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"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo." (Drummond)
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Segunda-feira, Maio 31, 2004
Eu me canso, sabe?
Das mesmas promessas repetidas como se fossem inéditas. Dessa busca infindável e inalcansável. Desse cheiro de coisa velha, de alma passada, desgastada. Me canso de sorrir terna a cada novidade inusitada como se bastasse acreditar que elas darão certo. Ando farta, cansada. Já não abraço com tanta força os novos ares porque esses me parecem traiçoeiros demais para tal. Já não sei mais beijar a nova voz que sussurra porque dentro de mim as coisas vem se calando. E não me peçam compreensão, menos egoísmo, mais fé. Nunca quis entrar nessa dança em que fui posta desde que nasci e na marra ensinaram-me a engenharia dos seus passos embora eu nunca tenha esquecido o quanto é mais lindo e leve voar do que se prender a passos certos e calculados. Não, eu não tenho a solução. Eu não sei calcuar a dívida externa e o rombo no orçamento mensal. Não sei olhar pro céu e arriscar um palpite sobre o tempo porque quando olho pra ele eu só enxergo estrelas, ainda que estas estejam escondidas por anos e anos atrás de nuvens e chuvas. E não venha me abraçar como se isso me aliviasse e tão menos a vocês. Não queiram deduzir o lado lindo dessa podridão como se tanto desencontro fosse o destino a nos ensinar. Não quero mimos, carícia, segredos, otimismo. Quero alma nova a todos que insistem e persistem nesse erro coletivo ou quero alma nova a mim, alma que se encaixe e consiga, então, nunca mais ser o que hoje eu sou.
posted by Fefa
7:07 PM
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Quinta-feira, Maio 27, 2004
Gostava, sim, de se ver desarrumada, olheiras fundas, rosto pálido, mãos trêmulas. Achava lindo o sofrimento da alma ser representado, personificado assim. Claro que lhe doía a gastrite e as insônias que faziam-na crer beirar a loucura. Mas enquanto se arrastava pela casa atrás de um copo d'água e se via de relance pelo espelo da sala, sorria quase sem querer. Sorria e então o universo se clareava. Via seus dentes brancos e imutáveis a tal decadência física. Eles ali, postos, firmes, brancos, sorridentes como se a indiferença gritasse que ainda que ela morresse eles estariam assim, vivos. E então passaram meses. Sua presença esquecida naquele terceiro andar e a sua ausência já não causavam mais comentários, preocupações, fofocas, porque tudo, um dia, cai mesmo no esquecimento. Mas naquele dia dormiu bem e de manhã se sentiu com tal disposição que lhe permitia um farto café-da-manhã com direito a flores e frutas e cores. E seu riso era tão largo que ela se olhava consciente no reflexo e não mais de relance assustando-se com seu sorriso quase sem ser. E lavou o rosto, as mãos, sua essência. E quase gargalhava cantarolando as canções mais intensas e guardadas de sua cabeça repleta de cachinhos cor de mel. E como foi a vontade, se pintou. O lápis preto nos olhos realçavam o brilho nascido daquela manhã. Na boca já lhe bastava o riso. Colocou o vestido mais vivo que jamais voltara a usar desde que se descobrira triste e analizando-se sabia, tinha a plena certeza que aqueles panos não poderiam jamais terem sido feitos pra outra pessoa que não ela. E então abriu as janelas, os livros, os discos. Respirou fundo, abriu os braços, esticou as pernas e voou...E no velho e esquecido apartamento restaram as violetas ressequidas, as músicas findadas, as palavras silenciadas pelo tempo e nada mais tinha vida, tudo como sempre estivera.
posted by Fefa
6:12 PM
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Terça-feira, Maio 25, 2004
Decidiram, assim, então.
Ela sabia que virariam de costas e tomariam caminhos opostos e ficaria ao acaso reencontrá-lo. E então o chamou deixando um meio sorriso pra que ele a visse virar-se e ir-se caminhando, porque sabia bem que mesmo que fosse só o cheiro, aquele momento entranharia naquela alma que quase lhe pertencera eternamente. Enquanto se virava passou devagar os olhos por aqueles cabelos castanho-claros tantas vezes desperso em seu colo e que agora batia esquecido pela maresia e o sol que se punha. Com as mãos perdidas não sabia onde descansá-las, quis acender um cigarro mas sabia que não teria força suficiente pra tal. E caminhou, lentamente, longamente, talvez por horas pois não sabia até quando ele a olharia, até onde seus olhos a alcançariam e não queria outra imagem a deixar-lhe que não de seus passos ritimados e infinitos. Sabia que ao menos teus olhos eram totalmente seus e então os fios finos e transparentes lhe riscaram o rosto pálido e seco e a boca entreaberta soluçava doída o que havia seido dilacerado dentro de si. Sentia as pernas bambearem mas jamais poderia perder o balanço charmoso da cintura e deixar-se cair lânguida pela calçacada esperando que lhe estendessem a mão, esperando que ele lhe estendesse a vida...que esta, lhe parecia curta demais. E enquanto ouvia as gaivotas grunhirem céu acima sorriu, como quem quisesse dar-lhe de presente a vida que encontrara naquele instante em que ela mesma não sabia-se existir, o que existiam eram sopros de si, sopros de passado, sopros de dores que iniciavam seu latejar ardente enquanto avisavam-lhe que talvez a morte lhe fosse pouca pra tamanho definhamento...
