HORAS DE CLARICE
"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)


Quinta-feira, Abril 16, 2009  


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NO SEGREDO DA FÉ

Começou numa daquelas manhãs abafadas de Resende, enquanto subia a ladeira do Jardim Brasília II, indo pra casa depois do colégio. Na mochila que me deixava empapada de suor, eu carregava as folhas da longa carta que escrevia para Sara.

Ao virar a esquina, já de costas para o Pico das Agulhas Negras, avistaria o sorriso largo e dócil dela. Sara desceria a rampa da garagem para nos abraçarmos saudosas e emocionadas. Eu falaria dos dias vazios, das saudades de Minas Gerais e da falta dela nos meus dias.

Mas ao chegar ao meu portão: nem Sara, nem cartas na caixinha de correio.

Então eu abria a porta, beijava minha mãe, que estava sempre preparando o almoço, e subia lentamente as escadas que levavam ao meu quarto.

Ao abrir a porta, já acostumada ao silêncio daqueles dias, encontraria Sara sentada em minha cama. O tal sorriso, o loiro dos cabelos e o sotaque manso.

Mas ao fim dos degraus, a porta aberta denunciava o vazio do quarto.

Dias em seqüência, o caminho para casa era o alimento de minha fé. Tecia, cuidadosamente, os detalhes dessa mentira, enganando-me de esperança. Sara nunca cruzou os mais de seiscentos quilômetros de Sete Lagoas até o interior carioca. Fui eu tantas vezes até lá para visitá-la, reencontrar os amigos do teatro, o primeiro menino que namorei e algumas das verdades que construí.

Mas quando em casa, dias inúteis, eu era a dona de meus próprios enganos, criando as mentiras que se diluíam. Tão logo eu dobrasse a esquina, no instante em que alcançava o mais alto da escada.

Sara nunca soube que sua ausência minguava minha fé. E passei a culpar-me pelas frustrações diárias. Já exausta de uma espera solitária, acabei por concluir que minhas mentiras eram responsáveis pela anulação dos acontecimentos: uma vez que eu pensasse, a possibilidade tornava-se vento.

A solução me veio nos entremeios do tempo. Para reencontrar a esperança e em mim a nascente da fé, aprendi então a voar.
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Sábado, Março 28, 2009  


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ONDE

["Com que direito me ensinaste a vida quando eu estava bem, morta de frio?..."]

Estávamos, saberia?
Se mãos dadas, se olhos dispersos, se acaso?
Talvez disritmia
Ou grandes demais
talvez pequenos
Feito girino,
feito pedaços
de grama
Dispersos, ventos e idas

Diria, certa de si, estávamos
Praqui
prali
Juntos
Ventos, girios e gramas.
Acaso

Aqui não há silêncio
Não se ouve o que de si berra mais alto
Não se é
Aqui, espera
Soluço
calo
Pacientemente,
passo

Não somos
Fôramos?
Ciclo sem fim

A querer ficar
pedir que esteja
Tempo
O que não sobrou
escorre pelos lençóis sonolentos

Não estava
Quisesse,
talvez.

Saberia?
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Segunda-feira, Março 16, 2009  


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MOVIMENTO

Beirava o abandono.
De si. Dele. Dos outros.
Um abandono sem avisos. Virar-se em direção à porta e iniciar a caminhada. Mala roçando a lateral do corpo. Olhos miúdos e dispersos.
Abandonar os desencontros e a espera.
Largar.
Abrir mão.
Esquecer.
De si. Dele. Dos outros.
Um esquecimento lento. Ocupar-se de livros, pássaros e gastronomia. Finais de semanas recheados de si.
Esquecer as insônias.
Mãos soltas. Arritmia. Suor.
Ir.

E depois de tanto.
(tendo vivido indiretamente os desenlaces necessários)
Abrir-se inteira.
A permissão.
De si. Dele. Dos outros.
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Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009  


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PASSAGEM

Sob a perspectiva de um tempo que se torna inteiramente grávido de futuro foi que descerrou os olhos. Mas não esses de fora, captando mundo e desenhos nas nuvens. Mas dos de dentro, voltados pras razões que certas vezes se esfumaçam e embaralham o entendimento – suspeitando-se de abortos apavorantes. Decidindo-se, pois, sem dar-se conta dos meandros, embrenhou-se por umas quantas questões que adormeciam, há anos, a ausências de gabaritos. E foram tempos turbulentos aqueles.
O medo aparecia-lhe no sono atribulado: noites misturando maravilhas e foices. Pequenez no estômago – bolinha verdinha de ervilha murcha. Um tamanho todo de crânio forçando os limites físicos e leis naturais de temperatura e pressão. Era o descompasso silencioso de uma mosca a debater-se contra o vidro que não existe. Ou que em sua natureza de mosca, não vê.
Como quando se fala de baixo d’água. O eco oco. Bolhas inúteis correndo para alcançar a liberdade do céu. Num estalar de superfícies em que elas morrem na própria pressa. Porque a morte vem sempre num estalo. Tempo longuíssimo de paciência, isso sim. Barulhos intermináveis insistindo em bater estaca. O umbigo é o fogo central, a origem cega e vital. Erro necessário pra desvendar membros, dedos e enlaces. A fraqueza dos músculos em desuso, antes de cansados. Deslumbradamente dispostos quanto inaptos.
Quando enfim.
Olhos abertos em águas e cores. Fechados em lábios delicadamente postos. Dedos exatos que passeiam pela pele fresca e entregue.
Quando feita a paz.
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Terça-feira, Janeiro 06, 2009  


