HORAS DE CLARICE
"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)


Segunda-feira, Agosto 25, 2008  


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NAZARENAS E ABANDONOS

Quando Nazarena mexia o copo de café mirando os olhos na marca que o sol fazia no assoalho, sabia eu que lá nos vinha tormenta. Então se levantava, enquanto engolia pacientemente cada gole sonoro, e vinha dar-me um beijo na cabeça. Meus olhos de menino tinham medo de encará-la nesses dias. Ficava a lamber os dedos sujos de manteiga, borrando de óleo a caneca azul.
Nazarena se matou no verão de minha primeira série do ensino fundamental.
Mamãe me buscou na escola com uma blusa negra num sol que, se me lembro ainda hoje, doem as retinas. Ela tinha as mãos geladas e durante o caminho foi me pedindo para falar o que eu achava de Nazarena, se ela era engraçada, se brincava comigo, se eu gostava de suas broas e pães. Apesar de ter na memória uma infância de silêncios e olhares, naquela tarde cheguei a acostumar-me com minha voz.
Na esquina de nossa rua mamãe se ajoelhou na minha frente, tinha os olhos marejados e os lábios ressequidos. Eu tive medo, me ajoelhei também, imitando seu gesto por não saber como proceder.

- Nazarena não está mais lá em casa, filho. Ela precisou ir embora, não podia mais ficar. Quando você crescer mais um pouquinho, vai entender melhor essa coisa dos adultos precisarem partir.

Foram longos e difíceis os passos até nosso portão. Tudo me parecia mais lento e pesado. Eu não senti vontade de chorar e fui inventando uma raiva de Nazarena. Seu descaso com nossos segredos, seu desinteresse em terminar as regras dos jogos que inventávamos, aquela displicência toda em partir sem antes, enfim, deixar-me ajudá-la com os bolinhos de chuva.
Nazarena tinha cheiro de terra. As mãos eram um tantinho ásperas, boas de deixar deslizar nas costas da gente. E fazia um cafuné gostoso depois do lanche da tarde, no sofá. Nazarena tinha, também, os pés grandes e me deixava brincar com seus chinelos vermelhos.

Quando completei 13 anos, meu pai autorizou uma festinha para os amigos lá em casa. Me lembro da lista com os 37 nomes. Mamãe pediu que eu ajudasse nas compras e passamos toda tarde daquela sexta percorrendo supermercados e lojas, para providenciar tudo para o dia seguinte. Enquanto eu segurava as sacolas, mamãe correu até a prateleira de descartáveis porque estava esquecendo copinhos e talheres.
Do lado de fora, do outro lado da rua, passou Nazarena.
Senti meus joelhos perderem a força, meus dedos vacilarem nas alças de plástico. Meus olhos estancaram em seu movimento lento e contínuo e não consegui chamar minha mãe. Quando ela me encontrou branco e trêmulo quis saber o que acontecera. Disse eu que Nazarena havia passado por ali.
Riu-se. Triste e aliviada. Contou-me que Nazarena havia se suicidado naquela época. Que nunca me contara essa história por medo de me chocar.
As sacolas arrebentaram no chão, abracei minha mãe em soluços que me doíam as costelas. Pesou-me toda a ausência de Nazarena, transformou-se em desilusão toda a raiva que sedimentou-se desde que Nazarena tinha ido embora.

Mês passado o pai de minha esposa matou-se na banheira de seu apartamento, aos 93 anos. Suspeitávamos de que ele estivesse ficando esclerosado, mas não imaginávamos tal desfecho. Admirou-me o fato de eu não querer chorar. Abracei minha mulher durante todo o velório e o enterro. Mas sentia constantemente a vontade de sorrir. Recebi dela olhos sinceros de gratidão por minha calma e atenção.
Ontem, quando cheguei de mais uma quarta-feira de trabalho, li no móvel da sala o bilhete de despedida de minha esposa. Não teve coragem de me encarar pra dizer que partiria e preferiu sair quando eu não estivesse, deixando um bilhete.

Deve ser por causa de Nazarena que as histórias de suicídio me parecem mais doces.
Quando senti que a morte me doía mais do que o abandono, entendi porque é que as pessoas precisam partir.

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Sexta-feira, Agosto 15, 2008  


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Enquanto tomava meu café expresso e grifava Harold Bloom - dizendo que Dom Quixote e Sancho Pança só passam por mudanças durante a narrativa porque se ouvem reciprocamente, e não porque se enclausuram dentro das próprias idéias e solidões - um par de all star vermelho se aproximou da minha mesa:

- Oi, você é a Karina*?

Meus olhos caminharam sobre minha xícara, a calça bege, camiseta com listras horizontais, barba mal feita e uns olhos tão doces por trás dos óculos de aro preto.

- Karina? Não, não...

Quando repeti o nome que me perguntara, ele manteve as mãos que seguravam livros mais na altura do rosto, como se quisesse enconder-se disfarçadamente atrás deles. E antes que eu chegasse a dizer o terceiro "não" acompanhado de "meu nome é Fernanda", ele agradeceu, pediu desculpas e saiu encabulado.
Eu, que me intimido tanto quanto a pessoa que se envergonhou, abaixei a cabeça sobre o texto novamente, sem sanar minha curiosidade em saber se ele tinha saído da cafeteria ou sentado em outra mesa. Larguei os olhos nas palavras, que me pareceram todas soltas, e me pus a pensar na tal Karina, no tal encontro, no acontecido desencontro e nessas artes da vida, como bem já disse tal poetinha.
Mas logo voltei-me pras digressões à respeito das andanças do Cavaleiro da Triste Figura.
A porta de vidro se abriu e ele entrou acompanhado de um casal. Sentaram-se a duas mesas de distância. Ele de costas pra mim. O casal de frente.
Perguntaram-lhe onde ele trabalhava. A moça [Karina? pensei] era linda com seus cabelos cacheados colocados delicadamente para trás das orelhas. Vestia uma blusa clara que deixava o colo dos seios nús de maneira tão pura. Ela olhava sorrindo muito, com tanta entrega de um encantamento óbvio, enquanto ele respondia:

- Trabalho em casa.

O casal se entreolhou rindo, uma gargalhada leve e satisfeita.

- A gente queria saber, na verdade, o que exatamente você faz.

E agora quem falava era o cara que parecia acompanhar a garota, não como namorado. Não tinham mais de 35 anos cada um ali. E esse outro moço, de tênis verde, calça jeans clara e cabelo desgrenhado, tinha um sorriso de homem. Os olhos miúdos eram tão atentos e encantados quanto os dela. Os dele, de costas pra mim, eu não via. Mas ele sorria, eu soube por sua voz que explicava o que, exatamente, fazia no trabalho atual.
Falavam de revistas e publicações. Falavam de estudantes, universidades, outros estados e capitais. Eram idéias. A menina olhava para o de tênis verde enquanto ele sugeria uma idéia e então ela também dizia uma outra e eu via a nuca do de all star vermelho se movimentar afirmativamente, gesticulando as mãos.
Me pareceram tão vivos e inteiros. Tão dipostos a darem certo.
Vontade de puxar minha cadeira, pedir mais um café e fazer parte desse futuro promissor.

Guardei meu texto, conferi o horário que marcava o fim do meu intervalo pro almoço e passei pela mesa dos três sem olhá-los.

*Karina: que escrevo assim, com K, por motivos pessoais de carinhos e vivências.
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Segunda-feira, Agosto 11, 2008  


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Eu digo meia palavra. Gesticulo mudamente. Encho o copo e sei que tenho os olhos dispersos. Será o Paraíso desprovido de som? Que só atravessam os grandes portões aqueles cujo silêncio fez-se fé. A que eu tinha, verti junto ao último gole de cerveja. Segurei o copo embaçado na altura dos olhos deixando somente o direito aberto e vi ali, num amarelo opaco, o elixir das crenças reencontradas. E bebi, lentamente, antes de decidir o tamanho do rasgo que fariam os entremeios da vida. Que tudo quanto não tem nome existe mais por não fazer-se em rédeas. E vou rezando, cautelosamente, pelo rumo do sangue que se me corre parece já morto de uma espera prometida. Sem dar-me conta das aporrinhações que fazer-se em peso traz, vou trocando aleatoriamente, grão por grão, as ordens de raciocínios enfermos.

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Quarta-feira, Julho 30, 2008  


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OLHOS

Num tempo de coitos interrompidos e hímens invioláveis a vergonha era marca de bois.

