Quinta-feira, Março 25, 2010
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PENA
Qualquer que fosse o seu desejo, naquele momento não importava. Ela encolheu os dedos das mãos, fechando os punhos. De pernas cruzadas, apoiou os cotovelos nas coxas e o rosto nas mãos. Fechadas. O passar dos visitantes a deixava tonta. Eram todos rostos conhecidos, mas ela não encarava nenhum dos olhos que lhe eram derramados. Sabia que havia ali algo que lhe entregavam sem que ela quisesse receber. Certas mãos e afagos quentes e molhados que não lhe faziam sentido. As vozes, entrecortadas por suspiros e narizes ofegantes, criavam uma ladainha uníssona e inútil. Ela não ouvia.
Três semanas depois do ocorrido, seu rosto ainda estava magro e pálido. Agora eram os vizinhos a lhe entregar pesares e ela continuava sem entender os gestos soltos e desconexos. Não havia rotina a ser retomada, era o que ninguém entendia. Não havia ritmo, fé, força. Havia o espaço. Como quando o bolso de uma calça é retirado e sobra a marca escura de algo que viveu por ali longamente.
A verdade é que começara, sem saber bem como, a chorar. Acordou com frio numa madrugada qualquer – porque quaisquer eram os dias – e chorou. Não encolhida, como quem tem culpa. Soluçava de olhos arregalados, a camisola empapada lhe grudando o corpo todo, a boca sinalizando horror. Verteu lágrimas grossas e pesadas durante exatos 73 dias. Ininterruptamente. Habitou-se ao salgado e úmido.
Ao final da maratona, desidratada, tinha a pele enrugada, feito criança que não quer sair do mar. Os passos lentos a levaram até a cozinha. Encontrou uma maçã verde. Concentrou-se para controlar uma possível iminência de choro. Não era necessário, embora ela não soubesse. Segurou a fruta pelo cabinho seco, com as pontas dos dedos. Mordeu um farto pedaço e mastigou com força. Até que virasse água. E foi assim, mordida por mordida. Transformando tudo em água.
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Quarta-feira, Janeiro 13, 2010
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SILÊNCIO
Lembro-me com êxtase o quanto me impressionou a descoberta de que silêncio também podia significar encontro. Quando o que se alcança é demasiado alma para ser interrompido por vozes. Silêncio que se faz em meio a multidões. Silêncio de olhares. De mãos dadas.
Até então o silêncio me era o engodo. O nó sem desate. A encruzilhada em que se decidem para onde caminharão os corpos dali pra frente. Mau agouro.
Silêncio era medo.
Descobertos outros caminhos, guardei em mim meu maior silêncio. Inalcançável, inabalável. Ponto de equilíbrio.
Escapatória.
Solução.
Dedos sorrateiros, que me mostraram os percalços de cuidar do auto-silêncio, também quiseram furtá-lo. Desesperados, tateavam no escuro e só encontravam imagens desgastadas e barulhentas.
Meu silêncio é instável. Se esconde, protegendo-se dos ruídos ao redor.
E quando aqueles olhos negros surgiram.
E quando, então, aqueles olhos negros decidiram ficar.
Lá dentro enxerguei o silêncio dele.
Apaixonei-me completamente pela possibilidade de repousar neles o meu silêncio.
Distraída, já sem receios de furtos, derramei e fiz-me inteira.
Olhos negros, embora fechados num sono sereno, não cessavam de me acalentar.
Meu silêncio amarrou-se a eles, tão escuros e fundos, sabendo que é pouso seguro.
Mansamente me deixo ser outro silêncio. Já dele.
Nosso.
Silenciosamente.
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Quinta-feira, Janeiro 07, 2010
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PAPO NA COZINHA
- Sabe que... já faz um tempo, ta acontecendo uma coisa engraçada, toda vez que eu vou dizer guarda-chuva, eu acabo falando travesseiro! Mesmo quando só estou pensando, por exemplo 'nossa, não posso esquecer meu guarda-chuva', sai a palavra travesseiro no lugar!
- Agora que você ta falando isso, eu tenho uma coisa estranha também, toda vez que vou pensar nas coisas que tenho pra fazer e começo a enumerá-las, por exemplo 'ir ao banco, comprar pão...', no meio das coisas começo a pensar 'arroz, feijão, batata...'. E às vezes esse pensamento repetitivo é tão forte que eu demoro a me concentrar e conseguir realmente pensar nas coisas que tenho pra fazer!
