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"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo." (Drummond)
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Terça-feira, Fevereiro 17, 2004
TEU SUICÍDIO
Ontem, sem querer, ouvi alguém chamar teu nome. Olhei ao redor como se ainda me houvesse esperança de te ver perdido na calçada com teu meio sorriso e teus olhinhos claros me encarando duvidosos se a tal avenida em que você deveria estar desde as duas horas da tarde era mesmo a próxima, ou se ainda haviam mais segredos até encontrá-la, mesmo que isso as 5:20h. Mas aí o que vi foi um garotinho que corria solto, com tua capa de super-herói e tua gargalhada era tão viva que eu quase lhe falei que ele podia realmente voar. Talvez você risse de mim, sempre dizendo que eu faço as pessoas acreditarem naquilo que nem mesma eu, entendo. Quantas foram nossas madrugadas faladas, não é?
Não tenho falado mais tanto assim...Já não existem tantas pessoas dispostas a trocar o horário da depilação, do dentista, do cabelereiro, do massagista, da ginástica e do café pra um papinho no boteco da esquina, com aquela cervejinha gelada que a gente sempre dividia, se lembra? "Essa é a quinta ou a sexta? Faltam três reais meus....", você nunca gostou de exatas mas era confortável saber que você calculava pra gente o preço das ¿brejas¿ possíveis...Ao mesmo tempo que eu media a altura dos sonhos, a largura dos sorrisos e o que nunca consegui foi conceituar a intensidade de sua gargalhada despojada, destorcida, fervente.
Você quase me inibia quando me olhava e eu nunca sabia se devia continuar falando ou se era melhor que parasse antes de você sair andando ou ligar Lenine pra que ele lhe desse sentido a alguma coisa nesse cinza todo...Tenho ouvido mais Paulinho, sim o Moska, e ele tem me feito chorar com mais freqüência do que o costumeiro, você provavelmente acharia uma explicação exata pra essa minha atual sensibilidade, e eu continuo fingindo que são coisas inclassificáveis, irrotuláveis, inentendíveis, com aquela minha conversa de sentir, deixar que o sensação exista mas não seja desvendada pra que não calcule a próxima reação.
Mas há tanto não te sei... Teus olhos não me fazem sentido algum assim perdidos no escuro...Já não alcanço mais teus desesperos e o gosto do teu gozo. Você me acabou cedo demais, me acabou sem findar seus resquícios. Minhas são só tuas vaidades, restos dos teus passos desalinhados e esquecidos na porta que não mais lhe trouxe. E aqui perdido, entre meus pulmões e as costelas, alguma coisa pulsa na cadência de tua fala mansa e inacabável como que te chamando de volta ao que você criou brincando e abandonou leviano. Não que lhe implore a volta...Não que lhe grite nas noites cheias de insônia e silêncios...Não que eu não saiba me ser sem a presença dos teus olhos...Mas você ao menos podia ter se ido sem levar contigo as cores dos meus mundos. Podia ter levado tuas camiseta usadas, sim, teu desodorante do meu banheiro, teu travesseiro...Mas não as vozes que me instigavam nas madrugadas escuras, não o toque da minha pele.
Lembra quando ríamos da lua? Falávamos quase gritando da insignificância das dores, dos porres, das saudades, quando sabíamos rasgar os fios mais sensíveis do que éramos. A gente talvez soubesse sim que ¿pra sempre é sempre por um triz¿ mas você nunca me revelou quantos eram os desastres na minha mão...Disse tantas vezes, quanto foram os segundos, que jamais iria embora sem me carregar...Eu só não sabia que carregaria as coisas mais lindas que eu acreditava ser...Não esperava que levasse, também, tudo seu que por vezes se misturava tanto que eu quase acreditava ser meu...Podia ter levado minhas dores ou tê-las matado friamente, sem nem me questionar. E aí seria mais fácil te ver na parede e ter o prazer de nunca, enfim, entender quando foi que morreu a última dor.
E quando foi que morreu a última dor? Quando foi que você se suicidou de mim?
posted by Fefa
9:40 PM
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Domingo, Fevereiro 15, 2004
E agora sou eu quem tem chorado, sou eu quem tem sentido as coisas perderem um pouco da órbita! Tenho ânsias de querer encontrar nos últimos livros de física leis que me acalmem, que me certifiquem que não há nada que te levará de mim! E quando digo "levar" é no sentido mais literal, infantil e egoísta! É meu medo de num lapso me cair a ficha de que não te encontrarei do outro lado da avenida com sua bolsa, seu walkman e o número de telefone que pode salvar o mundo!
Agora são todas minhas as saudades lagas de te ter, saber ao meu lado;das confissões e planos traçados juntas.
Quero ser mimada e exigir que tuas inspirações sejam todas pra mim! Quero ser única dona de todo amor que você pode emanar...Quero que a Stefânia retome seu lugar e que de repente todos os seus Sandrinhos não lhe façam sentido algum...Porque te quero alcançável, visível, minha! Porque pensar em Pernambuco é dilacerar minhas forças! Porque querer criar raízes nessa terra sem a tua presença me traz a boca um gosto de lágrima e no corpo a queda de um suicida...
Quis correr até teu apartamento levando outro doce, uma pizza de palmito quentinha, meu violão nas costas e te mostrar que enfim sei recitar "E agora, José?" desde que você me ajude! E então iríamos gargalhar esquecidas numa sarjeta embaixo de estrelas e pedras (mas sem o castigo de Deus...) e leríamos nossas cartas, leríamos Clarice, inventaríamos nossos contos e assistiríamos o sol dissolver todo o cinza quando começasse a nascer.
Porque o medo de que eu me perca se entranhou demais em mim, me sussurrando que sem ti é destino inevitável! Porque ainda quero descobrir Dostoiévski sim...mas do teu lado pra poder concluir coisas desconexas mas saber de seus olhinhos a me encarar fazendo tudo ter um sentido fácil, lindo, podendo exclamar, ou não, "ai que prazer!".Porque juntas poderemos entender TUDO ainda que em fração de segundos...Porque eu choro ao ler teu amor e quase ouço tua risada!
E tenho todos os medos que já foram teus...aqui, meus!
Faltam muitas meia-noites, muitos cafés, muitos cordéis e Adeodatas...Falta analizar o Matheus na novela, falta ver teu sobrinho sorrir, faltam muitos passos na Paulista e falta sempre mais de você em mim.
posted by Fefa
1:08 AM
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