A primeira vez que Lúcia tirou a roupa sem cobrir os seios com os braços foi para ele. Já sem as sandálias, tirou primeiro as calças. Calcinha. Colocou as mãos nas costas desabotoando o sutiã. Puxou as alças pelas mangas da blusa. Não se virou de costas. Olhava nos olhos dele. Ele deitado. Completamente vestido. Lúcia mordia os lábios, tremendo. Tinha medo nos olhos dela. Ele bêbado. Olhava como quem espera a chuva que aponta a metros de distância. Ela segurou a barra da blusa e apoiou os cotovelos na altura da barriga fazendo, num malabarismo sem ensaios, a blusa tombar no chão. Em pé e nua. Lúcia mastigava entre a saliva grossa o resto de vergonha que nutriu até então.

Perdia-se o lugar na casa e a estrada era destino indiscutível.

Quando ele marcou de pegá-la na estação Sumaré, Lúcia saiu de casa com tanta antecedência que pode terminar a leitura de seu livro, encostada nas catracas. Levas e levas de pessoas chegando e saindo. Grupos coloridos e cansados. Lúcia folheava calmamente a brochura entre as palmas, vertendo, vez em quando, os olhos pra direção da saída – por onde ele entraria. Mudou de posição três ou quatro vezes nas quase duas horas em que se manteve ali de pé. Na semana seguinte, em casa, leria tudo de novo com as atenções devidas nas páginas já viradas por ela na estação. O moço que varria o chão pediu licença para limpar aquele espaço onde Lúcia estava. Uma vez mais os olhos na porta de saída. E quando ele chegasse, olhos dele de procura, ela estaria com o livro apertado contra o peito, rangendo os dentes, ansiosa.

O resto dos dias numa lamúria da pele rompida.

Meia marguerita, meia calabresa. Cerveja de garrafa a preço módico. Ele terminava de apertar o toco de um cigarro no cinzeiro enquanto Lúcia servia-os dos pedaços escolhidos. Num gesto automático ele enfiou a mão no prato de Lúcia, roubando sua azeitona preta. Ela parou o movimento de buscar o copo, no meio. Olhou estupefata. Ele mastigou, lentamente, arranhando a pele da azeitona com os dentes da frente. Lúcia deixou a mão pousar sobre o vidro e trouxe o líquido até a boca, sem titubear o olhar. Ele cuspiu na mão o caroço, colocou ao lato da bituca apagada, deu um gole em sua cerveja. Quando apoiou o copo sobre a mesa ele levou os olhos para os de Lúcia – que permaneciam duros e assustados. Ele, então, desceria os dedos até alcançar a saia de Lúcia e subiria lentamente, fazendo-a descruzar as pernas. No resto de pizza e de noite os olhos de Lúcia lamberam-lhe os cabelos, os braços – os dedos.

Abrigos com pouca luz e muitos poros. Às vezes nem notas e vinténs, mas comida e pouso.

Quando ele dormia, deitava a cabeça sobre o braço esquerdo. Com o direito, encostava em Lúcia. Era a disposição estabelecida desde a primeira vez que Lúcia ficara na cama dele. Nas noites de garrafas de vinho esvaziadas ao som dos vinis que ele trocava, era comum que dormissem atravessados um no outro. Pernas sobre as costas, cabeça dele nas nádegas de Lúcia. E nos dias seguintes das tais noites de atravessar corpos, o prazer era conferido no espelho do banheiro. Lúcia tinha olhos graciosamente inchados. Não de muito sono, que era comum que ele a acordasse logo pelas oitavas horas da manhã. Lúcia de olhos cheios. Iam ainda, e já, nus para o chuveiro. Lúcia, enquanto amarrava os cabelos, fingia não reparar nos próprios olhos cheio de gozo.

Os olhos todos a lembrar-lhes a vergonha. E a vergonha: uma espécie de morte.
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Domingo, Julho 06, 2008  


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VIELAS TEMPORAIS

[quando Clementine conta para ele que não gostava de sua boneca porque ela era feia. É essa a cena. Eles estão debaixo dos lençóis e ela chora atordoada: “seja bonita!”]

três anos e sete meses antes

Clara enroscou as pernas se emaranhando no corpo sonado de Vitor. Ele colocou a mão sobre seus cabelos, mexendo os dedos lentamente enquanto ela sorria. Não passava das duas da madrugada. Na sala o som ainda ligado. Uma garrafa e meia de vinho tinto foi o que consumiram entre danças, sexos e cigarros.

- Eu nunca fui uma das meninas mais bonitas da sala. Eu não era conhecida e, muito provavelmente, a maioria das crianças que eram da minha sala, hoje em dia não se lembram de mim. Eu até gostava de passar despercebida, de alguma maneira. Lembro de uma menina, Tatiana, que era a menina mais bonita da sala. E todos os meninos queriam ficar perto dela, e todas as meninas queriam ser amigas dela. Engraçado, né? Eu não era amiga dela, não. Eu andava com a Rafaela. A gente sentava mais no canto da sala.

Vitor continua a afagar os cabelos de Clara. Ininterruptamente. Diz, com a voz baixa, que ela devia ser a menininha mais linda da classe. Ele tem certeza. Ela prossegue a fala, sem desviar a narrativa.

- Acho que por isso eu era muito vaidosa. Eu sabia que não era bonita. Tirava notas boas, mas mesmo assim as professoras não sabiam meu nome. Eu lembro quando tinha aula com a tia Bete e eu gostava muito dela. Fui aluna dela três anos seguidos. Aí um dia ela foi fazer a chamada e falou “Ué, porque tem esse nome aqui na chamada? Tem alguma Clara aqui?”. Ela não sabia meu nome. Eu tive que levantar a mão pra dizer “sou eu, tia Bete”. E lembro de ter ficado tão triste, tão triste.

- Clarinha., você é linda. Linda! Você é a mulher mais fantástica e linda que eu já conheci.

Ele se desenroscou dela, colocando seus olhos na altura dos de Clara. Vitor beijando seus olhos molhados. Ela fincava as unhas nas costas e braços de Vitor. Um desespero amarelecido, mas ainda tão vivo. Cheiro forte de tempo que passou sem ir embora. Transaram uma vez mais. Clara gritou e chorou até sentir-se cansada. Vitor repetiu a noite toda enquanto a olhava: linda, linda, linda.
Na manhã seguinte Clara tinha o rosto adoravelmente inchado e se encarando no espelho do banheiro deixou os lábios se soltarem num sorriso leve. Fez café enquanto Vitor ainda dormia.

dois anos e dez meses antes

Clara se enroscou no pescoço de Vitor, beijou-lhe a cabeça, testa, olhos. Sorria satisfeita, apaixonada.

- Eu te amo!

Ele apertou-a pela cintura, puxando seus cabelos, fazendo a cabeça de Clara se inclinar para trás. Foi beijando seu pescoço e descendo pelos seios, cheirando-lhe a barriga, abraçando-lhe as pernas.

- Você vai ficar comigo pra sempre? - Vitor quis saber.

Clara baixou os olhos, séria.

- Você vai embora antes.

um ano e cinco meses antes

A mãe casara-se muito jovem, engravidara dele e o pai tinha ido morar com outra mulher quando ele ainda era pequeno.

- E eu chegava em casa, da escola, a porta do quarto dela tava sempre fechada. Eu gritava já do portão, porque sabia que ela nunca ficava sozinha. E um dia eu quis ver. Eu não queria mais fingir que não sabia. Eu quis ver. Entrei em casa sem fazer barulho. Eu lembro de tirar o tênis antes de entrar, porque não queria que ela me ouvisse. E deixei a mochila numa poltrona que tinha logo na entrada da sala. Fiquei ouvindo os gemidos dela. E tinha algum outro gemido também, de homem. E eu não consegui passar da sala. Fiquei sentado no tapete. Sentei e fechei os olhos, com as mãos apertando o ouvido, mas continuava ouvindo, eu ouvia e não queria mais ouvir e queria que ela me visse ali, queria que ela soubesse que eu tava ali, que ela parasse, que ela parasse, que ela parasse.

Vitor dormiu no colo de Clara. Enquanto ainda sussurrava o resto da história e deixava escorrer lágrima e saliva, misturadas. Um desespero que ela não sabia como cuidar. Deixou que o menino se agarrasse em suas pernas e ouviu, tudo em silêncio.

três meses antes

- Eu preciso ligar pra minha mãe. É aniversário dela hoje.

A água fervia no bule enquanto Clara dava descarga. Veio com a camiseta de Vitor vestida pelo avesso, os cabelos num coque que a deixava mais séria e mais velha. Ela se aproximou segurando o telefone e dizendo que ele ligasse logo, então. Que não seria tão difícil. Mas era.

- Eu vou ficar com sua camiseta, ta?
- Ta ué, por quê? Você sempre fica. Por que ta me perguntando?
- Ah, não sei. Te incomoda que eu use?