[vinte minutos de gargalhadas ininterruptas]
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Quarta-feira, Dezembro 23, 2009
Fim de ano.
De novo.
Natal. Réveillon.
Papo, cerveja, presentes.
Panetone.
Neve de espuma.
Velhinhos suados em baixo de roupas vermelhas aveludadas.
Meia-noite com brindes.
Abraços.
Tudo pode ser tão ridículo quanto feliz.
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Quarta-feira, Setembro 23, 2009

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Quarta-feira, Julho 15, 2009
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PONTUAÇÃO
Há os que forçam as distribuições de seus segredos, quase que empacotados e etiquetados. Os que cravam assuntos para dar suporte aos desabafos decorados pela repetição, esvaziados pela ausência do outro que permita a criação de um diálogo. Ainda os que escondem debaixo de colchões suas verdades, por medo de perdê-las. Ou que lá escondem a si próprios. Os que não saem de dentro di si, enclausurados. Perdidos na ilusão do que lhes parece mais seguro – mesmo já tão velho o dito sobre o perigo de viver. São miragens as plataformas que se cristalizam pela crença inquestionável.
Não se pontua uma escolha. Talvez a escolha de um livro, de uma cor pela outra, do instante pro cigarro. Mas não uma escolha que se estenda, de uma escolha que rume as próximas escolhas. Não se pontua o momento em que se deixa alguém entrar. Pontua-se o sim para eventuais passeios, brindes de cerveja e sexo. Mas jamais o movimento de concordância que envolve dedos emaranhados, domingos preguiçosos no sofá e troca de olhares que segredem compreensões. Não se pontua a entrega. É possível controlar impulsos, equilibrar ansiedades, dividir angústias. Mas a entrega – traiçoeira que é – faz-se às escondidas, na mordida do doce alheio e nas mãos que passeiam pela perna por baixo da mesa. E só é possível, em sua verdadeira concepção, se recíproca.
E cria raízes que se agarram pelos desenrolares do tempo e das disposições. A entrega é mais do que uma somatória de miúdas escolhas, a entrega é uma fé. Ser tão o que se é para que seja possível doar-se sem poréns. Quem estará disposto aos percalços do desconhecimento territorial alheio? São corajosos e vivos que lançam a alma no redemoinho, sem cordas ou capacete. Abrindo mão de corrimões.
Há ainda, ironias da existência, as entregas descompassadas. A intenção mútua dos amantes, vontades recíprocas de pertencimento, mas: o desencontro. Movimentações delicadas e inflamadas de atenção, como que se mirando em espelhos, se olhando e se pretendendo reflexos perfeitos da ação do outro. Ou frustram-se pela assimetria dos gestos, ou congelam-se para facilitar a simulação de uma igualdade: o encontro. E se de cá chora um, o do outro lado escorre também suas lágrimas. Já sem controle se o faz por cumprir a tentativa de gestos harmoniosos, ou se por choro seu, de tristeza também real. Fato é que, por fim, a entrega se dá até mesmo na negação. E, por isso também, a incapacidade de pregar alfinetes coloridos nos nós dos acontecimentos que signifiquem a decisão de entregar-se. Quando dá-se conta: deu-se.
A entrega é mesmo livre, assim. Feito estalo em folha seca. Feito um sussurro se alongando pelos tímpanos. Uma vez em terras férteis, ainda que chova ou vente em demasia, ou que por acontecer o contrário, seque o chão até as funduras, uma vez caído o grão, ela nasce. Em silêncio e tortuosa, desenhando seus mistérios. Indo embora sem avisos. Abandonando o ventre remexido e vulnerável. Instaurando nova espera.
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Quinta-feira, Abril 16, 2009
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NO SEGREDO DA FÉ
Começou numa daquelas manhãs abafadas de Resende, enquanto subia a ladeira do Jardim Brasília II, indo pra casa depois do colégio. Na mochila que me deixava empapada de suor, eu carregava as folhas da longa carta que escrevia para Sara.
Ao virar a esquina, já de costas para o Pico das Agulhas Negras, avistaria o sorriso largo e dócil dela. Sara desceria a rampa da garagem para nos abraçarmos saudosas e emocionadas. Eu falaria dos dias vazios, das saudades de Minas Gerais e da falta dela nos meus dias.
Mas ao chegar ao meu portão: nem Sara, nem cartas na caixinha de correio.
Então eu abria a porta, beijava minha mãe, que estava sempre preparando o almoço, e subia lentamente as escadas que levavam ao meu quarto.