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ANOS DE VISTA VERDE

A infância que passei no interior de São Paulo. Não tinha pastos, cavalos, nem Manuelzinhos-da-crôa. Sempre uma menina acostumada aos desprazeres da cidade.

“Cuidado com carro!”
“Não fale com nenhum estranho...”
“Olha a hora, já ta atrasada!”

Mas há o interior em suas graças.
A amiga da rua de cima. Descendo com a caixa cheia de bonecas para que brincássemos na varanda. Sabão em pó e mangueira pra escorregar nos azulejos enquanto durasse o verão. Saquinhos compridos de plástico cheios de suco artificial sendo insistentemente checados no congelador para que fossem saboreados ao ponto.

“Quem chegar por último é a mulher do sapo!”

Um dia, voltando da aula – escola de uns quarteirões acima. Foi ainda no portãozão do pátio que chutei uma pedrinha cinzenta. De um dedal era seu tamanho. Fui golpeando delicadamente aquele pedacinho. Fiz subir e descer calçadas, atravessar ruas, rolar pela rampa do lado da igreja – meu deus, como era enorme a rampa que hoje subo em quatro passadas largas! – e fui levando a pedrinha adiante. Fiz conhecer o caminho de saída do mundo. Quis mostrá-la o aconchego.

Na ladeira da rua Santa Fé, já apegada à companhia que eu levava sem resistências, tive medo que rolasse fugidia. Agachei-me e descobri o amor.

Tinha a tal pedrinha, no de dentro de uma lasca, uma tal infinidade de facetas brilhosas que fiquei de cócoras a observar o universo recém-descoberto. Os dedos em pinça colocaram-na no centro de minha palma branca que se fechou enquanto eu corria pra casa querendo banhá-la.

Sabonete, água corrente e o reflexo do meu riso no pescoço da torneira da pia. Escolhi uma caixinha – seus quatro lados de um centimetro – com uma espuminha que deixava o leito mais confortável. Assistia televisão, almoçava, tomava banho, ia dormir... deliciosamente acompanhada. Ao sair para aula dava-lhe beijos carinhosos e andava aflita, já com saudades.

Não sei bem quando e qual a maneira.
Fui esquecendo-me da pedrinha. A caixinha já não me acompanhava pelos cômodos da casa, já não era aberta todos os dias. Nunca mais dei-lhe banhos. Fui esquecendo-me dela. O mundo e a vastidão da imaginação que me ocupava o tempo e as idéias. Fui esquecendo-me. Até que nunca mais a soube. Assim, sem dores, sem despedidas. Sem dar-me conta.

Nunca tive um porquinho-da-índia.
Aquela pedrinha sim é que foi o meu primeiro namorado.

[tornei-me eu pedrinha. tornei-me busca pela tal lasca em mim. uma procura pela fresta que me leve às infinitas facetas brilhantes
(...)
alguns que viram. e também dormi em caixinhas acolchoadas. outros também esqueceram-me. apesar das despedidas e contas
(...)
também eu já fui embora]

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Sábado, Dezembro 27, 2008  


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Olho meus pés roçarem a areia, enquanto ouço vendedores ambulantes em seus sotaques e disposições.
Ao longe bate um pandeiro.
Cristo Redentor brigando com as nuvens: esticando a pontinha dos dedos a fim de limpar o céu.
Minha pele arde de sal e sol.
Os braços de meu pai envolvendo a brancura delicada de minha mãe.
Peixinho frito, chope e canga.
A vida inteira e tudo o que poderia sempre ter sido.
Olhos apertados de miopia e claridade.

Que jeito mais atencioso de dar as boas vindas pro janeiro que chega.
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Quinta-feira, Novembro 13, 2008  


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AVALIAÇÃO DO QUARTO BIMESTRE

Quatro leques de pestanas saltadas que evidenciam os castanhos globos oculares. Atentos. Receosos de quê? Em pequenos movimentos circulares, como que lambendo cada pedaço do que alcançam as vistas da vista de si. Concentrando-se no meio dos fios alinhados que se deitam acima dos leques, abaixo da parede clara e lisa – que, em insatisfações ou desentendimentos, se converte em reajuste de músculos: numa testa enrugada. Que ali, ainda lisa, já estão guardadas as promessas das marcas que a vida trata de dar. Demorar-se em pontos fixos é permitir-se enxergar os primeiros sinais, riscos leves que nem o maior riso seria capaz de anulá-los.