Vitor saiu da cozinha com o telefone na mão, já discando.
Clara passou por ele na sala e foi para o quarto.

- Por que você tirou a camiseta, Clara?
- Conseguiu falar com sua mãe?
- Consegui. Ela te mandou um beijo. E eu falei que você também tinha mandado um.
- A gente podia sair pra comer alguma coisa hoje a noite.

Naquele dia Clara estava triste. Esforçou-se. Colocou um vestido colorido, sandálias baixas e soltou os cabelos. Pintou levemente os olhos e desceu para portaria de seu prédio, esperando Vitor passar. Esperou 20 minutos além do combinado.

- Ué, aconteceu alguma coisa?
- Me atrasei
- Isso eu sei. Fiquei aqui quase meia hora te esperando.
- Desceu antes porque quis, eu falei que te ligava quando estivesse aqui embaixo.

Fez-se um silêncio pesado. No sinal vermelho Vitor olhou para Clara, que olhava para frente. Clara virou-se para Vitor:

- O que foi?
- Nada. To te olhando, toda arrumada.
- Ta ruim?
- Não. Ta bonita.
- Você não gostou, né? Sei lá, fiquei com vontade de me arrumar.
- Gostei sim.
- Acho que eu não tava me sentindo muito bem hoje, tava me sentindo desinteressante, aí eu quis me arrumar mais.

Vitor estava olhando pela janela. Uma mulher atravessava o sinal a pé. Clara sabia que ele a estava olhando da maneira como ela quisera que ele tivesse a olhado quando entrou no carro. Baixou os olhos, querendo chorar.

- Você não acredita em mim, né Vitor?
- Do que você ta falando, Clara? - e na voz um tom de impaciência.
- Você acha que todas as mulheres são iguais a sua mãe e não consegue acreditar em nenhuma delas. Por mais que eu te entregue todos os meus segredos e confie em você sem poréns, você sempre pensa que vai chegar em casa e me ouvir com outra pessoa, não é?

O rosto de Vitor foi se enrugando. Ele mirou os olhos, incrédulo de que ela lhe estivesse dizendo aquilo. Continuou dirigindo, sem falar palavra.

- Onde a gente ta indo?
- Pra minha casa.
- Pra sua casa? A gente não ia sair, Vitor? Eu não me arrumei à toa. Você acha que coloquei esse vestido e passei lápis no olho pra gente ficar tomando vinho barato na sua casa?
- Não, eu não acho. Acho que você se arrumou assim porque nunca deixou de se sentir aquela menina da quarta série.

hoje

Clara levantou às 11h37 do domingo ensolarado. Sozinha.
Vitor levantou às 9h23 do mesmo domingo. Comprou pão e leite. Leu o jornal. Assistiu pedaços de programas na TV e ligou para o amigo. Mais para o fim da tarde sairiam para um chope.
Clara tomou banho com medo de se olhar no espelho. Não se decidia por sentir-se livre ou eternamente fadada ao que era. Antes de colocar as roupas, pintou os olhos. Deixou os cabelos escorrerem água nas suas costas nuas.

dois meses adiante

Clara choraria enquanto Vitor lhe beijaria as mãos, braços e olhos. Prometeriam mutuamente ficar juntospra sempre. Clara contaria do medo que deu não mais tê-lo. Vitor confessaria nunca tê-la visto tão bonita. No dia seguinte almoçariam macarronada na casa da mãe dele. Ela não pintaria os olhos. Ele a levaria para jantar fora.

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Quinta-feira, Junho 19, 2008  


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Lúcia disse que não desejaria filhos se não soubesse em si o dom da maternidade. Foi o que ela disse antes de parar os passos diante de uma vitrine colorida. Renato prosseguiu, acelerando a caminhada. Agora pensando, está quase certo de que correu quando se distanciou de Lúcia. Sim, ele correu. Tem certeza. E correu forçando os músculos da perna até a exaustão. Ininterruptamente Av. Brigadeiro Luiz Antônio abaixo, chegando ao Parque Ibirapuera. Renato nunca mais viu Lúcia. E viu as fontes que excepcionalmente estavam ligadas naquele fim de tarde de uma terça-feira fria. Termômetros marcam o dia mais frio do ano na cidade de São Paulo. Os fortes jatos d’água dançavam – talvez comemorando o recorde nos graus centígrados. Mantendo fixos os olhos na lagoa espelhada, Renato enfiou a mão direita no bolso e desligou o celular sem tirá-lo da calça. Renato conhecera Lúcia numa festa de amigos em comum: Lúcia segurava um copo de cerveja enquanto ria e olhava para Renato que segurava um copo de cerveja enquanto ria e olhava para Lúcia que segurava um copo de cerveja. Enquanto seguia a passos largos, ainda que lentos, Renato sentia tremer os joelhos. Há quanto tempo não fazia algum esporte? A blusa de lã e os sapatos não eram exatamente as vestimentas mais apropriadas para se exercitar. Renato continuou entrando no parque. Ele pensou que dali até o metrô Conceição, perto de sua casa, seria uma longa caminhada. Naquele dia jogou a cópia das chaves de Lúcia num bueiro da Avenida Rubem Berta. E quando Lúcia aceitou seu convite para irem pro apartamento dele, ela elogiou a organização desse um cara que morava sozinho. E Renato acordou dedicando as duas primeiras horas de seu despertar, no dia seguinte, a contemplar o corpo sonado e nu de Lúcia, tão linda. Ela nunca saberia. As placas pregadas no chão iam informando a quilometragem. Maratonistas são pessoas engraçadas, foi o que Renato pensou enquanto cruzava um dos imensos gramados. Como é que as placas de proibido pisar na grama são colocadas? Lembrou dessa frase num email que não tinha graça nenhuma. As pessoas gastam tempo com um bocado de besteiras. Depois de pensar nisso, aí sim, sorriu. O sorriso de Lúcia era mesmo encantador, como dissera sua mãe quando conheceu a nora. Tinham viajado para o interior de São Paulo. Renato gostava da idéia de dar um pedaço de sua infância para ela. Lúcia nasceu em São Paulo. Dez milhões e meio de habitantes. Era o tipo de número que fugia da abrangência de idéias de Ricardo. Feito quando pensava nos valores dos prêmios acumulados da Mega Sena. Um real em moeda e pagou pela garrafinha de água, sentando perto da área em que os skatistas e patinadores corriam. Quis acender um cigarro, mas já não fumava há sete meses. O cinzeiro sempre ficava cheio das bitucas que ele acumulava enquanto ouvia música e abria latinhas de cerveja nos finais de semana. Lúcia entrava, deixava a bolsa e os sapatos perto do móvel da TV e limpava o cinzeiro. Nunca haviam reparado na repetição dessa seqüência de movimentos. Impulsos contínuos e cada vez mais velozes até que pudessem saltar sobre a fileira de cones. Renato ficou imaginando o quanto aquele moleque de patins verdes devia ter treinado para conseguir fazer isso. Voltou a lembrar de seus joelhos fracos e destreinados. Voltou a colocar as mãos no bolso pensando-não-pensando em ver as horas em seu celular. Desligado. Renato seria pai de três filhos, todos homens. A mulher, Fabiana, nunca entenderia os cinzeros repletos de bitucas dos cigarros que ele nunca mais fumara. Quando era adolescente tinha escrito o seu nome e o de Vanessa na árvore que ficava na esquina das ruas onde moravam. Teve sua inicial tatuada nas costas de Raquel. Trocou a senha do email quando terminou com Simone. Lúcia é a única mulher que Renato amou na vida. Conceição é o ônibus que passa depressa e Renato não vê. Porque ia saindo pelo portão de ferro do parque e observou o tamanho daquele prédio do Detran. Queriam lhe cobrar quinhentos reais para ter sua carteira de motorista aprovada. Tomou um porre quando conseguiu a habilitação por mérito próprio. Lúcia nunca aprendeu a dirigir, embora Renato tenha prometido inúmeras vezes que a ensinaria. Por fim, ele acabava lhe dizendo que sábados e domingos eram melhores aproveitados a pé. Hoje é terça-feira. O dia mais frio desse ano que já vai pelos meios. Fabiana tem os cabelos curtos e as ancas largas, mas ainda não se mudou para São Paulo. Renato vai caminhando em direção ao seu bairro. Sabe que terá longo percurso, mas não se preocupa em chegar logo. Com o que é que se preocupava? Coçou a cabeça. Precisava cortar os cabelos. Três dedos, Lúcia disse com o rosto sério, talvez magoado. Renato não tinha reparado. Não vinha reparando, há um bom tempo, o quanto a cidade crescia rápido. Decidiu que deveria andar mais a pé e talvez vender o carro, um Celta vinho. Tinto, ela preferia e ele gostava mais de cerveja. Deu sinal e pegou o primeiro ônibus que passou. Desceu sete pontos depois, querendo andar mais um pouco. E agora pensando, avenida Brigadeiro Luiz Antônio abaixo: ele sabe que correu, sim. Soltou das mãos dela. Soltou e correu. Ouviu seu nome num grito que foi entrecortado pelo barulho do trânsito. Não quis olhar pra traz, essa foi a grande verdade conclusiva. Naquele dia Renato nunca mais voltaria pra casa. Passando em frente ao metrô Conceição, olhou pra cima e viu a janela que esquecera aberta. Abortou seu primeiro filho, Fabiana lhe contaria no terceiro mês de gestação quando já estavam casados. Tinha só 16 anos, era o que deveria fazer, ela lhe diria. E Renato soltaria sua mão, correndo, avenida abaixo. Para o parque, para o ônibus, para seu apartamento de janelas abertas. As chaves que jogara fora, no bueiro, eram as suas. Entre os dedos mexia no molho que abria e fechava as portas de Lúcia. Mexia e fechava as portas de Lúcia. Fechava as portas de Lúcia. Fechava a porta do ônibus com destino à São Paulo. Poltrona 27, Fabiana pediu. Eram dez horas da noite de uma terça-feira, cinco anos ainda por vir.