Ao abrir a porta, já acostumada ao silêncio daqueles dias, encontraria Sara sentada em minha cama. O tal sorriso, o loiro dos cabelos e o sotaque manso.
Mas ao fim dos degraus, a porta aberta denunciava o vazio do quarto.
Dias em seqüência, o caminho para casa era o alimento de minha fé. Tecia, cuidadosamente, os detalhes dessa mentira, enganando-me de esperança. Sara nunca cruzou os mais de seiscentos quilômetros de Sete Lagoas até o interior carioca. Fui eu tantas vezes até lá para visitá-la, reencontrar os amigos do teatro, o primeiro menino que namorei e algumas das verdades que construí.
Mas quando em casa, dias inúteis, eu era a dona de meus próprios enganos, criando as mentiras que se diluíam. Tão logo eu dobrasse a esquina, no instante em que alcançava o mais alto da escada.
Sara nunca soube que sua ausência minguava minha fé. E passei a culpar-me pelas frustrações diárias. Já exausta de uma espera solitária, acabei por concluir que minhas mentiras eram responsáveis pela anulação dos acontecimentos: uma vez que eu pensasse, a possibilidade tornava-se vento.
A solução me veio nos entremeios do tempo. Para reencontrar a esperança e em mim a nascente da fé, aprendi então a voar.
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Sábado, Março 28, 2009
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ONDE
["Com que direito me ensinaste a vida quando eu estava bem, morta de frio?..."]
Estávamos, saberia?
Se mãos dadas, se olhos dispersos, se acaso?
Talvez disritmia
Ou grandes demais
talvez pequenos
Feito girino,
feito pedaços
de grama
Dispersos, ventos e idas
Diria, certa de si, estávamos
Praqui
prali
Juntos
Ventos, girios e gramas.
Acaso
Aqui não há silêncio
Não se ouve o que de si berra mais alto
Não se é
Aqui, espera
Soluço
calo
Pacientemente,
passo
Não somos
Fôramos?
Ciclo sem fim
A querer ficar
pedir que esteja
Tempo
O que não sobrou
escorre pelos lençóis sonolentos
Não estava
Quisesse,
talvez.
Saberia?
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Segunda-feira, Março 16, 2009
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MOVIMENTO
Beirava o abandono.
De si. Dele. Dos outros.
Um abandono sem avisos. Virar-se em direção à porta e iniciar a caminhada. Mala roçando a lateral do corpo. Olhos miúdos e dispersos.
Abandonar os desencontros e a espera.
Largar.
Abrir mão.
Esquecer.
De si. Dele. Dos outros.
Um esquecimento lento. Ocupar-se de livros, pássaros e gastronomia. Finais de semanas recheados de si.
Esquecer as insônias.
Mãos soltas. Arritmia. Suor.
Ir.
E depois de tanto.
(tendo vivido indiretamente os desenlaces necessários)
Abrir-se inteira.
A permissão.
De si. Dele. Dos outros.
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Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009
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PASSAGEM
Sob a perspectiva de um tempo que se torna inteiramente grávido de futuro foi que descerrou os olhos. Mas não esses de fora, captando mundo e desenhos nas nuvens. Mas dos de dentro, voltados pras razões que certas vezes se esfumaçam e embaralham o entendimento – suspeitando-se de abortos apavorantes. Decidindo-se, pois, sem dar-se conta dos meandros, embrenhou-se por umas quantas questões que adormeciam, há anos, a ausências de gabaritos. E foram tempos turbulentos aqueles.
O medo aparecia-lhe no sono atribulado: noites misturando maravilhas e foices. Pequenez no estômago – bolinha verdinha de ervilha murcha. Um tamanho todo de crânio forçando os limites físicos e leis naturais de temperatura e pressão. Era o descompasso silencioso de uma mosca a debater-se contra o vidro que não existe. Ou que em sua natureza de mosca, não vê.
Como quando se fala de baixo d’água. O eco oco. Bolhas inúteis correndo para alcançar a liberdade do céu. Num estalar de superfícies em que elas morrem na própria pressa. Porque a morte vem sempre num estalo. Tempo longuíssimo de paciência, isso sim. Barulhos intermináveis insistindo em bater estaca. O umbigo é o fogo central, a origem cega e vital. Erro necessário pra desvendar membros, dedos e enlaces. A fraqueza dos músculos em desuso, antes de cansados. Deslumbradamente dispostos quanto inaptos.
Quando enfim.
Olhos abertos em águas e cores. Fechados em lábios delicadamente postos. Dedos exatos que passeiam pela pele fresca e entregue.
