HORAS DE CLARICE

"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo." (Drummond)



Comments: Sexta-feira, Junho 27, 2003

postado por: FEFA ALMEIDA SILVA 1:53 PM


Comments: Perdoem-me o provavel sumiço. Mais umas das tantas mudanças palpaveis dessa minha vida meio nomade...

postado por: FEFA ALMEIDA SILVA 1:47 PM


Comments: Segunda-feira, Junho 23, 2003

Beirando a meia-noite, enquanto meu pai terminava de ver os emails dele por aqui eu me deixer ler um velho caderno de confissoes. Nao daquelas em estilo "querido diario", mas desabafos desesperados, sensaçoes entupidas que fugiam pelos poros e eu tentava externa-las escrevendo. E to mexida. Como se pegasse uma gaveta velha esquecida ha´ anos e de repente decidisse remexe-la. Sempre sobe poeira, sempre ha´ surpresas, sempre atualiza lembranças. Ai voce ve uma foto e ri dos seus olhos tao inocentes achando-se grandes. Le poemas e acaricia a alma com sua falta de rima tao harmoniosa. Atormenta os labios quando le trechos do que foi, quando se encontra em palavras que esqueceu usar antes, quando sobe pela espinha um fio frio de rasgos tao densos ja adormecidos.
E vem a nostalgia de nao estar vivendo. A ansia de querer gargalhar como se dizia com aquela caneta vermelha enfeitada de sorrisos amarelos. E sofre por nao estar dilacerada, verdadeiramente aberta, mortalmente entregue, a nada. Sim, porque por mais que se esteja rasgado, por mais que os amores sejam sinceros hoje, sente-se uma falta do que um dia foi tao seu, do que um dia foi tao intimo. Ler passado traz essa coisa da perda, te esquece a identidade e o que e´ agora porque acha que tem sempre que ter um rastro meio vivo na alma do que um dia sentiu.
E ai´ as maos querem rabiscar cartas saudosas, ligar pra numeros que a memoria duvidava lembrar, escrever emails distantes...parece (e talvez seja , mesmo) viciosa essa coisa das saudades...tao abrangente em palpaveis...tao longinquamente infinita. Sera´ que esses anjos e demonios voltam a dormir um dia?

postado por: FEFA ALMEIDA SILVA 11:51 PM


Comments: Quinta-feira, Junho 12, 2003

Hoje estou infeliz. Daquele tipo de sensaçaum que faz parecer tudo uma nevoa teorica, jamias sentida, jamais arrepiada, jamais real. E o ceu limpido azul ofusca ciza a tristeza da minha retina, porque ja naum sei mais sorrir de verdade. Porque as dores parecem porcas e inuteis, porque to aqui estatica e morrendo, me matando, sem saber, ou talvez querer ateh, sair disso. Naum se preocupem, ha sim, alegria, eu que jah naum a vejo e jah naum lembro senti-la. Eu que jah me esqueci o endereço de casa...antes tivessem no ceu 9 luas e as pessoas tivessem outras caras. Mas nada lem de nuvens e rostos palidos, cansados, viciado, mortos. Talvez mais vivos do que eu tenho conseguido me manter.
E tudo inutil, raso, ridiculo. Antes chorar e sangrar sozinha que ter a mediocre ideia de tentar se libertar!
Perdoem-me a rispidez, mas hoje a manha nasceu cinza.