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Terça-feira, Junho 03, 2008  


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Parece dança, mas são cálculos.
Não que as coisas sejam ou cadências ou números. É só que misturar tais definições, lidar com elas de maneira displicente, cria solo rico pros descaminhos.
Tocava samba. Muito samba. E tinha cerveja e cachaça e fazia um pouco de frio. Mas quem é que sentia? Ninguém sentia, não. Porque quem se agitava e dava as mãos, enroscava passos e desenlaçava inibições: não sentiu frio. Era um calor dos que vêm de dentro. Olhos marejados, boca molhada e a sensação flutuante.
Tão raros os encontros certeiros. Ainda que houvesse por ali um tanto de lágrimas e emoções. Os abraços inebriados confundiam as certezas. Pois que não era tudo cálculo?
Pois é.
Pois era.
Há sempre a opção de se negar à massa. De sambar sozinho. Se embebedar ausente de olhares e intenções. É sempre possível se esquivar dos cálculos. Ou mesmo calcular uma maneira que faça a dança nascer – e então não se calcula mais. Mas olhando, sacudindo braços, cabelos, sorrisos derramados aleatoriamente e sem direção, é um modo de participação. Porque aquele que não escolhe ir embora, inevitavelmente escolheu ficar. E ficando: mistura-se.
São espelhos de respostas. Sem cuidado, ausente de cautelas, as perguntas já dispersas são confusamente respondidas. Não há ponto em nó que permita se enveredar pelos desenrolares das direções.
A ironia de um cálculo que na batida de um surdo transforma-se em caos.

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Segunda-feira, Maio 05, 2008  


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[so.nho (lat somniu) sm 1 Representação em nossa mente de alguma coisa ou fato, enquanto dormimos. 2 Coisa imaginada, mas sem existência real no mundo dos sentidos.]

Dera para ter sonhos pestilentos.
Não era dada a sonhos, nem nunca lhe ocorria gastar os primeiros minutos despertados para pensar naqueles flashes de imagens e histórias que sobreviviam às pálpebras abertas. No entanto, coisa de duas semanas, dera para se levantar da cama com um silêncio pesado, recheado de uma reflexão que M não sabia conduzir. Porque não tendo o hábito, sentia-se levemente ridícula raciocinando e concatenando possibilidades de significados. Mas talvez o que mais preocupasse M fosse a recorrência das pestes e pragas a lhe tomar o corpo.

Começou com uma narrativa já pelo meio - ou ao menos foi a partir daí que a consciência de M passou a identificar e memorizar o sonho. O cenário era um apartamento claro e bem arrumado. Mas sem muitos móveis. M se lembrava bem do sofá marrom-claro. Feito aqueles letreiros iniciais que aparecem contextualizando informações imprescindíveis para o telespectador, M sabia que ali naquele apartamento, das cinco pessoas lá colocadas em clausura, só restara ela e T. E sabia também que eles estavam lá porque tinham no corpo uma doença raivosa sem cura. E foram, então, afastados do convívio social, sem direito a comida e bebida. E para o alívio de M, a cena em que ela e T mataram e comeram os outros três enfermos - três personagens sem identidade - era também conteúdo prévio, sem cenas que pudessem ficar lhe repetindo insistentemente na memória depois de acordada.
O sonho começa com M e T conversando na sala. Ela reclama da impossibilidade de sair, de ver os amigos e do fato de terem matado os outros três. T não fala muito. Concorda com a cabeça e aquele parece um diálogo trivial, embora M sinta uma tristeza e um medo enormes. Eles sabem que morrerão logo em breve. Se olham com esse pesar sem no entanto afirmarem em voz alta o pensamento comum. Também sabem que, tendo matado os outros três, estão sujeitos a serem mortos um pelo outro. Mas não tocam no assunto. E conversam quase tranqüilamente na sala. De um instante para outro, M vê nos olhos de T um descontrole, enxerga os indícios da peste raivosa que deixa T feito bicho, acocorado na poltrona a babar enquanto olha M. Num salto rápido T grunhe em direção a M que por reflexo corre e se tranca no banheiro. Trava a porta no último minuto antes que T pudesse tê-la alcançado. E de dentro do cubículo se treme inteira, se olha no espelho, enxerga os seus próprios olhos apavorados. Senta-se na privada tampada. M sabe que vai morrer, sabe que por mais que lute contra os ataques imprevisíveis de T, vai acabar definhando em conseqüência da doença. Sente tristeza e o medo. Uma sensação enorme de ter sido abandonada, de não poder recorrer a nenhuma ajuda.
De fora, recobrada a consciência, T bate na porta levemente e pergunta se está tudo bem com M. Lá de dentro M diz que sim, que ela estava apertada e precisava usar o banheiro, era só isso. E de fora T fala que ficou preocupado porque ela já está ali dentro faz alguns minutos. E dissimuladamente os dois conversam - ela dentro, ele fora - como se a cena do salto de T sobre M nunca tivesse ocorrido. Porque realmente gostariam de que nunca, mesmo. Mas eles sabem que houve aquilo e também sabem que vão morrer e que é inútil qualquer tentativa de prolongar a vida. No entanto, M pensa no que a incita à força e a faz insistir na sobrevivência. Recupera o fôlego e abre a porta do banheiro lentamente. E é, estranhamente, sem surpresa alguma mas com tamanho alívio que M vê na sala duas de suas amigas de infância - que T também conhece - e uma delas levou o namorado. E todos sabem da doença, todos silenciosamente conhecem o rumo daquela história. Mas conversam, riem e contam da vida. T fala pouco. Fica sentado na poltrona observando todos. M está triste, muito triste. Mas sorri agradecida pela visita, fica emocionada em vê-los. Apesar disso, olha para eles e sente aumentar a certeza de que não há nada que possa ser feito. Relembrando o sonho, M acha contraditório que os amigos cheguem para visitar sem levar comida ou água, sem ter nenhum propósito de ajuda efetiva, ou sequer sem ter medo. Simplesmente sentam na sala, conversam e decidem ir embora como se não pudessem se demorar muito lá dentro, perigosa que era a tal peste no corpo de M e T. E tudo ia bem, dissimulavam todos, rindo e conversando. Mas quando a amiga solteira se levanta num gesto de despedida, M se agarra à sua cintura e começa a chorar em desespero. A amiga passa a mão sobre seus cabelos num silêncio que faz M recobrar a postura enquanto pensa que é mesmo inútil aquele choro, que não havia nada o que pudesse ser feito para que fosse levada de lá, para que se curasse. E então cai sentada sobre o sofá vendo as costas da duas amigas e do tal namorado de uma delas irem seguindo em direção a porta.

Passados alguns dias M acordou com uma aflição no corpo. E antes de se levantar da cama M repassou o que lembrava do sonho que acabara de ter.