Quando feita a paz.
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Terça-feira, Janeiro 06, 2009
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ANOS DE VISTA VERDE
A infância que passei no interior de São Paulo. Não tinha pastos, cavalos, nem Manuelzinhos-da-crôa. Sempre uma menina acostumada aos desprazeres da cidade.
“Cuidado com carro!”
“Não fale com nenhum estranho...”
“Olha a hora, já ta atrasada!”
Mas há o interior em suas graças.
A amiga da rua de cima. Descendo com a caixa cheia de bonecas para que brincássemos na varanda. Sabão em pó e mangueira pra escorregar nos azulejos enquanto durasse o verão. Saquinhos compridos de plástico cheios de suco artificial sendo insistentemente checados no congelador para que fossem saboreados ao ponto.
“Quem chegar por último é a mulher do sapo!”
Um dia, voltando da aula – escola de uns quarteirões acima. Foi ainda no portãozão do pátio que chutei uma pedrinha cinzenta. De um dedal era seu tamanho. Fui golpeando delicadamente aquele pedacinho. Fiz subir e descer calçadas, atravessar ruas, rolar pela rampa do lado da igreja – meu deus, como era enorme a rampa que hoje subo em quatro passadas largas! – e fui levando a pedrinha adiante. Fiz conhecer o caminho de saída do mundo. Quis mostrá-la o aconchego.
Na ladeira da rua Santa Fé, já apegada à companhia que eu levava sem resistências, tive medo que rolasse fugidia. Agachei-me e descobri o amor.
Tinha a tal pedrinha, no de dentro de uma lasca, uma tal infinidade de facetas brilhosas que fiquei de cócoras a observar o universo recém-descoberto. Os dedos em pinça colocaram-na no centro de minha palma branca que se fechou enquanto eu corria pra casa querendo banhá-la.
Sabonete, água corrente e o reflexo do meu riso no pescoço da torneira da pia. Escolhi uma caixinha – seus quatro lados de um centimetro – com uma espuminha que deixava o leito mais confortável. Assistia televisão, almoçava, tomava banho, ia dormir... deliciosamente acompanhada. Ao sair para aula dava-lhe beijos carinhosos e andava aflita, já com saudades.
Não sei bem quando e qual a maneira.
Fui esquecendo-me da pedrinha. A caixinha já não me acompanhava pelos cômodos da casa, já não era aberta todos os dias. Nunca mais dei-lhe banhos. Fui esquecendo-me dela. O mundo e a vastidão da imaginação que me ocupava o tempo e as idéias. Fui esquecendo-me. Até que nunca mais a soube. Assim, sem dores, sem despedidas. Sem dar-me conta.
Nunca tive um porquinho-da-índia.
Aquela pedrinha sim é que foi o meu primeiro namorado.
[tornei-me eu pedrinha. tornei-me busca pela tal lasca em mim. uma procura pela fresta que me leve às infinitas facetas brilhantes
(...)
alguns que viram. e também dormi em caixinhas acolchoadas. outros também esqueceram-me. apesar das despedidas e contas
(...)
também eu já fui embora]
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Sábado, Dezembro 27, 2008
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Olho meus pés roçarem a areia, enquanto ouço vendedores ambulantes em seus sotaques e disposições.
Ao longe bate um pandeiro.
Cristo Redentor brigando com as nuvens: esticando a pontinha dos dedos a fim de limpar o céu.
Minha pele arde de sal e sol.
Os braços de meu pai envolvendo a brancura delicada de minha mãe.
Peixinho frito, chope e canga.
A vida inteira e tudo o que poderia sempre ter sido.
Olhos apertados de miopia e claridade.
Que jeito mais atencioso de dar as boas vindas pro janeiro que chega.
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Quinta-feira, Novembro 13, 2008
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AVALIAÇÃO DO QUARTO BIMESTRE
Quatro leques de pestanas saltadas que evidenciam os castanhos globos oculares. Atentos. Receosos de quê? Em pequenos movimentos circulares, como que lambendo cada pedaço do que alcançam as vistas da vista de si. Concentrando-se no meio dos fios alinhados que se deitam acima dos leques, abaixo da parede clara e lisa – que, em insatisfações ou desentendimentos, se converte em reajuste de músculos: numa testa enrugada. Que ali, ainda lisa, já estão guardadas as promessas das marcas que a vida trata de dar. Demorar-se em pontos fixos é permitir-se enxergar os primeiros sinais, riscos leves que nem o maior riso seria capaz de anulá-los.