No centro da face aponta delicado e róseo um nariz, nem fino, nem largo. Pedaço de cartilagem bem articulado entre a pele clara das maçãs recém-despertas de uma noite insone. Gripe que interrompe o processo silencioso, invertendo o dedicar-se de Narciso em contorções bruscas e úmidas dos espirros e assoares das narinas. Na esquerda delas, que de cá se vê de lá a mesma, um fio fino e prata a rodear o lado canhoto nasal. Logo abaixo, os lábios. Dois gomos sobrepostos, desenho sutil de contornos em movimento de aconchego. São libertos de segredos, evidenciam não os ter e, por isso, não se trancam secos e imóveis. Antes são dispostos ao desenlace e mostram brancas fileiras de dentes.

Deixando as atenções rumarem ao pé do rosto, desliza-se por um arredondado ósseo que delimita o oval. Formato tal que é interrompido por um par de orelhas simetricamente opostas, harmoniosamente decoradas de argolas prateadas e pequenos brilhos que atravessam a carne de suas extremidades. Ali não dormem os segredos que os lábios desconhecem. Ali as conchas auditivas estão atentas ao eco que o silêncio faz. Parecem distraídas. Mantêm-se dispostas às ondas que lhe invadam sem ruídos, em comunicação que se faça inteira e entendível.

Retorna-se aos olhos, amansados de si, da dedicação concentrada. Reiniciando em reinvenção todo o processo de descobrimento. E levam-se anos, vidas inteiras na busca de sentidos para a imagem refletida. Os mistérios que geramos e que se emancipam de nós antes de descobertos.
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Segunda-feira, Novembro 10, 2008  


[http://www.flickr.com/photos/ludowitzka]
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PRIMAVERAS CONSTANTES

Como tem gente delicada no mundo...

Cris disse enquanto a menina se distanciava, com duas balas escondidas nas miúdas mãos fechadas em concha.
Fazia um calor forte demais para uma primavera recém-nascida naqueles entremeios de setembro. Mas um vento vinha de leve mexer no vestido da menina, nos cabelos de Cris, nos meus olhos que se enrugavam.

Eu gosto desse tempo. Gosto mesmo. Lembro de sempre desenhar umas florzinhas quando era criança. E minha mãe dizia que sempre quando me perguntavam do que eu mais gostava na vida, aí eu respondia que era da primavera...

Ela tinha um jeito lento e preciso de sorrir, sem esbanjar a alegria que de fato lhe comovia. E se num pedaço de história acontecesse de se lembrar de coisas outras menos felizes, não disfarçava o movimento do rosto se transformando num lento cair de músculos. Mas geralmente tinha os lábios fechados num começo de sorriso ainda não dado. Cris era uma promessa. O por-vir. O de-depois que é recompensa e melhora do que se tem nos agoras das horas infinitamente presentes.
Pensando melhor, agora, eu achava que os cabelos curtos lhe ficavam bem. Realçavam as maçãs do rosto, os negros olhos atentos – cabendo em si a curiosidade nata que é dada ao sexo feminino. Que perguntam sem dedos em escoriações, rodeando as respostas que já conhecem, feito borboletas que não se permitem prever o rumo. Cris era a mulher mais borboleta que já nasceu.
A menininha voltou, em pequenos saltos, se aproximando inclinada do rosto de Cris, que se abaixou, surpresa e agradecida, ao beijo estalado. Ela sequer sabia que a delicadeza das gentes do mundo só lhe saltava às vistas por razão de suas retinas dispostas. Ela sequer sabia que nas delicadezas todas há um cerne que não se alcança, uma razão silenciosa que se move na generosidade. Como se uma qualidade diferente de almas delicadas estivesse distribuída e fosse se reconhecendo em gestos de delicadeza.

Faz muito tempo que eu perdi a espontaneidade do prazer... isso é tão estranho, a gente esquecer onde coloca o desejo, ficar desatento ao que dá força pros movimentos, não é?

O olhar era interrogativo, mas a questão era muda de resposta. No eco dos gritos das outras crianças todas Cris devia se deitar. De braços abertos. Junto aos pequenos que vestiam suas cores, carregando balões e algodões-doce. Que a beleza de Cris nascia exatamente onde surgiam as plenitudes e os ápices. E também onde estes se perdiam, caindo em desencanto, em esquecimento, em turvas atenções – feito guardassem em si o segredo que lhes serviu de vida. Cris era essa espécie de gaveta. Vezes aberta, noutras não. Cris baixou os olhos e colocou a mão no meu colo. Retribuí o gesto, descansando meus dedos sobre os dela.

E passaram-se anos. Vieram primaveras inteiras, correram ventos e folhas. Os dias acumulados. Os restos de risos. Começos de estradas. Pedaços de pano e pó.