postado por: FEFA ALMEIDA SILVA 7:35 PM


Comments: Quinta-feira, Junho 05, 2003

postado por: FEFA ALMEIDA SILVA 6:22 PM


Comments: NEGAÇÃO
Não gostava mais dele...e sabia bem que não. Não como essas relações mal-resolvidas que tendem a nos fazer enganar razões com reais reações. Ela sabia-se livre daquilo que a princípio a libertara de um mundo ilusório mas começava levá-la pra um outro obscuro e desesperadamente doloroso. Gostava de olhar pras fotos enquanto ria suave o caminhar das suas pernas em tudo que construíra, destruíra, pintara. Não doía, não mais rasgava e fazia diferença. Não mais trazia fervores e esperas ansiosas. Já não existia e ele sabia bem disso.
Tinha, não uma caixa com pertences da antigüidade, mas uma gaveta remexida e revirada que de tudo ficara um pouco. Aí, então, as vezes a abria sem querer, erroneamente, atrás de um sapato e se deparava com ela ali dentro. Eram inevitáveis os minutos, horas, por vezes tardes inteiras que perdia revendo tudo que já havia sido e continuava a tornando, por mais que já estivessem extingüidos, como ele. Lia cartas, colocava cd´s, cheirava lenços, papéis, fitas. Chorava. Não que doesse, ela gostava de enfatizar. Só um pouco nostálgica, dramatica não. Era, de certa forma, prazeroso.
E então achava números, eram talvez telefones, mas ela nunca ligava. Envelopes infindáveis endereçados a ela, com destinatários devidamente esclarecidos e num tempo remoto, respondidos. E viam olhinhos negros, brilhantes sorrirem. Eram inexistentes, já. Mas continuavam a rir fixamente, como se quando a gaveta fosse fechada, os olhos dormissem até a próxima distração em abrí-los. Não a incomodavam, não, já não eram reais. Sim, traziam cheiros. Traziam gostos. Músicas e sabores. Os arrepios tremiam o corpo e as mãos não guardavam mais nada. Agarravam desesperadas as cartas e fotos contra o peito de onde, certa vez, ele existira. Hoje...hoje não mais. Era a dor dos sonos que não teve, não dores saudosas. Era choro, não de mulher, mas de criança quando tem sono e não dorme. De passarinho que não soube o que é céu. De dedos que não souberam entrelaçar vidas.
Talvez ainda existisse, então vai, certo tipo de saudades. Dores, não, estava certa disso. Mesmo quando o telefone tocava e no sobressalto via aqueles olhinhos sorrirem de novo, não era dor. Ouvir conversas distantes trazia a gargalhada dele, mas não era dor. Sentia vontade de pipoca doce na Paulista, não não, não era dor, ela nem sequer sentia.
Empurrava aflita a gaveta, o tormento, fechava o armário, apagava a luz, trancava o quarto e se escondia no mundo pra nunca mais se achar tão dentro dela, pra não se achar tão existente, confundindo-se com existências massacradas que jamais definhariam como de fato esperava cada vez que abria a gaveta.

postado por: FEFA ALMEIDA SILVA 6:19 PM


Comments: Quarta-feira, Junho 04, 2003

...e assim, hoje, resolveu terminar.


INFÂNCIA
Não que soubesse exatamente onde ia, mas gostava dos passos firmes como se tivesse hora marcada.
Por vezes levava a bolsinha cheia de coisas pra fingir que muito teria a fazer. Por outras a levava vazia para mostrar que muito teria a trazer. A verdade é que se deitava na grama do parque e ficava olhando o céu. As vezes contava estrelas de dia, e sorria pro sol durante a lua cheia. Ouvia o ritmo das formigas tão doutrinadas, tão comedidas e até sentia certa inveja dessa coisa de fazer. Que fazia, ela, se não olhar? Arriscava, as vezes, dizer que pensava. Mas isso era pros mais velhos, meninas como ela deveriam ir brincar no jardim.
Sempre parava, como peixe quando dorme, de olhos abertos sem ver, mas olhando, e lembrava do cheiro que sentia quando a mãe gritava que o almoço estava na mesa. Lembrava-se sempre da mesa cheia, e da mãe vindo com as polentas fritas. Ainda, hoje, a mãe a gritara e havia fritado polentas, mas ela jamais sentira aquele cheiro de novo.
Era gostoso se destrair enrolando os dedos nas fitas coloridas do vestido e sentir elas deslizarem enquanto ia esticando as mãos...as vezes pensava alcançar o céu e sempre nessas horas prometia que um dia subiria o quão alto fosse necessário até tingir as pontas dos dedos daquele azul tão celeste que vergonhosamente teu tecido tentara imitar. Sabia que as cores eram únicamente individuais por mais que os jardins parecessem abarrotados de flores idênticas formando tapetes de um mesmo tom. Ela não gostava da idéia de exclusão. Aí então se lembrava da posição milimetricamente diferente com que os raios dos sol, as forças dos ventos, dos sons, da posição dos seus olhos...batiam no tapete....que tapete? Eram absurdamente flores...unicamente flores...umas rosas, outras rosadas, alguma ainda roseadas...e tão únicas. Um fio frio e ríspido lhe subia trazendo um egoísmo exacerbado desses que fazem coelhos dançarem frente aos leões. Era tudo muito dela.
E então os gritos da mãe ecoavam novamente. Mais um dia de polenta frita sem gosto nem cheiro de flor. A menina se levantava puxando uma a uma as folhas entrelaçadas nos laços do falso azul e corria o mais rápido que seus pés pudessem alternar-se pra levar consigo aquele poder e as estrelas que colheu enquanto sonhava.

