida. Vida aquela da qual se falam longinquamente, saudosamente, nostalgicamente...sabem? Pois então, ela existe e vez ou outra tromba meu tempo e meus suspiros, vela meus cafés e chás sem açúcar, forra o chão que sigo andando acreditada.
"Com o tempo foi dando uma coisa em meu peito
um aperto difícil da gente explicar
Saudade, não sei bem de quê
Tristeza, não sei bem por quê
Vontade até sem querer de chorar

Angústia de não se entender
Um tédio que a gente nem crê
Anseio de tudo esquecer e voltar"
(PAULO CÉSAR PINHEIRO)



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Segunda-feira, Junho 07, 2004

 

DIÁRIOS DE MOTOCICLETA
Não há o que ser dito, o que ser acrescentado...só eu sei minha respiração ofegante, meus olhos úmidos e minha alma acariciada.



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Domingo, Junho 06, 2004

 
"Tenho a alma ferida pela ausente carícia daquela mão."
(Alessandro Palmeira)

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E na ponta dos meus dedos...a vida.
Sei que se grito me corroerão a alma e talvez dilacerem eternamente os sentidos vitais. Então ponho-me em defensiva mas é inútil a tentativa de permanência quando os fios finos, de que tanto falo, chegam ao fim de sua viuda útil e como bolhas de sabão vão-se perdendo o brilho, as cores, a forma e somem como se nunca tivessem existido. Porque me sei tão íntima, tão única em minha estranha solidão de alma. E tenho me descoberto nova, outra, mudada. Mas não daquelas mudanças confundidas com amadurecimendo, "tarimba" - diria meu avô -, mas aquela mudança de existência, de sabores, da essência...talvez?
Andam me doendo as vistas e o peito e eu já não me escondo em risos levianos e gratuitos, já não me pinto e fantasio escondendo a tristeza do palhaço, já não danço a ponto de cansar-me e não restar mais nada que o cansaço físico diluindo as dores viscerais. E ponho-me nu diante do mundo, me despindo frente a qualquer platéia, a qualquer situação, não há mais coerência em seguir contextos porque minha existência tem desaprovado a obediência às regras.
Porque quando Caio fala de Maurício e Clarice descreve Lóry, lá me encontro bicho do mato acoado em meio a cidade grande. Lá me vejo choramingando doída todas as penas que arracaram de minhas asas, desacreditando ser anjo, desacreditando um dia ter sido. E é do vazio na alma que me refiro. É disso que por mais que eu me explique, fale, ou mesmo cale...não há alcançável. É isso que mesmo sentindo os dedinhos doces e suaves de Mari desenrolarem as angústias mais fundas, sou tão eu. Sou tão eu que gostaria de as vezes me ser menos. Gostaria de sentir então que se as coisas são entrelaçadas, dependentes, conseqüentes, que seja eu, também, parte disso. Mas não existem ares que me pareçam já respirados, nem ruas que me pareçam já trafegadas. E não há susto inocente, não há encantamento sensitivo. Há esse encontro com a raíz da alma, com o fundo da existência, com o mais profundo do que sou. E vem doendo, e vem ferindo, não causa riso, nem beleza. Me dói, me faz crer a beira da loucura embora me veja plena, serena, caminhando lentamente.



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