Cris colheu dois frutos ressequidos de seu útero ansioso. Perdeu pai e mãe. Conheceu um irmão bastardo. Comprou terras. Vendeu o carro. Tatuou a panturrilha esquerda. Colocou lentes de vidro sobre os olhos negros e sentou-se num banco do parque. Canelas de fora, pés de fora, colo de fora. Sorriso leve de fora a fora.

Sentei-me a seu lado. Os cabelos curtos ficaram muito bem. Crianças corriam naquele domingo ensolarado de primavera. Cris falava sobre a infância, os prazeres, a delicadeza.
Colocou a mão sobre meu colo.

Eu jamais poderia prever que todo o resto do que eu seria se tornaria o eterno rodear do momento. O eterno rodear em Cris. Infinitamente.
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Quarta-feira, Outubro 22, 2008  


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NEGACEAR

[Não faz a mínima idéia de quando o conceito de Morte entrou em sua vida como uma idéia inteira, possível de ser pensada.]

Na latência de um otimismo bem construído liam-lhe nos gestos uma disposição indiscutível para os acontecimentos. Daquelas gentes da gente manter perto, pra clarear as anuviações que de vez em quando nos tomam. Era bem-vinda, sempre. A primeira a ser escolhida no time de queimada, a receber cartões de admiradores secretos e a ser pedida em casamento. Mas e não é que existe sempre alguma morte na decisão já tomada? – Esquivava-se, indo em frente sem as camisas que lhe ofereciam e chutando as bandeiras que lhe esticavam.

Ia além de brigar pela vida, de acreditar no fio em que se suspende toda a permanência nascida. Era a negação. Negava, entortando o rosto, a testa suada e tensa. Negava qualquer faísca de morte, qualquer trâmite que ameaçasse sua plenitude bem formada.

Triste era saber que a tal boa formação não lhe convencia por inteira. Tinha medo, ela. Um medo danado de morrer sem se dar conta. De ver os dedos dos pés necrosarem, subindo pelas canelas, tomando a vagina, o umbigo, murchando os seios. E quando chegasse aos olhos? Negava qualquer tipo de morte, por medo de ser surpreendida – vai saber que tantos tipos tais existem.

Nunca admitiu a morte. Nem em suas menores demonstrações – a semente de pêssego ressequida na pia. Tinha aversão a qualquer possibilidade de definhamento. Escolhia amigos não por gosto, mas por peles coradas e brilho nos olhos. Não se curvava a reclames, não respondia pedintes, não encarava capas de jornais. O apartamento era colorido. O plástico dava conta da vida que ela não plantava. Não fazia yoga, não acreditava em incensos e nunca rezou.

Tratava-se, pura e simplesmente, de negar a morte.

Que espécie de exigência fazia ao mundo? De que forma esperava não ser contrariada? Que só não perde nada aquele que nunca comprou fichas. Ela comprava em compulsão, para não se lembrar das que perdia, nos bolsos furados. Nunca admitiu a morte aos seus redores. Não se permitia passageira da vida. Queria as mãos dadas aos que mantêm o salto em suspensão, segundos que antecedem o gozo, arrepios que emocionam o por dentro, se exteriorizando.

Uma vez, com tanto medo de enxergar sua morte na fraqueza de não dar conta, aceitou a travessia um rio de correnteza previamente avisada. De águas nos ouvidos, canal do nariz e boca se entupindo, as pernas tremendo em força que se esticava ao que podia, coração em bomba a explodir. Ela soltou os braços do nado, deitou as costas na nata da água, abriu os olhos pro céu: banhou o rio de lágrimas duras e negras. Pegaram-na puxando pelos braços – sem que ela nunca soubesse que a profundidade de toda a extensão não era maior que sua altura.
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Quarta-feira, Outubro 15, 2008  


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CALOR

Calor dos infernos. Forno. Quente pra porra. Uma estufa.

As meninas que se assanham de pernas e peitos à mostra. Os cabelos em rabos de cavalo ou coques presos com grampos. Dedinhos dos pés respirando em sandálias: rasteiras, de tirinhas, plataformas, coloridas, com detalhes, sem fecho, amarradas.
As bermudas neles. Pelos suando pelas canelas que terminam em havaianas. O peito, sem camisa, reflete a claridade toda de dias assim. Amarram o pano na beirada, pela cintura, ou jogam pelos ombros, como que esquecidos do tal.
Uns de óculos escuros, outros de olhos apertados. Gotas espalhadas pelo rosto: envolta da boca, no queixo, na beiradinha do nariz, na testa próximo de onde nascem os cabelos. E nas moças, o meio dos seios. Já nos homens, escorrendo pelas costas. Todo mundo com a nuca molhada.
Tome água, picolé e papel firme a balançar um vai-e-vem que sopre fresco na cara.