Alguns bons passos dali, ele. E sim, estava ainda parado e embora ela já tivesse sumido em seu passo vagaroso e indiferente ele não movera nem a atenção de sua cintura leviana. Viu cada pedacinho do chão que foi tocado pela sola daquela sua bota preferida e sentia o vento cortar os últimos fios finos que os ligavam. Porque dali sabe deus onde ela se meteria, sabe-se lá o que faria, que outras ruas e bares frequentaria, que outras bocas desejaria. E sentia-se enojado desse machismo que lhe vinha a mente e impedia teus gestos, mas sabia que o que lhe roçava entre as costelas e o pulmão pedia bem mais do que a atenção daqueles olhinhos miúdos, porque tê-la era mais que beijá-la, era simplismente vê-la com os cabelos em desalinho vindo lhe avisar que eram 10:30hs da manhã de um domingo preguiçoso e faltava pó pro café. Ele sabia que sentiria saudades do cheiro de seu café, de sua roupa, de seu prazer. Porque não haveria no mundo mãos mais inquietas que as dela, não haveriam mais as idéias desconexas acompanhadas de uma gargalhada solta, não haveria mais o medo das horas e não haveria, jamais, um meio sorriso mais eterno do que aquele que ela o deixara.
posted by Fefa
10:42 PM
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Segunda-feira, Maio 24, 2004

posted by Fefa
3:12 PM
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E só porque sou gente grande inibem meus gritos, meus choros inacabáveis, minha roupa suja de lama, minha boca lambuzada de brigadeiro, meu olhos perdidos no céu, minhas gargalhadas sem sentido, meus brinquedos espalhados pelo chão, meu coração eternamente despedaçado, minha inconstância, minha vontade de ter colo, minha pasta de dente de tutti-frutti, meus tênis coloridos, minha fome visceral, minhas perguntas bobas, meus medos do escuro, minha solidão doída, minha alma cantante, meu sorvete napolitano, minha criatvidade nos legos, meus livros de figuras, meus soluços, minhas mãos que nada alcançam...e querem que eu seja mais eu? Querem me entorpecer dessa cegueira adúltera e espeam que eu concorde com tudo isso? Só porque não uso roupas adequadas não posso utilizar da linguagem formal, não posso usar a mesma língua que vocês? E então porque não há em mim ressequida a esperança eu não tenho direito de correr pelas ruas sorrindo? Também porque em mim ainda existe a felicidade pura de existir, por isso, então, não posso te amar? Se mesmo não entendendo a velocidade existencial do tempo eu o admiro é por isso que não posso ver, nem sentir as mudanças?...Falta sempre um pouco mais de mim em mim mesma e sobra sempre mundo demais pra minha existência.
posted by Fefa
3:08 PM
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Domingo, Maio 23, 2004
É enquanto ouço meu pai contar suas aventuras ao cortar sozinho seu cabelo, já que minha mãe não está em casa esse fim de semana, que o sol vem devagarzinho bater nas minhas costas, aquecer meus pés descalços e eu sinto a vida caminhando lentamente lá fora acompanhada pelas turbinas dos aviões que cortam o céu e o silêncio. E tudo faz sentido ainda que sejam "palavras, apenas...palavras, pequenas" porque somos feitos delas também. E porque amanhã já recomeça a rotina comedida eu sinto hoje o dia mais livre de todos os que senti mas até a liberdade, quando vem em dose elevada, prende e me sobra o soluço de quem não soube bater as asas e ficou presa ao galho da encosta depois de ter arriscado voar. Mas e então é só calçar meus sapatos e deixar as palavras sairem da garganta e da alma enquanto ouço também elas vindas do mundo pra me completarem, satisfazerem, acalmarem. Tenho saudades de tudo que ainda vou ser...minha miopia aumentou e eu não consigo enxergar muito bem o futuro, mas a qualquer momento encontro meus óculos...!E que o domingo, enfim, se liberte...