postado por: FEFA ALMEIDA SILVA 9:18 PM


Comments: Segunda-feira, Junho 02, 2003

Tentei...juro que tentei. Mas não saíram pouco mais que 15 linhas cuspidas..não tive coragem de jogá-las aqui como coisa infindada. Melhor que eu guarde e que só saia quando quiser...Por vezes escrever não depende da gente, né?
Ótima semana pra gente...beijos

postado por: FEFA ALMEIDA SILVA 8:54 PM


Comments: BANDERA
(Zeca Baleiro)
"Eu não quero ver você cuspindo ódio
Eu não quero ver você fumando ópio, pra sarar a dor
Eu não quero ver você chorar veneno
Não quero beber do teu café pequeno
Eu não quero isso seja lá o que isso for
Eu não quero aquele
Eu não quero aquilo
Peixe na boca do crocodilo
Braço da Vênus de Milo ascenando ciau
Não quero medir a altura do tombo
Nem passar agosto esperando setembro, se bem me lembro
O melhor futuro este, hoje, escuro
O maior desejo da boca é o beijo
Eu não quero ter o tejo me escorrendo das mãos
Quero a Guanabara, quero o rio Nilo
Quero tudo ter
estrela, flor, estilo
Tua língua em meu mamilo, água e sal
Nada tenho vez em quando tudo
Tudo quero mais ou menos quanto
Vida, vida, noves fora, zero
Quero viver quero ouvir, quero ver"

postado por: FEFA ALMEIDA SILVA 8:42 PM


Comments: Domingo, Junho 01, 2003

Desculpem-me a insistência...não pude deixar de colocar um trecho da Clarice que me remeteu a um livro da mesma. Antes vai o trecho que encontrei, em seguida o que eu lembrei:

"O pior de mentir é que cria falsa verdade. (Não, não é tão óbvio como parece, não é truísmo; sei que estou dizendo uma coisa e que apenas não sei dizê-la do modo certo, aliás, o que me irrita é que tudo tem de ser "do modo certo", imposição muito limitadora.) O que é mesmo que eu estava tentando pensar? Talvez isso: se a mentira fosse apenas a negação da verdade, então este seria um dos modos (negativos) de dizer a verdade. Mas a mentira pior é a mentira "criadora". (Não há dúvida: pensar me irrita, pois antes de começar a pensar eu sabia muito bem o que eu sabia.)"
"Sim, eu sei, continuava Joana. A distância que separa os sentimentos das palavras. Já pensei nisso. E o mais curioso é que no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir não é, seguramente, o que eu sinto mas o que eu digo."

postado por: FEFA ALMEIDA SILVA 2:21 AM


Comments: Overdose de Clarice...inevitavelmente apaixonante.....

"Chegando em casa não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter (...) Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante."
"Se uma pessoa perguntar durante meia hora a palavra 'eu', essa pessoa se esquece quem é. Outras podem enlouquecer. É mais seguro não fazer jamais perguntas - porque nunca se atinge o âmago de uma resposta. E porque a resposta traz em si outra pergunta."
"...A vida é curta demais para eu ler todo o grosso dicionário a fim de por acaso descobrir a palavra salvadora."
"Tenho medo de estar viva. "
"Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas."
"Não sou pretensiosa. Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando..."
"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: pelo menos entender que não entendo."
"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada."

postado por: FEFA ALMEIDA SILVA 2:08 AM


Comments: "Eu sou uma pergunta." - Clarice Lispector

postado por: FEFA ALMEIDA SILVA 1:50 AM



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