E dizem que de lá nunca se viu calor igual, os olindenses. Subindo e descendo as ondas de pedra com o a pino lhe estapeando as cacundas. E de Resende o carioca arreganha os vidros do carro, pretexto pro som alto e batido – potentes caixas de som. Setelagoanas insistem em cobrir as coxas, as moças. Nas mesas da calçada, sem vagas, tomemos mais uma e mais outra. E dizem de longe que se abafa em suores, aqueles de Taubaté – um tanto de tostões em gasolina no vai e volta da serra. Grita uma claridade nos olhos aquela Taquaritinga entre repiques. A noite continuando o que foi do dia, chamando pro que ainda se oferece de festa. E parece que até lá fora, nos pertos de Nova York, calor escorrido assim nem nunca se soube. Dá-lhe ar condicionado, praias pagas e cerveja mexicana. Paulistanos mantêm seus guarda-chuvas ao alcance: a moça do tempo avisou no jornal que lá vem frente fria.

Combinações simultâneas de gorós depois do expediente. Universitários durante as aulas. Ousados abrem suas garrafas já na hora do almoço. Mais ousados ainda, há os que abrem a primeira e não voltam pro período vespertino. Espertos confirmam viagens para o litoral. Idosos aproveitam a sombra das árvores. Marombeiros fazem aula na piscina. Chefes não aparecem no serviço. Preguiçosos se sentam em frente ao ventilador. Crianças tomam banho de mangueira.

Um bafo. De rachar mamona. Derretendo o asfalto. Calor dos infernos.
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Sexta-feira, Outubro 10, 2008  


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SOBRE CHAVES E SELOS

Térreo. Beatriz ouviu a porta de vidro bater, os passos de alguém no hall do prédio. Ela entrou no elevador e segurou a porta com a mão. Os olhares se encostaram um pouco incomodados, desconfortáveis. Ela apertou o oitavo, ele agradeceu por ela ter esperado, num breve obrigado quase sem a sonoridade final, e manteve-se quieto durante a subida dos primeiros andares. Como que num susto, apertou o décimo segundo.

- Quase esqueci! – num sorriso macio, e olhou a menina sem encará-la muito, mais concentrado em qualquer coisa entre seus papéis. Não parecia sério e preocupado, mas antes concentrado em suas idéias.

Deve ser professor, foi o que Beatriz pensou quando olhou a pasta de couro surrada e o moletom esgarçado, lã azul escura desbotada e cheia de bolinhas. Usava óculos. Ele e também Beatriz.

Oitavo. Ela ajeitou a bolsa e se posicionou em frente à porta. Antes de sair virou-se dando tchau e boa noite. Mauro parecia, mais uma vez, respondê-la quase num susto. Tinha os gestos risivelmente atrapalhados, mas ainda assim, sem estabanar-se.

Na manhã seguinte, por volta das 7h, mexia nas correspondências quando o elevador chegou.

- Beatriz Fonseca, sim. Ana Carolina, não. Ana Carolina, não. Não. Não. Beatriz, sim. Sim. Pronto. – deixou as cartas de “não” sobre o tapete e então levantou a cabeça.
- Pena que todas as correspondências que vêm com nosso nome são contas, né?

Era Mauro quem segurava a porta, num semblante tranqüilo, um quase sorriso.

- Pois é, tudo virou e-mail agora, né? – disse Beatriz entrando e conferindo se ele apertara o botão do térreo.
- Aqui ó, esse bolo de envelope e nada de cartão postal, história de alguém em outra cidade, um amigo de infância restabelecendo contato...Pelo menos ainda me tratam pelo nome, né? Senhor Marcos Salles. Excelentíssimo Marcos Salles. Amigo Marcos Salles. É, ta bom, vai.

Riram cúmplices. Apesar da conversa trivial, dos poucos minutos até o elevador parar e ele dizer que desceria até a garagem, parecia já se conhecerem a mais tempo do que os dois encontros no elevador. Antes de descer, mais uma vez, Beatriz virou-se para dar tchau e um bom dia. Dessa vez ele parecia já esperar que ela se despedisse.

- Bom dia. E boa leitura, esse cara aí exige bastante fôlego.

Antes de colocar o livro na bolsa, Beatriz olharia primeiro para a capa e depois para a porta do elevador, já fechada.

...

Pareceriam demorar os anos todos até que ela completasse seus 22.
Ele, com mais 22 além dos dela.

...

Se encontrariam freqüentemente no elevador, sempre saindo e chegando – os horários se casavam. Beatriz passaria a descer com Marcos até a garagem, enquanto terminavam algum assunto, depois tornaria a subir para o térreo para ganhar as ruas até o ponto de ônibus. Marcos passaria a oferecer caronas, todos os dias, mesmo que trabalhassem em diferentes direções. Ela nunca aceitaria, elogiando a rapidez e facilidade de pegar um único ônibus até o trabalho. Ele repetiria que já pensou muitas vezes em vender o carro e viver só de transporte público. Ela descobriria que ele é jornalista e trabalha numa editora pequena. Ele ficaria sabendo que ela se formou em administração, por influência do pai, profissão que não gostava. Nem desgostava.

- Mas teve uma época em que eu comprava livros compulsivamente, era uma coisa horrorosa.