É um lugar enorme, uma casa onde moram muitas pessoas e que, especialmente naquela ocasião, está ainda mais cheia de visitas e amigos. Uma quantidade enorme de pessoas circulando, carregando colchões, latinhas de cerveja nas mãos, vozes, talvez uma música tocando longe. M está muito feliz. Ajeitava o lençol de seu beliche e a mala no canto do quarto onde dormiria. Não consegue lembrar com quem conversava, mas sabe ser uma pessoa próxima, provavelmente uma amiga, dessas que nos vale viajar para qualquer lugar porque a companhia nos basta. E enquanto conversam animadamente, B entra no quarto. M se lembra da sensação que teve quando o viu entrar. Olhou com encantamento e alegria quase sem acreditar que aquele cara dormiria no mesmo quarto que ela. E não sabe se comentou com a pessoa que estava junto ou se só pensou, mas M tem uma admiração enorme pelo trabalho de B. O cara escrevia livros. B entrou com uma lata de cerveja e um rádio de pilhas antigo. Deixou o rádio sobre seu beliche, no outro canto do quarto, e saiu sem olhar para elas.
A cena foi cortada - ou porque sonhos são mesmo descontínuos, ou porque a memória de M não se ateve às passagens de cena - e M agora está sentada de pernas cruzadas em sua cama quando sente coçar a parte de traz do braço esquerdo. Coçou e sentiu algum líquido entrando por baixo das unhas. Quando olhou, viu inúmeras e minúsculas bolhas de água. Puxou a calça e viu que suas canelas estavam tomadas por elas. Levantou a blusa e tinha uma porção de pequenos grupos de minúsculas bolhas avermelhadas que coçavam. M está sozinha no quarto. Então ela o sutiã e vê que os seios estão cobertos também pelas bolhas. E tremeu-se inteira. Veste de novo a camiseta, arruma a calça e os olhos se enchem de lágrimas. Se deita, quieta, nervosa e com medo. Ficou assim por alguns segundos até levar a mão ao encontro de seu rosto. Embora não tenha ali nenhum espelho para lhe confirmar, a sensação que tem nas pontas dos dedos ao tocar-se não deixam dúvidas de que o rosto também está tomado pelas minúsculas bolhas avermelhadas. M senta-se novamente, levanta uma das pernas da calça e coça a canela. Enquanto as unhas vão passando, as bolhas furam e soltam um líquido transparente. Mas tão logo as unhas se afastam, as bolhas se refazem, desta vez maiores.
Em algum momento as pessoas chegam ao quarto e todos pedem para ver o que ela tem, para dar palpites e diagnósticos. A amiga de M não sabe o que dizer e fica sentada a seu lado, em silêncio, com um olhar de pena e talvez um pouco de medo. M, diferentemente do que ocorreria se aquilo não fosse um sonho, chora copiosamente. Sem escândalos ou sons, simplesmente chora. Vão lhe escorrendo as lágrimas e M sente que o caminho delas sobre seu rosto desenha a irregularidade de sua pele coberta pelas bolhas. Sente-se sozinha e não sabe o que fazer. As pessoas que entram e saem do quarto não lhe ajudam. Dão palpites enquanto já se direcionam à saída, sem se preocupar realmente. E mais uma vez a cena pula para a seguinte. M de novo sozinha, como se tivessem passados dias e ela estivesse acamada por um tempo indeterminado. O tempo inteiro confere se sumiram as bolhas que lhe tomam os seios, insistentemente passando os dedos no rosto a fim de verificar se a pele voltara ao normal. Se concentrando em não coçar todo o corpo que ardia.
Está sentada na cama com os olhos melados das lágrimas que, escorridas, secaram. Quando então B entra no quarto e vai direto para onde está seu rádio de pilhas, lá no canto. Diferente da primeira vez em que B apareceu, desta vez M só ficou feliz em vê-lo, como se nos dias que foram se passando tivesse existido uma aproximação e cumplicidade. Ele não diz nada, mas olha para M como se afirmasse que sabe que espécie de aflição é aquela. É um jeito forte de olhá-la. Sem pena nem tristeza. Um olhar que somente constata que a vida é mesmo assim. Que não é fácil e que estamos sempre sozinhos. Um olhar que tira de M a carência mole que nos toma quando estamos doentes. Um olhar que a lembra que é preciso ser forte e inteira para seguir o resto do caminho. B entrega-lhe o rádio. B está parado em pé ao lado do beliche de M. A cabeça de M está na altura do peito de B. Então M coloca o rádio sobre o travesseiro e inclina-se para B, deitando sua cabeça no peito dele. M chora um pouquinho, mas talvez seja um choro de agradecimento. Com o braço direito B envolve M e acaricia seus cabelos por algum tempo.

M acordou com a sensação de ainda sentir o cheiro de B. Com a mão esquerda tocou o próprio rosto, com a outra levantou a camiseta.
Está ela com o corpo limpo de pestes.

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Sexta-feira, Abril 18, 2008  


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MALAS E PORTAS

A moça tinha as duas mãos ocupadas com as grandes malas azul-escuras e foi se aproximando da porta. Os passos eram rápidos e firmes. Mas eis que titubearam.
Apoiou as malas no chão, permanecendo erguidas as alças. Ela virou-se de lado, ereta, piscou suas longas pestanas rapidamente e apoiou o dedo indicador direito sobre os lábios.


- Meu querido, sabe o que acabo de pensar? Que coisa maluca que isso só tenha me ocorrido agora...

Então virou-se de frente e voltou alguns passos em direção ao sofá. Colocou as mãos sobra as costas do couro macio e afrouxou o peso de sua perna esquerda. E antes que voltasse a falar, como de costume, apertou os olhos feito fazem os míopes na intenção de melhor enxergar.


- De repente eu pensei que... Eu já sei com que cara você vai me olhar. Já sei! Mas por favor, tente ouvir sem defesas o que vou te dizer agora, está bem?

Deu mais alguns passos de modo a apoiar o culote na beirada da poltrona. Cruzou os braços e retomou.

- Pois bem. Acabo de me dar conta do quão perecível é esse meu movimento. Calma, calma...sem olhos de susto! Já te expliquei que não existe possibilidade de arrependimento, porque não se trata de escolha. Não foi questão de pesar e decidir por A ou B, por este ou aquele caminho, não. Quero que você saiba disso sem duvidar. Por Deus, que se algum dia você voltar a esse assunto tentando descobrir os meus porquês... Me promete que não vai fazer isso? Me promete que vai se lembrar que a vida é de outra natureza?

Parou mais uma vez. Puxou os cabelos fazendo um grande nó que se asemelhava aos coques das senhoras. Acomodou-se no braço do sofá dobrando a perna esquerda sobre a direita, que se mantinha fincada ao chão.

- É tão fácil que eu me esqueça dessa sensação física, sabe? Fico me perguntando por que não senti nada disso durante todo o tempo anterior. Pois bem, que eu me convença de que estava ocupada sentindo outras coisas, mas... não faz sentido! Eu dormia?! Não, não...não é pra você responder. É, eu bem sei que você não ia responder, mesmo. Mas o que estou tentando te explicar é do quão fugidia me parece essa certeza. E não se trata de averiguá-la ou esperar que decante. Você consegue entender que alguma coisa muito grande aconteceu e em decorrência dela eu talvez mude até mesmo meu jeito de andar? ... Mas que besteira. Usei um exemplo ruim, me desculpe! Porque é algo tão subjetivo que, se coloco em palavras concretas, distorco e aí se enfraquece e se anula. Me deixe pensar, meu bem...me deixe pensar!

Fez o silêncio de um minuto. Ela olhava para o lado onde ficava a janela sem, no entanto, ater-se à mesma. Rompeu numa gargalhada.


- Isso me parece tão absurdo, querido! É tão longe do meu tato que... Me parece insanidade essa nova crença!

O riso definhou transformando-se num semblante sério e intenso.

- Eu não sei do que estou falando. Como é que alguém pode decidir mudar-se, assim? Como é que uma pessoa se dispõe a dobrar cada uma de suas peças de roupa e ajeitá-las em grandes malas azul-escuras e, então, direcionar-se à porta de saída? Como pode? Como posso eu, sempre decidida a me agarrar às verdades inteiras da vida, suspender toda coerência que construí até então, em troca disso que nem sei o que é! Não, não, não... não é isso que você está pensando! Por favor, não faça isso com as coisas que estou te entregando! Pelos amor de Deus, pelo menos uma vez ouça o que te digo sem achar que já sabe do que se trata!

Ela já estava de pé, as mãos colocadas à frente do corpo com as palmas abertas viradas para o teto. Recobrou a postura. Voltou a ajeitar os cabelos. E pendeu olhos tristes e baixos. Mas logo levantou a cabeça, trazendo um sorriso leve e iluminado.

- Me desculpe, me desculpe. Que coisa mais sem cabimento eu decidir te despejar todas essas inquietações agora. Que bobagem, meu amor....que bobagem! Mas você consegue compreender minha linha de raciocínio, não é? É só porque confio demais em você e me é tão fácil te entregar meus medos e crenças, que...

Estava mais calma e lúcida. Mas teve nos olhos uma reação de surpresa.

- Meu Deus! Meu Deus...

