HORAS DE CLARICE 
  corner   



HOME

ARCHIVES


"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo." (Drummond)

 

Quarta-feira, Abril 28, 2004

 
Há alguns dias assisti à uma peça sobre a vida e obras de Manuel Bandeira. Uma das atrizes faz cursinho comigo, a Thaís, e tive acesso a tal apresentação, por ela. Sabe aquelas pessoas de riso largo e simpatia gratuita? A Thaís encanta as mais diversas tribos. E foi sentadinha no auditório ouvindo a ligação das palavras me trazerem Bandeira, que eu quis levantar, aplaudir em meio a apresentação, gritar chorando a toda aquela molecada de colegial que eles mal sabiam o gosto inconfundivelmente maravilhoso que a vida tem! Mas fiquei quietinha apertando as mãos e espremenso as lágrimas nos olhos, desacreditando, sentindo, deixando meu peito ser roçado. Saí da peça intensamente absorvida...não que a apresentação, normalmente, cause tal clímax, mas minha sensibilidade foi violada! Não bastasse, dei de cara com a Av.Paulista, linda e longa, e gostei da idéia de ter 40 minutos até chegar em casa. No ônibus, enquanto comia uma maçã, chorei meu vazio, me rendi à triste conclusão de que o mundo tem corrompido o que eu gostaria de ser. São tantas as justificativas, elas fazem até muito sentido, mas ditas e repetidas tantas vezes se tornam frases feitas sem efeito algum. A idéia de que o equilóbrio é uma utopia se firma cada vez mais e na minha cabeça são incoerentes as possibilidades de eu estar satisfeita em meio a tal ritmo, tais dedicações, tal vida. Insisto, juro, em pensar nas razões, nos porquês, mas sinto que o "carpe diem" corre em minhas veias e se nega a compreender esse jeito de existir e intrelaçar das coisas. As vezes esqueço a beleza da lua. Desci do ônibus e quase me assustei quando no céu laranja já me aparecia o sorriso timidamente branco acompanhado de uma estrela, e eu...só consegui chorar minha ausência.



Comments:

Quarta-feira, Abril 21, 2004

 

Comments:

 
Assim, longe, confesso não lembrar sua voz pra confundi-la numa conversa da calçada. O que não me foge são seus olhos. Eles eram tão vivos que a voz deles ainda sussurra nos meus ovidos e te ouço repetir que não era necessário fazermos nada porque a existência das coisas, por si só, bastava. E ainda que tivéssemos ficado quietos e parados, ainda assim sei que continuaria sentindo tuas mãos brincarem com meus dedos, meu cabelo, minhas certezas. E quando quero parar pra resgatar teu gosto, pra me arrepiar as sensações conhecidas, pra rir dos nossos encontros, ainda que em meio a desencontros, eu vejo que não contive nada além daquilo que cristalizei. E isso me apavora e me enlaça, isso me angustia e acaricia, isso me lembra a imprevisibilidade e a inexatidão do que somos e dos que nos são. Talvez eu devesse ter te contado todas as idéias que me passavam, devesse ter tentado contê-las pra que você entendesse o que realmente acontece dentro desse monte de células minhas, mas e aí você me olhava e eu entendia que não há pressa, não há medos, não há fim. Ainda que amanhã eu já não possa sorrir tuas presenças tímidas durante meu dia há algo que ridiculariza essa possessividade bestamente humana. E falamos. E rimos. E ficamos quietos. E mesmo ouvindo teus olhinhos brincarem no que ouço, ouço tanto que sei, sim, tua voz e o que quero mais breve é confundí-la em conversas alheias.



Comments:

Sexta-feira, Abril 16, 2004

 
O silêncio parecia imutável. As pessoas caminhavam seguindo seus velhos caminhos desgastados e Ana não via sentido nos passos alheios, embora andasse em meio a eles. Sorria quando lhe ofereciam papéis, balas, brincos. Quis sentar a mesa onde lhe ofereceram um copo de cerveja mas não se sentiu a vontade o suficiente. Gostava de pensar que as pessoas existiam pra ela, não pra viverem sofridas, indiferentes, desconhecidas, mas pra lhe cruzarem o caminho e desmitificarem a idéia de que além das casas, os corações, por aqui, não tinham cadeados. Sempre dizia que ainda ouviria o som de um dos sinais da Av.Paulista mudarem de cor e que quando isso fosse possível já teria valido a pena fingir que não doíam as saudades do que um dia fora um pouco distante dali. Talvez não valesse a pena correr o risco de se corromper sem volta, mas a idéia de não tentar lhe causava insônia e toda vez que acoradava ouvindo sirenes ela ria, fumava um cigarro na sacada do décimo oitavo andar e ia se deita novamente com o peito dilacerado por redescobrir que o mundo funciona mesmo quando ela parecia esqucer disso. Foram longos os anos a recitar Drummond, cantar por entre os carros um pouco da Beatriz que havia em si, descobrir sempre um pouco da pureza,do intocável nos olhares dispersos dos apressados.
Há quem duvide até hoje da existência de Ana. Os anos se passam longos e eternos mas ainda é possível ouvir tua gargalhada infame por entre as avenidas, por entre as pernas, por entre os poros. Porque Ana não vive, não envelhesse, não passa. Existe sublime eternizando a razão que alguns raros peitos aflitos ainda procuram.



Comments:



This page is powered by Blogger.