No centro da face aponta delicado e róseo um nariz, nem fino, nem largo. Pedaço de cartilagem bem articulado entre a pele clara das maçãs recém-despertas de uma noite insone. Gripe que interrompe o processo silencioso, invertendo o dedicar-se de Narciso em contorções bruscas e úmidas dos espirros e assoares das narinas. Na esquerda delas, que de cá se vê de lá a mesma, um fio fino e prata a rodear o lado canhoto nasal. Logo abaixo, os lábios. Dois gomos sobrepostos, desenho sutil de contornos em movimento de aconchego. São libertos de segredos, evidenciam não os ter e, por isso, não se trancam secos e imóveis. Antes são dispostos ao desenlace e mostram brancas fileiras de dentes.
Deixando as atenções rumarem ao pé do rosto, desliza-se por um arredondado ósseo que delimita o oval. Formato tal que é interrompido por um par de orelhas simetricamente opostas, harmoniosamente decoradas de argolas prateadas e pequenos brilhos que atravessam a carne de suas extremidades. Ali não dormem os segredos que os lábios desconhecem. Ali as conchas auditivas estão atentas ao eco que o silêncio faz. Parecem distraídas. Mantêm-se dispostas às ondas que lhe invadam sem ruídos, em comunicação que se faça inteira e entendível.
Retorna-se aos olhos, amansados de si, da dedicação concentrada. Reiniciando em reinvenção todo o processo de descobrimento. E levam-se anos, vidas inteiras na busca de sentidos para a imagem refletida. Os mistérios que geramos e que se emancipam de nós antes de descobertos.
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Segunda-feira, Novembro 10, 2008
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PRIMAVERAS CONSTANTES
Como tem gente delicada no mundo...
Cris disse enquanto a menina se distanciava, com duas balas escondidas nas miúdas mãos fechadas em concha.
Fazia um calor forte demais para uma primavera recém-nascida naqueles entremeios de setembro. Mas um vento vinha de leve mexer no vestido da menina, nos cabelos de Cris, nos meus olhos que se enrugavam.
Eu gosto desse tempo. Gosto mesmo. Lembro de sempre desenhar umas florzinhas quando era criança. E minha mãe dizia que sempre quando me perguntavam do que eu mais gostava na vida, aí eu respondia que era da primavera...
Ela tinha um jeito lento e preciso de sorrir, sem esbanjar a alegria que de fato lhe comovia. E se num pedaço de história acontecesse de se lembrar de coisas outras menos felizes, não disfarçava o movimento do rosto se transformando num lento cair de músculos. Mas geralmente tinha os lábios fechados num começo de sorriso ainda não dado. Cris era uma promessa. O por-vir. O de-depois que é recompensa e melhora do que se tem nos agoras das horas infinitamente presentes.
Pensando melhor, agora, eu achava que os cabelos curtos lhe ficavam bem. Realçavam as maçãs do rosto, os negros olhos atentos – cabendo em si a curiosidade nata que é dada ao sexo feminino. Que perguntam sem dedos em escoriações, rodeando as respostas que já conhecem, feito borboletas que não se permitem prever o rumo. Cris era a mulher mais borboleta que já nasceu.
A menininha voltou, em pequenos saltos, se aproximando inclinada do rosto de Cris, que se abaixou, surpresa e agradecida, ao beijo estalado. Ela sequer sabia que a delicadeza das gentes do mundo só lhe saltava às vistas por razão de suas retinas dispostas. Ela sequer sabia que nas delicadezas todas há um cerne que não se alcança, uma razão silenciosa que se move na generosidade. Como se uma qualidade diferente de almas delicadas estivesse distribuída e fosse se reconhecendo em gestos de delicadeza.
Faz muito tempo que eu perdi a espontaneidade do prazer... isso é tão estranho, a gente esquecer onde coloca o desejo, ficar desatento ao que dá força pros movimentos, não é?
O olhar era interrogativo, mas a questão era muda de resposta. No eco dos gritos das outras crianças todas Cris devia se deitar. De braços abertos. Junto aos pequenos que vestiam suas cores, carregando balões e algodões-doce. Que a beleza de Cris nascia exatamente onde surgiam as plenitudes e os ápices. E também onde estes se perdiam, caindo em desencanto, em esquecimento, em turvas atenções – feito guardassem em si o segredo que lhes serviu de vida. Cris era essa espécie de gaveta. Vezes aberta, noutras não. Cris baixou os olhos e colocou a mão no meu colo. Retribuí o gesto, descansando meus dedos sobre os dela.