Levantou-se. Deu meia-volta. As mãos sobre a boca entreaberta. Caminhou alguns passos em direção às malas e voltou-se como que para um último aviso, quase em sussuro.

- Eu não posso mais ficar aqui. Se fico, como me aconteceu agora, vou perdendo lentamente as razões e a lucidez. Eu acabo de gritar contigo e isso não pode ser bom. Se vou ficando e se te olho em demasia, feito agorinha mesmo, me enfraquece o ímpeto e eu, de fato, me esqueço porque fiz essas malas. Esqueço, inclusive, que são minhas as malas feitas. E então você pode me sugerir que eu fique, não é? Mas, meu bem, já não posso. Já não posso... Fui eu mesma quem tirei o pó dessas bolsas, quem desocupou minhas gavetas, quem fechou o zíper e arrastou tudo até essa porta. Porque é necessário. E talvez seja engraçado que eu te peça pra entender e me encorajar, não é? Talvez seja angraçado que eu te peça alguma coisa nesse momento, mas...

Virou-se de costas. Repisou os mesmo passos rápidos e firmes. As mãos envolveram as duas alças das malas. Antes de reerguer o corpo, pediu.

- Você tranca depois que eu sair?

Ergueu-se. Deu três passos. Parou. Curvou-se e soltou as malas uma vez mais. Virou-se com olhos chorosos e um sorriso calmo.

- Não, não se levante... É melhor que ela fique aberta. É preciso que eu não volte, mas não por saber da porta trancada. Mas simplesmente por saber-me outra.

Enfim atravessou a porta.
Sem verter lágrima. Sem voltar-se em indecisão.


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Domingo, Fevereiro 24, 2008  


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SUORES

Sem que soubesse em consciência dos pedidos insistentes de seu corpo, dançava vez em quando. Mas um dia foi que se perdeu em tanto tom e jeito. E quando sentia o fio de água escorrer pelas costas, sempre imaginava a lamber-lhe uma língua que também tivesse braços para lhe apertar os culotes.
Desde quando apontaram-lhe na camiseta os bicos dos seios, ela entendeu que deixara-se perder qualquer inocência e recato. Nunca fora de timidez prejudicial que inibisse a vida de caminhar em crescência. Mas tinha a espécie de um silêncio nos olhos. E se os braços roçassem os alheios por minutos contínuos eram os mesmos bicos que se endureciam e deixava dormente o coro dos cabelos castanhos.
E numa tarde em que o sol ameaçava fugir pra sempre, ela abriu o portão praquele sorriso fresco. E foi tanto carinho e tanta vida. Tanta vontade de nunca mais não saber-se tal qual. Mas nas idades recentes os meninos costumam afeiçoar-se de seus cheiros, envolver-se em outros tais de maneira máscula e infantil. A mistura bonita da idade que define os primeiros traços. E ele beijou-lhe vezes outras e saiu pelo mesmo portão, sofrido, querendo que não quisesse outra coisa. Mas que queria e então foi-se. Na metade da hora seguinte a campainha soou e o sorriso, então suado, confessou a querência maior da volta. E ali estava. A menina, em lisonjeio e desconcerto, beijou-lhe os cabelos negros e teve muito medo do dia em que já não seria querência primeira. E ali, no instante tal, descbriu que se findam, mesmo, os amores.
E foi-se vida e tanto tempo em recheio que ela não reparou.
Mas reparavam, era certo. E vinham interrompendo a leveza a que se propunha. Vinham com línguas e braços. E vinham com jeito e suores. Ela sempre acreditou. Pegou malícia, pegou desconfiança. Mas caía em conversas e acreditava. E quando se mostravam nús e garotos, quando os olhos perdiam o álcool e as táticas, ela sentia-se triste e sozinha. Ela prometia que pararia com tanta crença, com tanta abertura pra vida.
Mas que lhe vinham e, então quando, pegou foi mania de se olhar no espelho e dizer de si pra si que era mesmo tanta mentira e que já identificara os traços das táticas e dos trejeitos. Mas que seu corpo amolecido pelas vontades todas fazia menor o que demais surgisse. E gostava, sempre soube.
Só não entendia era o que vinha depois. Era sempre desencontro. Tão raro que lhe amanhecesse leve o dia seguinte.
E pra distorcer as idéias em gesso correu pra lugar distante. Foi-se todinha sem medo. Cheia de crença de reforçar as certezas. Com vontade de vida. Com vontade de gentes. E não houve dia sem saladas e areia. Não houve dia sem os olhos apertados de humilde agradecimento. Não houve dia sem suor em tanto sol. Não houve dia em peso.
Mas e então ela dançando tempo e meio sem saltar dia, voltou pra vida com o corpo em velocidade e calores distintos. E quando de volta foi tanta falta, e todo o silêncio, que ela tremia toda durante as noites. Acordava com os lençóis molhados em suor, embebida do prazer que se apossara das veias nos tempos corridos.
E descobriu, quase triste, quase feliz, de que era feita. Esticou-se sobre as idéias os nós dos entendimentos e ela soube-se mais humana e sincera. Soube-se mais rara e entendível. E talvez tenha doído a certeza de uma distância que não lhe permite encostar os dedos. Doeu foi ela cair, vez mais, nos calores e táticas alheias. Voltou a repetir pro espelho que tanto fazia. E tanto fez. O dia seguinte acordou pesado, como já indicara o início da noite anterior. Ela tomou banho e lavou os cabelos. Esfregou as pernas e o pescoço com força.
Faltava descobrir como não ir embora. Ela precisaria de paciência e atenção para entender como é que se chega e fica nesse lugar de sons e leveza. Que se chegasse lá de novo, prometeu-se: dançaria sem fim. Pra sempre.

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Quinta-feira, Dezembro 20, 2007  


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FIM DE FESTA

Quando nos despedimos eu supuz que chegaria aqui já querendo revê-la. Porque sábado foi tão difícil.
E não que seja ruim: mas foi difícil de um jeito muito triste.
A cena que me volta repetidamente e que me salvou nesses dias amontoados: nós duas sentadas próximas ao banheiro. Eu chorei tanto que acordei cansada no dia segiunte. Te disse uma porção de coisas que me faziam tremer. Te entreguei, sem querer, um bocadinho do meu desespero e por isso talvez eu te deva um pedido de desculpas. Não era pra ser pesada. Logo contigo: a menina dos passinhos leves.
Mas é que houve algum rompimento naquela noite. Em mim alguma coisa desistiu de se manter em pé. Eu me deixei descansar, então. Me permiti sentar no chão, esquecer a cerveja e deitar no seu colo.
Não suportei a solidão.
Porque fui tão disposta ao encontro, sabe? Esperei com paciência e atenção que sábado chegasse, que chegasse a festa, que chegasse ele, que o samba chegasse e que chegasse o que de mim vinha se ausentando.
E nada chegou.
Eu bebi e fumei com tanta ânsia que fui pra longe demais.
Via as pessoas indo e voltando. Se aproximavam e afastavam e eu simplesmente não conseguia encostá-las. Não houve contato algum, me entende? Eu falava e ouvia. E juro que me dediquei aos diálogos, aos assuntos, aos olhares. Mas me lembro deles todos desencontrados, dos vácuos nos assuntos, das mãos se perdendo no ar.
Eu não me lembro dos olhos dele nesse dia.
E foi num crescente, sabe?
Eu fui vendo os desencontros se instaurarem e me tomei por um desespero triste, triste. E foi quando me larguei. Já desencantada de que houvesse então alguma fresta de harmonia.
Mas tu tava lá, não é?
Me apresentou o banheiro secreto. Me traduziu as novas descobertas da maneira mais delicada que eu nem podia supor. Se sentou do meu ladinho enquanto eu dizia, dizia, dizia... com meu desespero quase infantil. Me levou lá pra cima quando eu já nem podia me manter acordada, querendo cama e um bom sono.
Me dói um bocado. Uma tristeza que havia se distanciado e agora volta calma, mas imponente. Mas me lembro de tua mãozinha dentro das minhas e do carinho com que eu te dizia, sincera, do que você me é.
No dia seguinte eu tinha tanta vergonha. Queria pedir desculpas. E nem bem sabia as razões.
Descobri que é essa minha mania de pensar sempre que a culpa é minha: feito os desencontros terem se instaurado porque eu não dei conta de me entregar pra ninguém.
E nem sei como é que as pessoas me viram. Não sei o que é que entenderam de toda minha movimentação confusa.
Senti vergonha por não sabê-las.
E acordei triste.
E fiquei com o nome dele me ecoando domingo todo. Vergonha das insistências que devo ter exagerado. Vergonha de não ter sabido chegar perto dele sem romper o que não posso tocar.
Triste por não tê-lo encontrado.