Beatriz rindo do jeito dramático dele contar as histórias.

- Eu queria morar na sua casa. Você deve ter uma biblioteca fantástica, tantas músicas e filmes, né?
- Tem bastante livro, sim. Vinis e CDs eu tenho menos, mas também tenho alguns. Filme é uma coisa que eu nunca tive muito costume de comprar, não. Mas se quiser dar uma olhada eu te empresto alguma coisa. Se você fugir é só eu pegar o elevador e descer quatro andares pra resgatar os objetos!

Conversavam na garagem, enquanto Beatriz segurava a porta do elevador, para subir novamente ao térreo.

- Mas eu queria morar na sua casa por mais que isso, sabe? Mais do que estar lá fisicamente lendo seus livros, ouvindo suas músicas e bebendo vinho, que você deve ter, né? – riu-se um pouco tímida.

Marcos manteve os olhos levemente apertados, olhando-a com curiosidade, enquanto ela continuava:

- Eu queria morar lá porque se eu fosse alguém que você quis que morasse lá, é porque eu seria uma pessoa muito legal. A minha vontade era de merecer morar com você, entendeu?
- Entendi. – respondeu-lhe, sério mas sem peso.

Marcos deu-lhe um beijo no rosto, ofereceu mais uma vez a carona que Beatriz recusou, com o rosto levemente rosado pela confissão.

...

- Beatriz Fonseca, sim. Ana, não. Beatriz, sim. Sim. Sim. Não. Ana, não. Beatr.. o que é isso?

O envelope amarelo tinha como remetente Marcos Salles. O elevador abriu, ela entrou enquanto rasgava o papel e descobria junto ao bilhete uma chave:

Querida Bia,

Talvez quem não mereça sua companhia é esse cara que já passou dos quarenta, se desiludiu com um bocado do mundo e esqueceu como ainda gosta dos livros que comprou compulsivamente um dia.
Já não nos vemos com a mesma freqüência desde que você mudou de emprego. Então eu te deixo a chave da minha porta no décimo segundo andar: vá se familiarizando com as estantes, pegue o que quiser, pode abrir os vinhos e quando eu voltar dessa viagem que estou indo fazer para Portugal, você me conta sobre o que leu e pensou.
Esteja preparada para receber alguns cartões postais, também.

Um beijo,
M.


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Segunda-feira, Agosto 25, 2008  


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NAZARENAS E ABANDONOS

Quando Nazarena mexia o copo de café mirando os olhos na marca que o sol fazia no assoalho, sabia eu que lá nos vinha tormenta. Então se levantava, enquanto engolia pacientemente cada gole sonoro, e vinha dar-me um beijo na cabeça. Meus olhos de menino tinham medo de encará-la nesses dias. Ficava a lamber os dedos sujos de manteiga, borrando de óleo a caneca azul.
Nazarena se matou no verão de minha primeira série do ensino fundamental.
Mamãe me buscou na escola com uma blusa negra num sol que, se me lembro ainda hoje, doem as retinas. Ela tinha as mãos geladas e durante o caminho foi me pedindo para falar o que eu achava de Nazarena, se ela era engraçada, se brincava comigo, se eu gostava de suas broas e pães. Apesar de ter na memória uma infância de silêncios e olhares, naquela tarde cheguei a acostumar-me com minha voz.
Na esquina de nossa rua mamãe se ajoelhou na minha frente, tinha os olhos marejados e os lábios ressequidos. Eu tive medo, me ajoelhei também, imitando seu gesto por não saber como proceder.

- Nazarena não está mais lá em casa, filho. Ela precisou ir embora, não podia mais ficar. Quando você crescer mais um pouquinho, vai entender melhor essa coisa dos adultos precisarem partir.

Foram longos e difíceis os passos até nosso portão. Tudo me parecia mais lento e pesado. Eu não senti vontade de chorar e fui inventando uma raiva de Nazarena. Seu descaso com nossos segredos, seu desinteresse em terminar as regras dos jogos que inventávamos, aquela displicência toda em partir sem antes, enfim, deixar-me ajudá-la com os bolinhos de chuva.
Nazarena tinha cheiro de terra. As mãos eram um tantinho ásperas, boas de deixar deslizar nas costas da gente. E fazia um cafuné gostoso depois do lanche da tarde, no sofá. Nazarena tinha, também, os pés grandes e me deixava brincar com seus chinelos vermelhos.

Quando completei 13 anos, meu pai autorizou uma festinha para os amigos lá em casa. Me lembro da lista com os 37 nomes. Mamãe pediu que eu ajudasse nas compras e passamos toda tarde daquela sexta percorrendo supermercados e lojas, para providenciar tudo para o dia seguinte. Enquanto eu segurava as sacolas, mamãe correu até a prateleira de descartáveis porque estava esquecendo copinhos e talheres.
Do lado de fora, do outro lado da rua, passou Nazarena.
Senti meus joelhos perderem a força, meus dedos vacilarem nas alças de plástico. Meus olhos estancaram em seu movimento lento e contínuo e não consegui chamar minha mãe. Quando ela me encontrou branco e trêmulo quis saber o que acontecera. Disse eu que Nazarena havia passado por ali.
Riu-se. Triste e aliviada. Contou-me que Nazarena havia se suicidado naquela época. Que nunca me contara essa história por medo de me chocar.
As sacolas arrebentaram no chão, abracei minha mãe em soluços que me doíam as costelas. Pesou-me toda a ausência de Nazarena, transformou-se em desilusão toda a raiva que sedimentou-se desde que Nazarena tinha ido embora.