posted by Fefa
3:29 PM
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Sexta-feira, Maio 21, 2004

posted by Fefa
6:01 PM
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"A sua ausência impede-me de abandoná-lo". (ALESSANDO PALMEIRA)
Todo esse frio que me fita pela janela ainda não congelou minha alma...ao contrário tem trazido meus calores intensos, pequenos detalhes calorosos que me afagam, que me entorpecem, anestesiam. Os ponteiros dos relógios não me trazem a mínima noção de pasagem do tempo, vejo nas novas borboletas que a vida anda acontecendo no seu ritmo, é preciso respeitá-lo, compreende-lo ainda que não se entenda. E então quando não se sente a dor dos segundos perdidos é possível enxergar as horas explodindo em farturas, as vidas nascendo, crescendo, rompendo mundos, amontoando velhas cascas desgastadas. Porque quando se entende a fina sensibilidade de ligação das coisas mundanas e sesnsitivas é possível passar tempos e tempos olhando as caras, as casas, as carcaças e mesmo que não lhe fassa sentido, mesmo que não se tire os melhores e maiores aproveitamentos você está sendo, está se sendo. Já reparou no quão difícil é ser? E não me refiro a simples existência terrestre com nascimento, crescimento, reprodução e morte. Refiro-me ao ser do ser desprovido de complexos, conceitos, contextos...o ser, o estado de graça que se alcança quando se é, quando apenas se é. Porque mesmo não sendo, mesmo não acontecendo, mesmo não mudando, mesmo não passando as coisas estão e você, junto com elas...naquela mesma malha fina e sensivel que interliga o cosmo.
Desculpem-me a vagarosidade e amplitude dessas idéias que como traduzuiu Claricinha: "reflexões rapidíssimas e brilhantes como faíscas que se entrecruzavam eletricamente, fundindo-se mais em sensações do que pensamentos." Aproveito para agradecê-la e como sugestão de vida, leias "Uma aprendizagem ou o livros dos prazeres" - Clarice Lispector
posted by Fefa
5:59 PM
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Quinta-feira, Maio 06, 2004
Estou estasiada, pasmada, bestificada...dqueles sustos que lhe tomam as palavras....Aliás as minhas foram mesmo tomadas, Dona Mari deve estar caminhando pelas ruas de São Paulo com a mochila toda cheia de mim.
É linda essa minha incostância, minha instabilidade, minha tranparência. Tão única e deliciosamente entendível as pessoas na minha existência...elas fazem todo sentido quando me aparecem assim sem sentido algum!!!!!
A Mari atordoa as mais esquecidas células do meu corpo pequeno-burguês e olhar teu sorriso e tua alma larga dói minha essência podrificada, perturbada...Mas não se enganem, por mais que isso pareça angustiantemente ruim...pasmem: é, definitivamente, um dos contatos mais íntimos com o Amor! Porque, sim, ele existe...
"Parecia pobre de palavras, mas carregava um romance escrito nos olhos..." (Alessandro Palmeira)
posted by Fefa
10:54 PM
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Terça-feira, Maio 04, 2004
O MEDO - O MAIOR GIGANTE DA ALMA
Para quem tem medo, e nada se atreve, tudo é ousado e perigoso. É o medo que esteriliza nossos abraços e cancela nossos afetos; que proíbe nossos beijos e nos coloca sempre do lado de cá do muro. Esse medo que se enraíza no coração do homem impede-o de ver o mundo que se descortina para além do muro, como se o novo fosse sempre uma cilada, e o desconhecido tivesse sempre uma armadilha a ameaçar nossa ilusão de segurança e certeza.
O medo, já dizia Mira Y Lopes, é o grande gigante da alma, é a mais forte e a mais atávica das nossas emoções. Somos educados para o medo, para o não-ousar e, no entanto, os grandes saltos que demos, to tempo e no espaço, na ciência e na arte, na vida e no amor, foram transgressões, e somente a coragem lúcida pode trazer o novo, e a paisagem vasta que se descortina além dos muros que erguemos dentro e fora de nós mesmos.
E se Cristo não tivesse ousado saber-se o Messias Prometido? E se Galileu Galilei tivesse se acovardado, diante das evidências que hoje aceitamos naturalmente? E se Freud tivesse se acovardado diante das profundezas do incosciente? E se Picasso não tivesse se atrevido a distorcer as formas e a olhar como quem tivesse mil olhos?
"A mente apavora o que não é mesmo velho", canta o poeta, expressando o choque do novo, o estranhamento do desconhecido.
Há um tempo e que é preciso abandonar roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-lo, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.
(Prof. Fernando Teixeira de Andrade)
posted by Fefa
10:11 PM
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