[quando ele avisou por telefone que estava chegando, ela correu pro banheiro. lavou o rosto, ofegante e tão feliz que teve medo: e se for ruim? e se der tudo errado? - interrompeu o susto num riso: como é que vai ser ruim? Ele ta chegando e você ta com saudades.]

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Quarta-feira, Novembro 14, 2007  


foto: Luciana Kornalewski
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SOBRE ROMÃS E PULGÕES

Já não lembro quanto tempo faz que esse bonsai ta aqui. Arriscaria chutar uns 5 meses. [bonsai são aquelas árvores em miniatura, coisa de japonês, se não me engano - Bom, as pessoas costumam saber o que é bonsai.] Me lembro bem é da minha mãe, a ajeitá-lo. Mexia nas pedrinhas e escolheu a frente da janela da sala pra colocar o vaso verde. Avisou três vezes pra cada um de nós que não podíamos inverter a posição do bonsai. Olha, to fazendo esse risco preto aqui no vaso que é pra vocês saberem que ele tem sempre que estar virado pra dentro. Se ficar rodando ele de lado, ele morre! E eu balancei a cabeça sem entender bem porque é que alguém ficaria girando um bonsai. Não, Gaida, eu vou virar. todo dia vou chegar de manhã, antes do trabalho, e virar ele do lado oposto. daqui uns dias você vai encontrar ele esturricadinho aqui no móvel. E ela ria balançando a cabeça como se dissesse que meu pai não tem, mesmo, jeito.

Ela me interrompeu algumas vezes entre leituras e filmes pra apontar onde começava a brotar um pontinho vermelho. Você sabe o que é romã, filha? Acho que sim. Você nunca viu uma romã, filha? Ah, já devo ter visto, sim mãe. Então, é um bonsai de romã, esse aqui. vão nascer romãzinhas aqui, ó. ta vendo essa florzinha? a romãzonha vai nascer aqui nesse meio, ta vendo? Eu balançava a cabeça, afirmando que sim. É preciso regar toda manhã, meio copo de água filtrada. Daquelas obrigações que causam raciocínios antes das viagens. Pede pro seu João, deixa a chave na portaria. Ah, mas dois diazinhos só não morre não. Ai, gente, não vão matar meu bonsaizinho, hein? Lógico que não, mãe. eu que vou comer essa romã que ta vingando aí, ó. Ai, filha, você viu? to tão feliz com a romãzinha, tá crescendo. As outras do lado caíam logo que surgiam. Nas pedrinhas algumas delas ficavam ainda vermelhas, mortas.

Acontece que as folhas foram ficando opacas. A romãzinha que parecia vingar dava sinais de fraqueza feito o galho não a pudesse sustentar. E esses pontinhos brancos, aqui? Eram pulgões. Pulgão onde? tem que arrancar tudo, me traz lá um palitinho que eu tiro. Não, Fulove! calma aí que não é assim, não! deixa meu bonsai quetinho. Gaída, isso é pulgão! vai matar o bonsai. é só tirar eles. Não! deixa ele quieto que eu vou ligar pro cara e perguntar o que eu tenho que fazer. não mexe neles, deixa a planta quetinha aí. E meu pai aproximava e afastava o palitinho de dentes, rindo, enquanto minha mãe, desconcentrada, tentava explicar pro moço o que acontecia com as florzinhas de romã.

Voltávamos de um almoço de domingo, das vezes em que íamos na churrascaria - alguma dessas datas comemorativas, feito dia dos pais. E ela disse que subiria, pegaria o bonsar e iríamos encontrar o cara que daria dicas de como matar os pulgões. Então você liga antes pra ele! se não a gente vai até lá e não encontra o cara. Ela subiu apressada, estava de vestido. Agora sua mãe liga pro cara, ele não atende, porque essa hora ninguém vai ficar em esquina nenhuma vendendo bonsai, e então a gente sobe e vê um filminho, comendo chocolate. outro dia levo ela lá com esses pulgões. E vem vindo ela, as florzinhas vermelhas balançando entre as folhas verdinhas. Ah, não acredito! ela conseguiu falar com o cara!

Isso aqui é pulgão, moça. tem que tirar. pega um palitinho e vai tirando um por um mesmo, não tem jeito. Depois ela nos contou isso rindo, enquanto meu pai se balançava todo reafirmando. Não falei? to falando que conheço, que sei como é que acaba com pulgão. Mas e esse negócio das folhas opacas, aí mãe? perguntou porque elas não estão verdinhas e brilhantes como estavam? Ah, isso ele me falou que é sujeira, acredita? Rimos todos, tanto. Ela explicou que passaria a burrifar um pouquinho de água pra que não acumulasse poeira em cima das folhas. O cara aproveitou pra podar a ponta dos galhos. De vez em quando, quando a senhora ver que ela ja ta ficando mais fraquinha, pode podar um pouco pra dar força e ela crescer. Vou podar ela inteirinha quando a gente chegar em casa! Não, Fulove, não é assim não! o cara já podou hoje, agora tem que esperar. E eu sempre acabo achando engraçado o jeito dela continuar acreditando nessas brincadeiras do meu pai.

E quando minha mãe pegou as malas e saiu, estipulou-se mudamente que meu pai regaria o bonsai toda manhã. Ele o faz. Exceto quando viaja e então minha irmã toma a frente. A responsabilidade por retirar os pulgões é de todos. Não sei me aproximar da janela sem pegar o palitinho que ja fica colocado do ladinho do vaso. Há vezes em que gasto hora inteira caçando os pontinhos brancos, tirando e jogando pela janela. E o olhar vai ficando mais apurado. Os ninhos deles parecem novelinhos de algodão. Tenho um pouco de nojo e tiro com os dedos na pontinha do palito, o corpo esticado para traz. E vou me virando envolta dele. Olho de cima pra baixo, depois me agacho, coloco a cabeça fora da janela, entrando. Já tirei um monte deles. Sem pressa alguma. Vou cutucando e tirando e jogando fora.

Mas outro dia olhei de novo pra primeira florzinha que vingou. Continua aqui e tem ficado cada vez maior e arredondada. Talvez saia mesmo uma romã e minha irmã talvez a coma. As outras flores continuam a surgir. Há uma média de oito. Mas já nascem tristes e eu não consigo acreditar nelas. Os pulgões continuam se proliferando e eu tenho medo de termos criado uma harmonia entre nós. Mato tantos quantos nascem. Ou nascem tantos quanto matamos. Mas fiquei pensando que se os pulgões todos morrerem, se um dia eu pegar o palitinho e não tiver onde mais tirar pontinho branco. Daí pensei nesse dia eu talvez esqueça pra sempre de esperar a romã nascer.

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Segunda-feira, Outubro 29, 2007  


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[pra quem nunca soube chegar]

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Foram dias atípicos, aqueles. Não tardariam a minguar e acabariam por deixar esse resto de festa na ponta dos dedos. O susto inicial é sempre o desnorteador das noções.

Tinha olhos esverdeados e, então, deixou-se olhar sem pressa. Deixou-se tocar com cautela. Cílios sorridentes. Um carinho embutido nos piscares.

Obviamente não traria consigo um envelope e documentos autenticados, três cópias, reconhecidos em firma. Não haveria aviso prévio.

Ok. Vejamos o que traz aqui. Olha, infelizmente esse oco não vai poder ser instaurado. O edital de inscrição não está corretamente preenchido. Além disso, as testemunhas precisam, necessariamente, residir na região e... Não, não! Isso não pode ser resolvido mediante verba. Não, nem com esses bens valiosos. Me desculpe. Será necessário retornar num outro dia, com toda documentação corretamente preenchida e organizada. Funcionamos de 2ª a 6ª em horário comercial. Obrigado. Próximo!

Mas vindo em galopes infantis lhe fizera abrir os braços num ímpeto de entrega. Pegou-lhe pela costela, subindo pelo tórax, tomando-lhe a garganta, seca. Na ponta dos cabelos ainda escorriam cores e sons. Um turvo na concha dos ouvidos, chegando a checar se tinha suja as barras da calça.

Se pegou em idéias avessas. Num primeiro instante olhando com distância e inferioridade. Depois, o desmanche dos posicionamentos certeiros. Pensou nos olhos caídos daquela que, cansada de ver rasgar a pele e as vísceras, decide abandonar o nome daquele que lhe permitiu o estopim de existência mais sincero. Se lembrou com força da maneira como as lágrimas se alojam sobre os cílios inferiores e fazem boiar as retinas frágeis. Teve pena e compaixão, mas não lhe nasceu coragem ou respostas viáveis. Destroncou o pensamento pr'aquela que, crente, se permite inventividades vazias. O sorriso das que com alma de meretrizes põe-se de quatro, de costas, de jeito. E choram enquanto chupam e gozam, enquanto choram.