E passaram-se anos. Vieram primaveras inteiras, correram ventos e folhas. Os dias acumulados. Os restos de risos. Começos de estradas. Pedaços de pano e pó.
Cris colheu dois frutos ressequidos de seu útero ansioso. Perdeu pai e mãe. Conheceu um irmão bastardo. Comprou terras. Vendeu o carro. Tatuou a panturrilha esquerda. Colocou lentes de vidro sobre os olhos negros e sentou-se num banco do parque. Canelas de fora, pés de fora, colo de fora. Sorriso leve de fora a fora.
Sentei-me a seu lado. Os cabelos curtos ficaram muito bem. Crianças corriam naquele domingo ensolarado de primavera. Cris falava sobre a infância, os prazeres, a delicadeza.
Colocou a mão sobre meu colo.
Eu jamais poderia prever que todo o resto do que eu seria se tornaria o eterno rodear do momento. O eterno rodear em Cris. Infinitamente.
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Quarta-feira, Outubro 22, 2008
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NEGACEAR
[Não faz a mínima idéia de quando o conceito de Morte entrou em sua vida como uma idéia inteira, possível de ser pensada.]
Na latência de um otimismo bem construído liam-lhe nos gestos uma disposição indiscutível para os acontecimentos. Daquelas gentes da gente manter perto, pra clarear as anuviações que de vez em quando nos tomam. Era bem-vinda, sempre. A primeira a ser escolhida no time de queimada, a receber cartões de admiradores secretos e a ser pedida em casamento. Mas e não é que existe sempre alguma morte na decisão já tomada? – Esquivava-se, indo em frente sem as camisas que lhe ofereciam e chutando as bandeiras que lhe esticavam.
Ia além de brigar pela vida, de acreditar no fio em que se suspende toda a permanência nascida. Era a negação. Negava, entortando o rosto, a testa suada e tensa. Negava qualquer faísca de morte, qualquer trâmite que ameaçasse sua plenitude bem formada.
Triste era saber que a tal boa formação não lhe convencia por inteira. Tinha medo, ela. Um medo danado de morrer sem se dar conta. De ver os dedos dos pés necrosarem, subindo pelas canelas, tomando a vagina, o umbigo, murchando os seios. E quando chegasse aos olhos? Negava qualquer tipo de morte, por medo de ser surpreendida – vai saber que tantos tipos tais existem.
Nunca admitiu a morte. Nem em suas menores demonstrações – a semente de pêssego ressequida na pia. Tinha aversão a qualquer possibilidade de definhamento. Escolhia amigos não por gosto, mas por peles coradas e brilho nos olhos. Não se curvava a reclames, não respondia pedintes, não encarava capas de jornais. O apartamento era colorido. O plástico dava conta da vida que ela não plantava. Não fazia yoga, não acreditava em incensos e nunca rezou.
Tratava-se, pura e simplesmente, de negar a morte.
Que espécie de exigência fazia ao mundo? De que forma esperava não ser contrariada? Que só não perde nada aquele que nunca comprou fichas. Ela comprava em compulsão, para não se lembrar das que perdia, nos bolsos furados. Nunca admitiu a morte aos seus redores. Não se permitia passageira da vida. Queria as mãos dadas aos que mantêm o salto em suspensão, segundos que antecedem o gozo, arrepios que emocionam o por dentro, se exteriorizando.
Uma vez, com tanto medo de enxergar sua morte na fraqueza de não dar conta, aceitou a travessia um rio de correnteza previamente avisada. De águas nos ouvidos, canal do nariz e boca se entupindo, as pernas tremendo em força que se esticava ao que podia, coração em bomba a explodir. Ela soltou os braços do nado, deitou as costas na nata da água, abriu os olhos pro céu: banhou o rio de lágrimas duras e negras. Pegaram-na puxando pelos braços – sem que ela nunca soubesse que a profundidade de toda a extensão não era maior que sua altura.
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Palavras e Imagens
Alquimia do Verbo
Arara Teresa
Atire no Dramaturgo
Bruna Amado
Cia do Chá
Coisas Imediatas
Flibusteiros
Flor Carambola
Hipertricose Nasale
Jé Mimessi
Maroca
Memórias do Café Nice
Misson
O Carapuceiro
Pelas Tabelas
Ranchocarne
Solilóquios Idioléticos
Sinclair Acapulco
A Voz do Silêncio
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