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HORAS DE CLARICE
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"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo." (Drummond) Comments: Terça-feira, Setembro 16, 2003
PARA MARI, QUE ARRISCA AS PRIMEIRAS PINCELADAS... postado por: FEFA ALMEIDA SILVA 10:39 PM Comments: As vezes eh estranha a forma com que tudo se encontra em torno de mim. Como coisas independentes, soltas e alheia a minha existencia, que dira as minhas vontades. As vezes eh gostoso se deixar cair um pouco, se soltar inteiro dessa corda cada vez mais ala e incansavelmente infinita. Eh bom desgrudar as pernas, a barriga, os braços e jogar a cabeça pra tras sentindo o vento instigante quase abusando do prazer e da entrega. E ai, entao, soltar as maos. Desprender dedo a dedo como coisa calculada, como metas ainda nao pensadas e ver tudo ir-se sozinho, ritmado, previsto. Nao sentir o fixo e o palpavel, se jogar no negro vento em meio a estrelas descontraidas, esquecidas, jogadas. Puxar bem fundo as cores que foram, por ali, engolidas, gritar um som surdo, ecoado, subversivo e suave. Derramar suores e lagrimas de soro, de perfume, de notas e ser melodia. E quabdo tudo isso for tao Pasargada que de medo. Abrir os olhos, me segurar na corda bamba e lembrar de manter soltos os pes pra que mesmo presa seja possivel voar. Que tal perder o controle? Pra onde vao meus gritos mudos e todos os sons que desisti de soar? Onde colocaram minhas lagrimas covardes engolidas? Quem esconde meus meds quando nao quero pensar? E quem os busca quando uma parede branca fica intensa demais? Me mandam pular os muros e eu soh quera qncontrar uma porta. Entregam-me chaves das quais fechaduras sequer existem. Me dao coraçoes doentes pedindo cura e doando dor. Agitam-me bandeiras de cujas naçoes jamais serao tao belas quanto a minha. E tudo eh ralo, um rasgo excessivo num vomito incontido. Tudo eh ausencia ou entrega demais. Dores de partos de filhos feridos, de mundo caidos, de choros meus. Medo. Esqueçam as cores das coisas, esqueçam. Chamem na rua o dono do amor. Gritem aos pobres os coitados que sao. Rastejem inertes na lama, no chao. Sao berros, sao roçados, isso eh sangue. Nao grite senao mudo. Ouça o tilintar das almas que nao tem sossego. Segure firme suas maos em seu peito e reze ateh a ultima de qualquer oraçao. Sorria. Sinta somente o sossego engajado nas lamparinas, no fogo aceso. Tem medo? Queira todos os sonhos e cuspa-os invalidos, cansados, jah pesadelos de ti. Eh choro, eh angustia, eh adeus. postado por: FEFA ALMEIDA SILVA 9:50 PM Comments: Segunda-feira, Setembro 15, 2003
postado por: FEFA ALMEIDA SILVA 12:00 AM Comments: Domingo, Setembro 14, 2003 Hoje "conheci" Rubem Alves....inevitavelmente me encantei...busquei encontra-lo em outros lugares e sem querer encontrei a casa dele....eh linda, naum deixem de visitar...e pra aguçar a curiosidade copiei a "advertencia preliminar" que ele nos da antes que a gente coloque o pe lah dentro a primeira vez...Se deliciem: "O que preparei para você foi um ritual antropofágico. Antropofagia é comer carne humana - coisa selvagem. Mas os chamados selvagens não pensam assim. Uma tribo de índios brasileira que pratica a antropofagia assim se justifica: "Vocês, que se dizem civilizados, não amam os seus mortos. Fazem buracos profundos e os enterram, para serem comidos pelos vermes. Nós, ao contrário, amamos os nossos mortos. Não queremos que eles estejam mortos. Mas eles estão mortos! Só existe uma forma de mantê-los vivos: se nós os comermos. Se nós os comermos, sua carne e o seu sangue continuarão vivos nos nossos próprios corpos." A antropofagia não se faz por razões alimentares. Não se trata de um churrasco. É um cerimonial mágico. Acredita-se que, ao comer o morto, as suas virtudes são incorporadas naqueles que o comem. A psicanálise concorda. Ela acredita que nossa personalidade é formada por sucessivas refeições antropofágicas, nas quais devoramos um pedaço de um, um pedaço de outro. Claro, ela não usa a palavra "antropofagia". Usa a palavra "introjeção", que significa "colocar dentro". Mas "colocar dentro" é, precisamente, comer. A eucaristia é um ritual poético antropofágico: "Esse pão é o meu corpo: comei. Esse vinho é o meu sangue:bebei." O escritor mineiro Murilo Mendes, no seu livro A hora do serrote, diz algo mais ouo menos assim: "No tempo em que eu não era antropófago - no tempo em que eu não devorava livros - pois os livros não são feitos com a carne e o sangue dos que escrevem?" Há livros que são lidos e o seu conteúdo não passa da cabeça. Informações. Ciência. Há outros livros, entretanto, que são comidos, vão direto para as entranhas, coração. Saber "de cor" = saber com o coração. Nietzsche dizia amar somente os livros escritos com sangue. E Guimarães Rosa, que se dizia mágico e feiticeiro da palavra, esclarecia que na sua literatura se encontrava a "alquimia do sangue do coração humano". Pois é isso que eu desejo: ser comido. As coisas que você vai encontrar na minha casa são pedaços de mim. Não importa que seja livros, jardins, poemas, restaurante, fotos, músicas: todos são pedaços arrancados de mim. Como disse, o objetivo da antropofagia não é gastronômico, é mágico: fazer com que o o corpo do que come fique parecido com o corpo do que é comido. É isso que eu quero. De forma especial, desejo que você veja da forma como eu vejo. Gostaria de dar-lhe os meus olhos. Se você vir como eu vejo, então não percisarei mais falar e escrever... Nos sonhos frequentemente a casa simboliza o corpo. Minha casa não é para ser visitada. É para ser comida. Bom apetite! Volte sempre. Rubem Alves " (www.rubemalves.com.br) postado por: FEFA ALMEIDA SILVA 11:49 PM
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