Mas feito vem, assim. Vai-se de maneira escorrida. Talvez ainda faísquem as intenções de permanência. Mas não há vilosidades, gosma, cola. Escorre. Sabão. Feito sem presente de agradecimento, não há despedida. Não há madeira sobre madeira, com pregos e amarras, pra sustentar um aceno. Não há escrivaninha, talvez seja isso. Caneta tinteiro já não se encontra e isso inviabiliza tanta coisa. Envelopes, por exemplo. Como conseguir escolher uma cor que não agrida ou anule? Então, vai-se de maneiras sem enfins. Então, desenha-se, sozinhamente, no escuro de um quarto já apagado, o que não se leu, o que não se soube.

Sabe a delicadeza máxima?
Sabe quando a gente vai deitar e se percebe com um resto de sorriso? O resto daquela alegria toda.
Existe, não é? É no que eu acredito. Onde me encosta a vida e eu sei que vale a pena.
Mas eu não nego nem peso, nem dores - é bom que eu explique. É só que sou facilmente fagocitada se alguém me puxa pela mão. Porque eu acho das coisas mais bonitas: duas mãos dadas.
Só que então existe um fio de aflição crescente e um estranhamento engraçado. "Essa tristeza é mesmo minha?". É não, menino. Mas eu me deixo ser encostada e doer, de leve, feito fosse.
Fica uma vozinha me sussurrando que eu não tenho direito algum de ser feliz nesse chão revirado. Quase desrespeito, sabe? Quase invasão - ainda que você me esteja puxando pela mão.
Não houve pensamento prévio. Mas me há um início de movimento contrário. Igual quando a tarde termina de cair e é maior o eco dos latidos e o grito inteiro das cigarras.
Já inventei um bocado de teorias pra me explicar que é no meu jeito o convite pra essa aflição. Mas já não posso com racionalidades em demasia. Já não posso inventar religiões que abriguem minha fé (custa-me muito tecer orações que se esvaziarão na repetição oníssona de seus fiéis). Já não tenho jeito algum pra discursar arrebatando seguidores - nunca tive. Me entende que não se trata de apresentações expositivas? É de outro jeito que as pessoas se invadem (e a idéia de uma invasão brusca é linda, mas experimente imaginá-la lenta e gradual - uma folha de papel sendo vagarosamente repousada sobre a água).
Eu preciso muito do silêncio. Prezo quando observam minha distância e sabem convertê-la em conforto. Quando reconhecem nos meus braços um jeito tão feminino de dar colo e também me aconchegar.
Mas já não posso com rasgos tolos. Já não posso com piscares levianos. Porque fujo antes, em correria.
Fujo sem deixar senha ou restos de roupa. Com quase tudo quanto cheguei trazendo. Em silêncio.


E vai fazendo um friozinho fino.
Até que no fim das noites todas, então.
Em silêncio.

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Segunda-feira, Outubro 22, 2007  


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Paralelepípedos

Depois pensou que era chata demais essa mania de metáforas. Arriscou teorias metafísicas.
[e achou chata demais essa tentativa de racionalidades]

O mindinho já doía menos e a quina da mesa, agora, assim calada. "Qualquer canto".

Mas que de fato pareciam pedras entremeadas por terra. Chão. Sabe? Terra mesmo, marrom. A lhe escorrer a chuva feito canais, veias, tubos. Sangue vermelho e quente. E pensou na estrutura das pedras. No jeito de serem aglutinadas. No desenho desforme e encantador que acabam formando. Inventou, naquele instante, que a beleza só é possível se ao acaso.

dois segundo e meio depois: lembrou do Amor.

O desconcerto. olhos baixos, frio na barriga. Entra a orquestra, foco no rosto do mocinho.
[quase risadinhas - mão na boca - desceria no próximo ponto: ufa! Afinal, já raiava um sol sem pena.]

Tirou a roupa e levou até a área de serviço, onde tirou do varal a toalha branca.
Escovou os dentes, se analisando no espelho, antes de ligar o chuveiro: queimado.
Pula, pula, pula.
Ahhh...
Dizia alguém, noutro tempo, que banho gelado faz bem.
Ao menos faz crer um mundo mais quente.
Deitou-se sem pressa. Esticando aos pouquinhos o corpo que perdia o frio.

Ainda esticou os dedos dos pés. Coçou o cotovelo.
Um meio sorriso.
Um sossego sem ócio.
Felicidade, disse também alguém n'algum tempo e lugar.

Paralelepípedos.

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Terça-feira, Julho 17, 2007  



O PRATO e a faca

Beirar o desatino. Não por opção, peso de escolhas, cálculo de rastros e resquícios de sanidade. Porque, definitivamente, cascas. Os cegos dos nós em processo de decomposição. Decadência dos cristais soterrados da poeira velha. [um sopro, o vôo e a decadência] Mãos afanando-lhe o gozo. Feito longas gargantas umidecidas de abandono e carência.

- Já reparou em como podem ser tristes as gargalhadas infantis? - Rosana dizia olhando para os próprios pés, enquanto os meninos corriam e se jogavam na grama.

- O kischt, minha cara. Não fale como se quisesse ausentar esse instante em que se obriga feliz.

O desenlace se dava nestes exatos entremeios de respiração e gesto. Pedro ainda não se livrara da mania de mordiscar os lábios internamente, criando-lhe caretas que não deixavam Rosana se conter. Se ao menos ela conseguisse não olhá-lo, e então continuaria a fluir pelo lodo corrente, pelo escuro que se infiltravam a fim de tatearem-se visceralmente. Já não pontuava quando, exatamente, passara a se alimentar desses instantes asquerosos. Sabia, de alguma maneira que somente as mulheres podem entender - posto que somente elas sentem de tal maneira -, que houvera um pequeno som agudo quando penetrara a primeira vez nos diálogos a que Pedro a infiltrava. Além disso, gostava de seus sapatos envelhecidos. Não se tratava de um estilo proposital, da escolha minuciosa em armários centenários. Pedro sofria males que não lhe permitiam o carimbo e as finanças.

[Há certa situação, nas vidas pulsantes, em que se profere discursos lambusados em óleo, engordados de teorias. Corta-se o ventre, acumula-se no cerne do mais alto tom da voz berrante aquele número de sementes que não permite uma outa, mínima que seja, posterior. E larga este animal, estupidamente gordo de teses e fétido das repetições rocambolescas, em meio à avenida, trombando carros, confundindo pedestres, ocupando os cantos destinados aos cidadãos em situação de rua.]

Noutros tempos fora, de fato, fruto de invenções. A janela, os cigarros no canto da boca e alguma espécie de riso. [sim, e como riam] Mas a noite sempre vinha. Vinha Pedro e vinha medo. Mas abria os olhos a querer que saltassem. Cozinhava-lhe ovos pela manhã, mexidos, como preferia. Escolhia a música que soava dos poros dele, antes que Pedro soubesse querer. Tão antes, que não chegava a saber da querência.

- O excesso, Pedro.

- Se faz necessário, claro. - passando as pontas dos dedos indicador e polegar na barra de sua nova saia. O movimento de pinça evidenciando o que ele jamais verbalizaria. Era notavelmente uma saia nova e ele, no tal movimento tátil, dizia-lhe ter percebido. Mas ainda não respondia-lhe se havia gostado.

- Falo da morte - e os pêlos do braço se levantaram todos, foi ela sentindo descerem até escorrer pelos pés - Falo de quando o excesso pode romper a vida.

Tentou, infinitas vezes, um som constante ao raspar a faca no fundo do prato vazio. Procurava a nota que se tornaria via de caminhada. Permearia-se por cima e por baixo, sem rompê-la. Não saberiam sequer olhá-la, não teriam meios humanos de tocá-la e, então Rosana, sempre raspando a faca - sem cessar -, abaixaria os olhos, subiria a saia e entregaria sem alarde, sem movimento contrário, sem jogo de pesos.

Enquanto.

Chamando insanidade, decadência, indícios de suicídio. Rosana tilintava os dedos na ponta da mesa. Impossível, doente. Já tentara médicos? Já tentara viagens? Os dedos a tilintar um ritmo crescente. Os espaços já se necessitavam maiores, pediam fermento - fermento sempre lhes eram dados. Crescendo, sem parar. Rosana com olhos. Uma pena, alguma dor. Pedro também não perdera a mania de tossir, limpando a garganta sempre que perdia a meada das construções mentais. Vez outra desviava Rosana do centro do sentido. Tilintava.

Viriam em fila.

O prato e a faca. Era preciso que pudessem entendê-la.

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Hermann Hesse, por Andy Warhol
Os Dias de Ontem

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