Mês passado o pai de minha esposa matou-se na banheira de seu apartamento, aos 93 anos. Suspeitávamos de que ele estivesse ficando esclerosado, mas não imaginávamos tal desfecho. Admirou-me o fato de eu não querer chorar. Abracei minha mulher durante todo o velório e o enterro. Mas sentia constantemente a vontade de sorrir. Recebi dela olhos sinceros de gratidão por minha calma e atenção.
Ontem, quando cheguei de mais uma quarta-feira de trabalho, li no móvel da sala o bilhete de despedida de minha esposa. Não teve coragem de me encarar pra dizer que partiria e preferiu sair quando eu não estivesse, deixando um bilhete.

Deve ser por causa de Nazarena que as histórias de suicídio me parecem mais doces.
Quando senti que a morte me doía mais do que o abandono, entendi porque é que as pessoas precisam partir.

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Sexta-feira, Agosto 15, 2008  


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Enquanto tomava meu café expresso e grifava Harold Bloom - dizendo que Dom Quixote e Sancho Pança só passam por mudanças durante a narrativa porque se ouvem reciprocamente, e não porque se enclausuram dentro das próprias idéias e solidões - um par de all star vermelho se aproximou da minha mesa:

- Oi, você é a Karina*?

Meus olhos caminharam sobre minha xícara, a calça bege, camiseta com listras horizontais, barba mal feita e uns olhos tão doces por trás dos óculos de aro preto.

- Karina? Não, não...

Quando repeti o nome que me perguntara, ele manteve as mãos que seguravam livros mais na altura do rosto, como se quisesse enconder-se disfarçadamente atrás deles. E antes que eu chegasse a dizer o terceiro "não" acompanhado de "meu nome é Fernanda", ele agradeceu, pediu desculpas e saiu encabulado.
Eu, que me intimido tanto quanto a pessoa que se envergonhou, abaixei a cabeça sobre o texto novamente, sem sanar minha curiosidade em saber se ele tinha saído da cafeteria ou sentado em outra mesa. Larguei os olhos nas palavras, que me pareceram todas soltas, e me pus a pensar na tal Karina, no tal encontro, no acontecido desencontro e nessas artes da vida, como bem já disse tal poetinha.
Mas logo voltei-me pras digressões à respeito das andanças do Cavaleiro da Triste Figura.
A porta de vidro se abriu e ele entrou acompanhado de um casal. Sentaram-se a duas mesas de distância. Ele de costas pra mim. O casal de frente.
Perguntaram-lhe onde ele trabalhava. A moça [Karina? pensei] era linda com seus cabelos cacheados colocados delicadamente para trás das orelhas. Vestia uma blusa clara que deixava o colo dos seios nús de maneira tão pura. Ela olhava sorrindo muito, com tanta entrega de um encantamento óbvio, enquanto ele respondia:

- Trabalho em casa.

O casal se entreolhou rindo, uma gargalhada leve e satisfeita.

- A gente queria saber, na verdade, o que exatamente você faz.

E agora quem falava era o cara que parecia acompanhar a garota, não como namorado. Não tinham mais de 35 anos cada um ali. E esse outro moço, de tênis verde, calça jeans clara e cabelo desgrenhado, tinha um sorriso de homem. Os olhos miúdos eram tão atentos e encantados quanto os dela. Os dele, de costas pra mim, eu não via. Mas ele sorria, eu soube por sua voz que explicava o que, exatamente, fazia no trabalho atual.
Falavam de revistas e publicações. Falavam de estudantes, universidades, outros estados e capitais. Eram idéias. A menina olhava para o de tênis verde enquanto ele sugeria uma idéia e então ela também dizia uma outra e eu via a nuca do de all star vermelho se movimentar afirmativamente, gesticulando as mãos.
Me pareceram tão vivos e inteiros. Tão dipostos a darem certo.
Vontade de puxar minha cadeira, pedir mais um café e fazer parte desse futuro promissor.

Guardei meu texto, conferi o horário que marcava o fim do meu intervalo pro almoço e passei pela mesa dos três sem olhá-los.

*Karina: que escrevo assim, com K, por motivos pessoais de carinhos e vivências.
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Segunda-feira, Agosto 11, 2008  


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Eu digo meia palavra. Gesticulo mudamente. Encho o copo e sei que tenho os olhos dispersos. Será o Paraíso desprovido de som? Que só atravessam os grandes portões aqueles cujo silêncio fez-se fé. A que eu tinha, verti junto ao último gole de cerveja. Segurei o copo embaçado na altura dos olhos deixando somente o direito aberto e vi ali, num amarelo opaco, o elixir das crenças reencontradas. E bebi, lentamente, antes de decidir o tamanho do rasgo que fariam os entremeios da vida. Que tudo quanto não tem nome existe mais por não fazer-se em rédeas. E vou rezando, cautelosamente, pelo rumo do sangue que se me corre parece já morto de uma espera prometida. Sem dar-me conta das aporrinhações que fazer-se em peso traz, vou trocando aleatoriamente, grão por grão, as ordens de raciocínios enfermos.

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Quarta-feira, Julho 30, 2008  


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OLHOS

Num tempo de coitos interrompidos e hímens invioláveis a vergonha era marca de bois.

A primeira vez que Lúcia tirou a roupa sem cobrir os seios com os braços foi para ele. Já sem as sandálias, tirou primeiro as calças. Calcinha. Colocou as mãos nas costas desabotoando o sutiã. Puxou as alças pelas mangas da blusa. Não se virou de costas. Olhava nos olhos dele. Ele deitado. Completamente vestido. Lúcia mordia os lábios, tremendo. Tinha medo nos olhos dela. Ele bêbado. Olhava como quem espera a chuva que aponta a metros de distância. Ela segurou a barra da blusa e apoiou os cotovelos na altura da barriga fazendo, num malabarismo sem ensaios, a blusa tombar no chão. Em pé e nua. Lúcia mastigava entre a saliva grossa o resto de vergonha que nutriu até então.

Perdia-se o lugar na casa e a estrada era destino indiscutível.

Quando ele marcou de pegá-la na estação Sumaré, Lúcia saiu de casa com tanta antecedência que pode terminar a leitura de seu livro, encostada nas catracas. Levas e levas de pessoas chegando e saindo. Grupos coloridos e cansados. Lúcia folheava calmamente a brochura entre as palmas, vertendo, vez em quando, os olhos pra direção da saída – por onde ele entraria. Mudou de posição três ou quatro vezes nas quase duas horas em que se manteve ali de pé. Na semana seguinte, em casa, leria tudo de novo com as atenções devidas nas páginas já viradas por ela na estação. O moço que varria o chão pediu licença para limpar aquele espaço onde Lúcia estava. Uma vez mais os olhos na porta de saída. E quando ele chegasse, olhos dele de procura, ela estaria com o livro apertado contra o peito, rangendo os dentes, ansiosa.

O resto dos dias numa lamúria da pele rompida.

Meia marguerita, meia calabresa. Cerveja de garrafa a preço módico. Ele terminava de apertar o toco de um cigarro no cinzeiro enquanto Lúcia servia-os dos pedaços escolhidos. Num gesto automático ele enfiou a mão no prato de Lúcia, roubando sua azeitona preta. Ela parou o movimento de buscar o copo, no meio. Olhou estupefata. Ele mastigou, lentamente, arranhando a pele da azeitona com os dentes da frente. Lúcia deixou a mão pousar sobre o vidro e trouxe o líquido até a boca, sem titubear o olhar. Ele cuspiu na mão o caroço, colocou ao lato da bituca apagada, deu um gole em sua cerveja. Quando apoiou o copo sobre a mesa ele levou os olhos para os de Lúcia – que permaneciam duros e assustados. Ele, então, desceria os dedos até alcançar a saia de Lúcia e subiria lentamente, fazendo-a descruzar as pernas. No resto de pizza e de noite os olhos de Lúcia lamberam-lhe os cabelos, os braços – os dedos.

Abrigos com pouca luz e muitos poros. Às vezes nem notas e vinténs, mas comida e pouso.

Quando ele dormia, deitava a cabeça sobre o braço esquerdo. Com o direito, encostava em Lúcia. Era a disposição estabelecida desde a primeira vez que Lúcia ficara na cama dele. Nas noites de garrafas de vinho esvaziadas ao som dos vinis que ele trocava, era comum que dormissem atravessados um no outro. Pernas sobre as costas, cabeça dele nas nádegas de Lúcia. E nos dias seguintes das tais noites de atravessar corpos, o prazer era conferido no espelho do banheiro. Lúcia tinha olhos graciosamente inchados. Não de muito sono, que era comum que ele a acordasse logo pelas oitavas horas da manhã. Lúcia de olhos cheios. Iam ainda, e já, nus para o chuveiro. Lúcia, enquanto amarrava os cabelos, fingia não reparar nos próprios olhos cheio de gozo.

Os olhos todos a lembrar-lhes a vergonha. E a vergonha: uma espécie de morte.
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Hermann Hesse, por Andy Warhol
Os Dias de Ontem

Palavras e Imagens

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Arara Teresa
Atire no Dramaturgo
Bruna Amado
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Flor Carambola
Hipertricose Nasale
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A Voz do Silêncio